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Começa a reconstrução de São Luiz do Paraitinga 40SP41

Começa a reconstrução de São Luiz do Paraitinga 40SP41

Atualizado: Terça-feira, 12 Janeiro de 2010 as 12

Quanto tempo pode demorar a reconstrução de uma cidade? É essa pergunta que os moradores de São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba, interior do Estado, se fazem enquanto limpam suas casas ou vasculham montes de entulho em busca de algum objeto que tenha resistido à destruição. Na virada do ano, o município foi vítima da maior enchente da história, que deixou cerca de 2.500 pessoas sem ter onde morar.

Sobrados do centro histórico ficaram submersos, e a água demorou pelo menos três dias para baixar totalmente. Domingo, o primeiro após o desastre em que as ruas voltaram a ser transitáveis, os moradores da pequena cidade começavam a reconstruir seu patrimônio. São cerca de 11 mil moradores empenhados em ajudar uns aos outros para que São Luiz possa voltar a ser o que era em 30 de dezembro de 2009.

Algumas imagens lembram até a destruição provocada por uma guerra. Ainda há pedaços de madeira, móveis e restos de comida no meio das ruas. Caminhões de órgãos de serviços públicos passam a todo instante. Um caminhão da Sabesp circula à tarde jogando água de reúdo no chão cheio de barro.

Não é suficiente. Funcionários da prefeitura instalados no coreto da Praça Oswaldo Cruz recrutam voluntários interessados em ajudar a limpar as ruas. "Precisamos de gente para trabalhar no serviço pesado. Pedimos que eles já venham com luvas, botas e máscara", conta Daniele Silva Pereira, chefe de fiscalização da prefeitura. Os equipamentos citados por ela são usados pela maioria dos moradores.

A máscara evita que as pessoas respirem poeira e entrem em contato com o forte cheiro que ainda sai do solo - uma mistura de barro, esgoto e de madeira molhada. O odor é mais forte perto de mercearias. Na Rua Barão de Piratininga havia uma dúzia de frangos congelados jogados no lixo. Em uma mercearia próxima à Praça Euclides da Cunha, ainda há frutas na prateleira.

As lojas do centro passaram o domingo abertas, para a limpeza. "Tínhamos investido quase R$ 80 mil no fim do ano passado. Perdemos tudo", afirma o comerciante Álvaro Dias, 42, enquanto tira a lama do imóvel, construído em 1941. A casa ao lado tem uma folha branca afixada na porta, indicando que está interditada. Ao todo, são 146 imóveis condenados pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas). Ainda há 100 pessoas vivendo nos quatro abrigos da prefeitura e 600 que estão na casa de parentes.

Santa é localizada em meio a escombros

Os moradores mais religiosos de São Luiz do Paraitinga ganharam um motivo a mais para acreditar que serão capazes de reconstruir a cidade do Vale do Paraíba. A imagem de Nossa Senhora das Mercês, tida como a relíquia sacra mais antiga do município, foi encontrada no meio de escombros.

A imagem de barro foi descoberta pelo dentista José Carlos Imparato, 45 anos, que coordenou um grupo de oito moradores responsáveis pela garimpagem do terreno onde ficava a Capela de Nossa Senhora das Mercês, a mais antiga construção de São Luiz, inaugurada em 1814 e tombada em 1982.

"Achamos a santa caída no chão, embaixo de uma parede. Peguei ela com cuidado para não quebrar. O contato com a água todos esses dias fez derreter a parte de baixo da imagem, que é feita de barro", conta Imparato.

A santa foi colocada em uma espécie de estufa no quintal da casa do dentista, coberta com um plástico preto para o barro endurecer. Formado em um curso de arqueologia, Imparato era dono de um antiquário que tinha cerca de 170 imagens e 15 oratórios. Perdeu tudo na enchente da virada do ano.

O dentista aguarda a liberação do imóvel para começar a garimpar também o terreno do seu antiquário e ver se ainda salva alguma coisa. Entre quarta-feira e sábado, o grupo coordenado por ele separou tijolos, pedaços do altar e de outras imagens de santos que poderão ajudar o trabalho dos técnicos e restauradores que irão trabalhar na cidade.

"Um restaurador esteve aqui e disse que a imagem pode voltar a ser exatamente como era. Mas isso custa caro. Acho que as pessoas poderiam fazer doações para a restauração dos bens tombados", diz Imparato.

Em visita ao município semana passada, a presidente do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), Rovina Negreiros, afirmou que o órgão possui a planta original da capela de Nossa Senhora das Mercês e da Igreja Matriz.TD

Vítimas ficaram só com roupa do corpo

Os moradores de São Luiz do Paraitinga que estão vivendo nos abrigos da Prefeitura teriam apenas a roupa do corpo, não fosse a solidariedade de vizinhos e de habitantes de outras cidades.

É frequente ouvir, pelas ruas do município, a frase "perdi tudo". Essas pessoas viram suas casas sendo demolidas e enterrados todos os eletrodomésticos, as roupas, os objetos pessoais, os brinquedos e até documentos.

"Não consegui voltar para ver como ficou minha casa ainda", conta a empregada doméstica Corina Alves, 31. Ela vivia em um imóvel alugado com o marido e o filho de 5 anos. "Tem gente que se arrisca a lavar as coisas, mas não tem nenhuma condição", lamenta a mulher.

Corina mora em São Luiz desde que nasceu. Acostumada a ver subir o nível do Rio Paraitinga, um afluente do Rio Paraíba, a empregada não se lembra de ter visto uma enchente tão grande.

"Em 1968, a água chegou no segundo degrau da igreja (Matriz, destruída pela enxurrada). Mas desta vez foi dez vezes pior. Ver a igreja desabar foi algo de partir o coração", conta a mulher que, no domingo, foi à casa de uma amiga buscar brinquedos para o filho Guilherme. "Ele fica muito agitado no abrigo."

A residência da dona de casa Reinalda Maria dos Santos, 40, construída com alvenaria, resistiu ao temporal. Mas os móveis e eletrodomésticos, não. A marca na parede da sala que mostra até onde a água subiu fica a 20 centímetros do teto.

"Tinha de tudo aqui. Agora não tenho mais nada", diz Reinalda. "Viramos o colchão para conseguir dormir. O resto, roupa de cama, pegamos com a Defesa Civil. Estão dando marmita, mas eu preferia que dessem as coisas e um fogãozinho para eu mesmo preparar."

A dona de casa viajou dia 31 com o marido para passar a virada de ano em uma chácara. Ela não conseguiu voltar para casa antes do dia 3 porque os carros não entravam na cidade alagada.

"Fiquei com medo de que meus cachorros tivessem morrido. Não sabia direito o que tinha acontecido. Só via aquele monte de água", lembra Reinalda, que encontrou seus cães com a polícia.

Por: Tiago Dantas

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