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CPI da Pedofilia: Ameaças à freira saíram da casa de deputado do Pará

CPI da Pedofilia: Ameaças à freira saíram da casa de deputado do Pará

Atualizado: Quarta-feira, 1 Abril de 2009 as 12

O telefonema de ameaça à irmã Henriqueta Cavalcante, da coordenação de Justiça e Paz da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foi originado da casa de Elias Sefer, pai do deputado estadual Luiz Sefer (sem partido/PA), acusado de ter abusado sexualmente de uma menina de nove anos e que está sendo investigado pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Pedofilia da Assembleia Legislativa.

É o que comprova a análise feita pela Polícia Civil das ligações recebidas por Henriqueta Cavalcante a partir da quebra do sigilo telefônico da freira. O rastreamento das ligações mostrou que a ligação feita no último dia 24 de março foi feita da casa do pai do deputado.

Elias Sefer admitiu, em depoimento ao delegado Rogério Moraes, da Divisão de Investigações e Operações Especiais (Dioe), que a ligação foi feita de sua casa, mas negou ter sido o autor do telefonema.

Irmã identificou a voz de Elias Sefer

O depoimento do pai do parlamentar foi praticamente desmentido por Henriqueta Cavalcante, que teria identificado a voz de Elias Sefer. "Era uma voz de uma pessoa idosa e muito exaltada", disse Henriqueta, depois de ter prestado depoimento na Dioe.

Cavalcante representa uma das instituições que está denunciando e buscando apurar os casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes no Pará. Por exercer essa posição, recebeu uma ligação há uma semana atrás em que do outro lado da linha uma pessoa dizia: "Tome cuidado, porque vocês estão condenando uma pessoa inocente", numa alusão ao deputado Luiz Sefer. "Foi uma ligação desafiadora e ameaçadora", disse irmã Henriqueta.

Logo após ter sido ameaçada, a religiosa registrou ocorrência. Ontem, ela e o pai do deputado Sefer prestaram depoimento na Dioe. O depoimento de ambos durou cerca de duas horas. Ao final, Elias Sefer saiu amparado por um advogado se negando a responder perguntas dos repórteres. A única frase dita por ele foi ‘claro que não’, quando lhe perguntaram se havia sido o autor das ligações. Cavalcante disse que um dia depois da ligação ameaçadora, o pai do deputado ligou para ela, afirmando que não fora o autor do telefonema de véspera. "Mas ela reconheceu a voz dele", disse a deputada Marinor Brito (PSol).

A presidente municipal do PSol disse que registrou também um boletim de ocorrência na Polícia Civil, solicitando providências em relação às ameaças sofridas pela freira.

O delegado Rogério Moraes disse ter feito um Termo Circunstancial de Ocorrência (TCO) e que o próximo passo é enviar o material colhido à Justiça. "Os dois depoimentos se juntarão ao relatório da quebra de sigilo telefônico e serão enviados para o juizado especial". Para o delegado, a polícia tem a comprovação da origem das ligações. "A linha é de propriedade de Elias Sefer, que nega ter feito a ligação, mas a irmã disse ter percebido que a voz era dele", afirmou.

Henriqueta Cavalcante disse que não pretende pedir proteção especial, mas a hipótese não foi descartada na Assembleia Legislativa pela comissão que investiga os casos de pedofilia no Estado.

Deputados admitem situação insustentável

A Assembleia Legislativa do Estado viverá hoje um momento raro em sua história. Os deputados da CPI que investiga casos de pedofilia no Pará confirmaram para esta quarta-feira, às 15h, o depoimento do deputado Luiz Afonso Sefer, acusado de abusar sexualmente de uma menina, num período que vai dos nove aos 13 anos da garota.

A última vez que deputados investigaram um colega de parlamento foi há 15 anos.

O então deputado Oswaldo Mutran foi cassado por envolvimento na morte de um fiscal da Fazenda. De acordo com os registros da Seção de Arquivos da Casa, desde 1999 não havia CPIs funcionando no parlamento estadual. E não foi por falta de denúncias. Difícil era conseguir as assinaturas necessárias para dar início à apuração. "A Casa pecava por isso", diz o deputado Adamor Aires (PR), que preside a CPI da Pedofilia.

Pouco acostumados ao papel de investigadores, os deputados do Pará estarão hoje sob os olhares atentos da opinião pública, curiosa para saber como se comportam os representantes do povo diante da difícil missão de investigar um colega de parlamento.

Deputados ouvidos pela reportagem garantem que, embora este seja um momento delicado, não se sentem pressionados diante da necessidade de interrogar o acusado, que até bem pouco tempo era companheiro das atividades da AL e que no início da investigação - ao se defender na tribuna - chegou a receber apoio de deputados que ainda acreditavam que seria possível reverter as denúncias. "Não fui eu quem cometeu crime", diz a deputada Regina Barata (PT), membro titular da CPI.

Das primeiras informações sobre o caso para cá, a situação do deputado só se complicou. Sefer chega para depor num momento em que boa parte dos deputados já assume nos bastidores que a situação dele está insustentável. Publicamente, os deputados não admitem, mas já há quase unanimidade sobre uma possível cassação do deputado por quebra do decoro.

RENÚNCIA - A expectativa, contudo, é de que diante da falta de apoio dos colegas, Sefer termine por renunciar para evitar a perda dos direitos políticos. "As denúncias são muito contundentes", diz medindo as palavras o presidente da CPI, deputado Adamor Aires que, ao indagado sobre uma possível cassação, afirma que a defesa de Sefer terá que ser muito convincente para mudar a opinião dos deputados que já conferiram as provas cada vez mais robustas apresentadas contra ele.

"É um momento difícil. Não é comum que um membro do parlamento seja investigado ainda mais por um crime tão hediondo como é o caso da pedofilia", diz o deputado Carlos Bordalo (PT), autor do requerimento de criação da CPI. Os titulares da Comissão se dividem em quatro homens e três mulheres. Quatro, dos sete parlamentares do grupo estão no primeiro mandato e apenas um já tinha experiência com CPIs.

O funcionamento da Comissão, contudo, poderá marcar uma nova postura dos deputados diante de outras denúncias que chegam ao parlamento estadual e que antes sequer tinham a apuração cogitada.

O início dos trabalhos da comissão foi marcado pela falta de estrutura e de pessoal técnico para assessorar os deputados. Nas viagens, por exemplo, os deputados se ressentiam da falta de profissionais para fazer a chamada prospecção nos lugares e havia dificuldades como a falta de computadores para ouvir mais de uma testemunha ao mesmo tempo.

Para Regina Barata, a CPI da Pedofilia "inaugura uma nova fase no parlamento estadual" que aprendeu com a experiência que as CPIs podem ser necessárias.

Para Bordalo, a CPI da Pedofilia mostrou que nem sempre as comissões de inquérito "são negativas para o parlamento" e admite que a novidade poderá mudar o comportamento dos deputados, mas faz um alerta: "Não pode se criar CPI para tudo. Esse é um instrumento precioso que não pode ser banalizado como aconteceu no plano federal".

A deputada Simone Morgado conta que logo que assumiu seu primeiro mandato eletivo (como vereadora em Bragança) se deparou com um caso semelhante. Dois vereadores foram acusados de estupro e acabaram sendo cassados. A experiência, diz ela, mostrou que dificilmente o caso Sefer "vá acabar em pizza".

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