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Coronel queria contratar milicianos para matar juíza, diz delegado

Coronel queria contratar milicianos para matar juíza, diz delegado

Atualizado: Quarta-feira, 9 Novembro de 2011 as 3:45

O delegado Felipe Ettore, da Divisão de Homicídios do Rio (DH), responsável pela investigação sobre o assassinato da juíza Patrícia Acioli , disse, em depoimento nesta quarta-feira (9), que o tenente-coronel Cláudio Luiz de Oliveira , ex-comandante do 7º BPM (São Gonçalo), suspeito de mandar matar a magistrada, queria contratar milicianos para assassiná-la. Ettore prestou depoimento no primeiro dia de audiências sobre o caso, no Tribunal do Júri de Niterói .

Cerca de 150 pessoas devem ser ouvidas, além dos 11 policiais militares suspeitos do crime, em seis dias de julgamento. Além do 7º BPM, Cláudio Oliveira também é ex-comandante do 22º BPM (Maré). Na ocasião em que foi preso, ele afirmou ser inocente .

A juíza Patrícia Acioli morreu em agosto, assassinada com 21 tiros, quando chegava em casa, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio.

Ettore relatou que o coronel não conseguiu falar com os milicianos, e que o serviço seria contratado com dinheiro arrecadado do espólio de traficantes que o grupo do 7º BPM costumava ratear. Policiais do batalhão, então, liderados pelo tenente Daniel Benitez decidiram agir por conta própria, segundo relatou o delegado.

Em seu depoimento, Ettore contou o que ouviu dois policiais militares falarem em depoimentos na delegacia, após serem beneficiados pela delação premiada. Segundo ele, os PMs disseram que a execução não ocorreria sem a autorização do coronel Cláudio Oliveira.

Um dos PMs beneficiados pela delação premiada contou ao delegado a seguinte conversa entre o coronel e o tenente, depois de mais uma sentença rigorosa da juíza contra membros do 7º BPM:

"Covardia se combate com covardia", teria dito o coronel, segundo o policial, autorizando a execução da juíza. "Você estaria me fazendo um favor. De que forma seria?", completou.

"Eu e mais um", teria respondido o tenente.

"Muito bem. Com mais de dois não tem segredo", teria concordado o oficial.

Ainda de acordo com o relato dos PMs, Ettore disse que as três armas - um revólver e duas pistola - , assim como os celulares para a comunicação do grupo eram ilícitos, de espólio de traficantes, e que a moto e o carro usado no dia do assassinato foram comprados por R$ 2 mil, cada, após ações da polícia de busca e apreensão em operações.

Outros depoimentos

Primeira testemunha de acusação a prestar depoimento, o promotor Paulo Roberto Cunha, que trabalhou com a magistrada na 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, disse que desconhecia que outros policiais, além do ex-comandante do 7º BPM (São Gonçalo), quisessem a morte da juíza. Segundo ele, havia um clima hostil entre os dois há 20 anos, após um incidente no Maracanã.

"Tirando as três ameaças feitas pelo coronel Cláudio (Oliveira), que queria matá-la, não tenho informações de que nenhum outro réu quisesse a morte dela", disse o promotor, que lembrou que a júiza passou a receber ameaças após investigar 70 casos de auto de resistência praticados por policiais do batalhão comandado por seu desafeto.

Cunha lembrou que a cada três meses, a juíza, promotores, delegados do município faziam uma reunião para tentar resolver os problemas da comarca. O grupo tentou estreitar relações com o batalhão, principalmente com relação aos autos de resistência. Ele contou ainda que o então comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte, chegou a prover um almoço no quartel general para promover essa aproximação com o comando do 7º BPM.

Julgamento da morte da juíza começou na manhã

desta quarta (Foto: Alba Valéria Mendonça/G1) "Ela recebia denúncias de que o coronel era envolvido com milícias e que queria matá-la, porque ela perseguia policiais, mas sem provas concretas, ela não teve como pedir o afastamento do oficial do 7º BPM.

Segundo o promotor, a juíza, que não tinha escolta pessoal, contava em 2009 com o apoio de quatro policiais no Tribunal de Justiça. Esses policiais faziam a escolta da juíza na ida e na volta para casa. Mas posteriormente, por ordem do comando geral, os quatro policiais foram tirados do Fórum de São Gonçalo. O TJ, por sua vez, tinha tirado a escolta da juíza por entender que ele não sofria mais qualquer tipo de risco.

"Sem entendimento com o TJ, com o comando do 7º BPM sendo hostil e sem conhecimento na Polícia Civil, ela não tinha a quem pedir segurança", disse o promotor.

Coronel Cláudio Oliveira e o tenente Daniel Santos

Benitez Lopes conversam com seus advogados

durante julgamento. Os outros acusados não

estão presentes. (Foto: Alba Valéria Mendonça/G1) Julgamento

O julgamento dos onze policiais militares acusados de participação na morte da juíza Patrícia Acioli começou por volta de 10h no Tribunal de Júri de Niterói, na Região Metropolitana do Rio.

Catorze testemunhas de acusação devem ser ouvidas nesta semana. Outras 130 testemunhas, dessa vez da defesa dos acusados, devem ser ouvidas na próxima semana. Já os acusados só devem prestar depoimento no dia 18, último dia do julgamento.

Advogado diz que provas são fortes

Para o assistente da Promotoria, advogado Técio Lins e Silva - que representa as filhas menores, a mãe e as irmãs da juíza - não há anormalidade no número de testemunhas de defesa dos 11 acusados.

"Cada acusado tem direito a oito testemunhas. Isso é normal num processo com muitos acusados. Mas é certo que o juiz vai ouvir quem realmente tiver o que dizer. Não se trata de uma maneira de ganhar tempo, mas sim de um direito da defesa. Tenho absoluta confiança na Justiça e não tenho dúvidas de que o processo vai caminhar tranquilamente para que o júri, formado por cidadãos de Niterói, possa analisar o caso e fazer Justiça. As provas são muito fortes e estou confiante no melhor resultado", disse Lins e Silva.

O júri é presidido pelo juiz Peterson Barroso Simão, da 3ª Câmara Criminal de Niterói. Quatro promotores representam o Ministério Público. São eles: Rubem Vianna, Daniel Braz, Cláucio Cardoso e Antônio Carlos Pessanha.

Entre os acusados está o ex-comandante dos 7º BPM (São Gonçalo) e 22º BPM (Maré), tenente-coronel Cláudio Luiz de Oliveira , que antes do crime já era investigado por Acioli por envolvimento com execuções e corrupção. Ele é acusado de ser o mandante do crime. Na ocasião em que foi preso, ele afirmou ser inocente .

As audiências acontecem nesta quarta, quinta (10) e sexta (11) e na próxima semana, nos dias 16,17 e 18 de novembro. Ao todo, a Justiça deve ouvir o depoimento de cerca de 150 testemunhas de defesa e acusação .

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