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Comerciantes preveem perdas com fim do tráfico no Alemão

Comerciantes preveem perdas com fim do tráfico no Alemão

Atualizado: Quarta-feira, 1 Dezembro de 2010 as 9:18

Comerciantes que trabalham no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, temem uma redução nas vendas para o final deste ano com o fim do tráfico na comunidade. O dono de uma confecção de roupas, Jeferson de Souza, de 52 anos, que mora na rua Joaquim de Queiroz desde a infância, disse que a formalização dos negócios aumentará a sua despesa mensal. Muitos preferem ficar no mercado informal a ter que pagar impostos.

- Se houver "Choque de Ordem", nós vamos ter que apresentar notas à Receita Federal. Preferimos ficar no mercado informal. Será um "Choque de Desordem" para nós.

Regina da Silva, de 60 anos, dona de uma barraca de acessórios femininos de beleza, acredita que, com a ocupação da polícia, muitas pessoas deixarão de ir até a comunidade.

- As pessoas que iam até a comunidade para comprar drogas também consumiam os nossos produtos. Boa parte do dinheiro que entrava era de consumidores de drogas. Agora, as vendas vão diminuir.

Já o vendedor de frutas Deived dos Santos, de 24 anos, não vê perda com o fim do tráfico no Complexo do Alemão. Ele contou que trabalha na entrada da favela da Grota há 13 anos e que a necessidade de compra das pessoas não deve mudar.

- Para mim, não muda nada. Acho que as pessoas têm necessidade de comprar frutas sempre.

O dono de um bar, que não quis se identificar, disse que espera que o Natal seja como o de todos os anos.

- Espero que isso tudo não influencie no movimento aqui da comunidade. Tenho medo de perder venda com a saída do tráfico.

Após um fim de semana tenso, o comércio começou a funcionar normalmente na segunda-feira (29). Muitos comerciantes fecharam as portas na quinta-feira (25) com medo de tiroteio. A comunidade viveu clima de tensão durante a ação policial e das Forças Armadas contra o tráfico. As escolas da região abriram as portas nesta terça-feira (30). Apenas uma não funcionou, por falta de luz e água.

A Prefeitura do Rio anunciou na segunda-feira um pacote de ações envolvendo praticamente todas as secretarias nos complexos do Alemão e da Penha. Entre as iniciativas, estão previstos mais escolas e creches, novas clínicas da família, melhorias na iluminação e nos acessos, internet gratuita e até um cinema.

Uma resposta do Estado

A operação no Complexo do Alemão faz parte da reação da polícia à onda de violência que tomou conta do Rio de Janeiro na última semana, quando dezenas de carros foram incendiadas em vários pontos do Rio de Janeiro e houve ataques a policiais.

A ação dos criminosos foi vista pelo governo estadual como uma resposta às UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) instaladas nos dois últimos anos em comunidades antes dominadas pelo tráfico.

Para conter os ataques, a polícia, com apoio das Forças Armadas, realizou uma grande ofensiva na última quinta-feira (25) na Vila Cruzeiro, forçando a fuga de centenas de traficantes para o vizinho Complexo do Alemão, onde foram cercados nos dois dias seguintes.

Na manhã de domingo (28), aconteceu a entrada dos policiais e militares no complexo de favelas, com pouca resistência dos criminosos que dominavam há anos a região. Alguns traficantes se entregaram ao longo do cerco, muitos conseguiram fugir e outros foram presos.

A ação na comunidade foi a última grande ofensiva das forças oficiais na operação contra a campanha de violência do crime organizado. Os ataques se enfraqueceram muito já na sexta-feira (26) e no domingo pareciam já ter acabado.

Agora, as Forças Armadas devem permanecer no complexo, até que uma UPP seja instalada, o que pode acontecer no meio de 2011.    

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