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Comunidade convive com mau cheiro e risco de deslizamentos em Friburgo

Comunidade convive com mau cheiro e risco de deslizamentos em Friburgo

Atualizado: Quinta-feira, 20 Janeiro de 2011 as 10

A comunidade do Alto Floresta, a 20 minutos do Centro de Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, permanece mergulhada em escombros e pelo mau cheiro dos corpos que ainda estão sob a lama. O fornecimento de água, alimentos e até a assistência médica dependem do trabalho incansável dos voluntários e das equipes de fuzileiros navais que sobem o morro diariamente.     Nesta quarta-feira (19), o G1 pegou carona no comboio de caminhões e viaturas que subiu a comunidade com cinco toneladas de mantimentos e cinco mil litros de água potável. Marcada pela tensão, diante da presença do tráfico de drogas na região, a missão foi escoltada por fuzileiros armados de fuzis e homens da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

O reforço na segurança foi solicitado logo nos primeiros dias de socorro, quando traficantes teriam recebido equipes de voluntários com pistolas à mostra. Equipados para transitar nos mais diferentes tipos de terreno, os caminhões da Marinha vão até a metade do percurso. Por segurança, a viagem ao topo do Alto Floresta tem de ser completada com veículos leves, já que as estreitas ruas que cortam a comunidade também ameaçam desmoronar.

Quando as equipes da Marinha finalmente chegam a um dos pontos mais altos da comunidade, a sensação é de que o tempo parou na madrugada de terça-feira (11), quando uma avalanche de terra encobriu dezenas de casas, produzindo um número ainda incerto de vítimas.

Cenário ainda é de devastação

Uma semana após a tragédia , que já contabiliza mais de 740 mortes em sete municípios da Região Serrana, carros ainda estão dependurados sob o telhado de casas no Alto Floresta. Apenas uma máquina da prefeitura escava a lama em busca de corpos, acompanhada pelos olhares de moradores que ainda permanecem em suas casas na área de risco.

  Para evitar novas mortes, na terça-feira (18) a prefeitura de Friburgo interditou mais de 250 casas. Desse total, 160 foram condenadas à demolição, mas ainda à tarde os moradores se recusavam a deixar o local. Nem a cachoeira que se formou na encosta assusta as famílias, que preferem conviver com o perigo a mudar para abrigos públicos.

Sem água, sem luz e sem transporte público , os moradores do Alto Floresta vibram com a chegada das equipes da Marinha. Junto ao comboio, o médico da prefeitura, Luis Fernando Azevedo, velho conhecido da comunidade, começa a organizar a distribuição de alimentos e cestas básicas. “Vamos alimentar todo mundo primeiro. Depois faremos as consultas”, avisa, em voz alta, Azevedo aos moradores que se alvoroçam em torno dos carros.

'Se não for a gente, ninguém vem', diz médico

O clínico geral é responsável por toda organização da operação no Alto Floresta. “A Marinha entra com a logística e a gente sobe aqui porque se não for a gente, ninguém vem”, explica Azevedo, que realiza cerca de 700 consultas por dia em áreas atingidas pela tragédia.

Logo que enxerga o médico, a dona de casas Renata Gonçalves, 29 anos, se aproxima com o filho de apenas um ano e seis meses no colo. “Ele está com diarreia, doutor. Não tenho nada para dar pra ele”, explica Renata. “Já vou buscar o remédio, querida”, conforta Azevedo.

Com a dificuldade em conseguir alimentos,  a única fonte de recursos da comunidade é o comboio organizado pelo médico. Arroz, feijão, biscoitos, azeite e enlatados fazem parte do kit distribuídos às famílias. Quando a primeira leva acaba, restam apenas caixas de miojo e água, mas nenhum morador se manifesta. “Vamos, gente. Miojo é comida também”, grita o médico para incentivar.

Enquanto a distribuição de mantimentos segue com a ajuda dos fuzileiros, o médico é chamado até a casa de dona Benedita Raimundo da Silva, 63 anos. Ela está na cama e tem ferimentos inflamados nas duas pernas e nos pés. Só na família dela, seis morreram com a queda da encosta. “O que resta é rezar. Mais não dá para fazer”, diz ela ao médico. “Tem o que fazer, sim. Tem é que limpar isso aqui para não ficar inflamado desse jeito. A senhora está passando a pomada que lhe dei? Tem que passar”, segue Azevedo.

Rua é tomada por mais de três metros de lama

A cerca de 50 metros de onde os mantimentos são distribuídos, a rua onde mora o aposentado Gilberto Luiz Justino, 55 anos, foi tomada por mais de três metros de lama. Carros estão soterrados e ninguém tem certeza se um dia voltará a ver o calçamento da estrada novamente. “Aquilo ali [aponta para um escapamento de moto enterrado na lama] é o que aparece da moto do rapaz aqui de cima. A gente está sobre o teto desse gol do rapaz ali do lado. Ninguém sabe se tem gente aqui embaixo. Mas, pelo cheiro...”, comenta Justino.

Deixando a lama de lado e subindo o morro um pouco mais, quase no topo da comunidade, a escola municipal virou abrigo e a cozinha funciona com ajuda de voluntários que oferecem quatro refeições diárias aos moradores. São quase 200 almoços por dia, além do café da manhã, do café da tarde e o sopão da noite. No cardápio desta quarta, carne bovina assada na panela, arroz, feijão e mandioca.

Para a alegria de uma dezena de crianças, a missão no Alto Floresta termina com a distribuição de brinquedos. Sob a coordenação do doutor Azevedo, as equipes da Marinha distribuíram cerca de 100 cestas básicas e, nesta quinta, irão voltar à comunidade para assistir quem não conseguiu receber a ajuda.    

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