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Denúncias não significam postura tendenciosa da mídia, diz Abramo

Denúncias não significam postura tendenciosa da mídia, diz Abramo

Atualizado: Quarta-feira, 29 Setembro de 2010 as 10:19

As acusações de corrupção feitas pela mídia não se traduzem necessariamente em uma postura tendenciosa, e as críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à imprensa se devem somente ao período eleitoral. Essa é a opinião do jornalista Claudio Weber Abramo, diretor-executivo da Transparência Brasil, organização independente que visa a fiscalizar e combater a corrupção.

Em entrevista à BBC Brasil, Abramo minimiza a importância do confronto entre mídia e governo, afirmando que, assim como o governo precisa da mídia, os órgãos de imprensa não têm como manter uma postura ofensiva em relação ao presidente por muito tempo. Leia entrevista da BBC Brasil com Claudio Weber Abramo:

BBC Brasil - Nessa questão do conflito entre governo e imprensa, é possível ter imparcialidade?

Claudio Weber Abramo - Não há dúvida, a grande imprensa brasileira - nem toda ela, diria eu, acho que os jornais não são a mesma coisa - preferiria não ter uma continuidade do PT no poder. Alguns são mais explícitos num posicionamento desfavorável à Dilma Rousseff, embora não o façam curiosamente em apoio ao seu principal opositor, o José Serra.

Daí a dizer-se que o noticiário é tendencioso no que ele tem de objetivo, e não no que tem de subjetivo, tem uma distância. Os jornais particularmente não estão sendo tendenciosos, pelo menos notavelmente, em relação ao governo, embora eles tenham as suas preferências.

Agora, aquilo que o Planalto, o presidente e depois seus seguidores têm reclamado é sobre o noticiário sobre a ex-ministra Erenice, a qual foi demitida. Se aquilo que se levanta contra a ministra Erenice fosse considerado pelo Planalto como descabido, por que a demitiriam? Essa reclamação não faz sentido em função dos atos presidenciais. A reclamação do presidente com base neste fato não cabe, o que ele fez foi demiti-la. Quem acha que a pessoa não tem problemas, não a demitiria, em princípio.

BBC Brasil - Mas houve outros casos, não só o da Erenice, mas também como o do suposto dossiê contra Serra.

Abramo - Aparecem pessoas que dizem que estão recolhendo dossiê para a campanha da ministra, e quer que não publique? Qual é o problema com isso? Isso não me parece que configure uma posição partidária. Eu não estou dizendo com isso que necessariamente as alegações feitas com respeito à campanha dela e o tal do dossiê sejam estritamente verdadeiras de A a Z. Agora, se surge uma denúncia desse tipo, se aparecem testemunhas, precisa publicar. É o que aconteceria em qualquer lugar.

Acredito que o partidarismo aparece na forma como qualquer jornalista conhece, e que o público em geral não conhece muito bem, que é aquele negócio: você nunca diz alguma coisa de fato, mas você põe um título com uma palavra assim e assado, dispõe na página de um certo jeito, chama mais um assunto do que o outro, você edita de uma maneira que não é frontalmente contrária a ninguém, mas que, no geral, deixa transparecer uma preferência.

No fim das contas, no país em que se vive, o regime é capitalista. O regime capitalista, o capital, controla os meios de produção, entre os quais o da imprensa. Se não quer que haja empresas privadas, cujos controladores têm lá as suas preferências, controlem meios de comunicação, então que se altere o ordenamento. Mas, se nós olharmos para a alternativa, ela é ainda pior, que é o meio de comunicação nas mãos do Estado.

BBC Brasil - Como o senhor vê o posicionamento do presidente em si, criticando a imprensa?

Abramo - Isso é hiperdimensionado, esse negócio é momentâneo. Termina com a eleição, pronto. Eu não acho que seja algo que permanecerá como uma marca do regime petista, por exemplo. Eles não conseguem sobreviver, eles precisam da imprensa, como vão ficar brigando com ela?

BBC Brasil - Mas as críticas do presidente Lula ocorriam já no início do mandato.

Abramo - E o Serra dizia a mesma coisa, vivia reclamando que a imprensa não cobria direito, não fazia elogios quando ele era governador. É igual. É razoável que o presidente da República fique falando essas coisas? Não, não é muito razoável. Agora, tem grande importância? Não tem, também. É irrelevante. A quem isso se dirige, afinal? Me parece uma coisa meio pueril, tudo isso.

BBC Brasil - Quanto à relação entre governo e mídia, qual é o legado do presidente Lula?

Abramo - O legado do Lula é muito ruim, porque ele não sabe lidar com a questão, ele fala para a plateia. Agora, a relação da imprensa com o presidente da República tem sido usualmente neutra. A imprensa brasileira é de baixa qualidade. É ruim, cobre mal, é mal equipada, não tem gente. Isto é assim porque não existe demanda por informação, ou a demanda por informação de qualidade é débil. Como há pouca demanda, há pouca oferta. É um problema de desenvolvimento.

BBC Brasil - Digamos que a briga entre PT e mídia continue e que Dilma seja eleita. Como ficará esta relação?

Abramo - Isso não tem nenhuma importância, não tem a menor chance de prosperar a partir do domingo da próxima semana. O presidente da República sabe que não pode ficar hostilizando a imprensa. Não é de interesse dele, do chefe do Executivo ou seja de quem for. Existe alguma preocupação de que ocorra no Brasil um processo do tipo Chávez ou de tipo argentino – o que, em tese, não é completamente impossível – mas é muito menos provável, porque as resistências seriam muito grandes. Isso aqui não é a Venezuela.

Agora, fazendo o argumento contrário: a mídia no Brasil é basicamente controlada por pequenos grupos que estão aí pelo Nordeste, pelo Norte. (José) Sarney, Jader Barbalho, (Fernando) Collor, é essa gente que controla a mídia. Essa turma é a favor do controle da mídia, porque são eles que exercem esse controle.

BBC Brasil - O senhor não acredita em uma mudança de posicionamento da mídia a partir do próximo governo?

Abramo - Acho que o momento eleitoral é eleitoral para todos os atores. Ele é passageiro. Eu não acredito que a Veja vá mudar de atitude, mas nenhum desses jornais aguenta ficar o tempo todo "de ponta". Já o presidente da República, este e o próximo, não estarão preocupados excessivamente com o comportamento da imprensa de um modo geral, porque a imprensa não tem essa importância toda. Tem importância, mas não é exagerada. O que tem importância é o Jornal Nacional .

BBC Brasil - A internet é uma mídia a ser considerada?

Abramo - Internet não é algo que tenha alguma espécie de relevância política no Brasil, é uma ficção. Internet seguramente não é um lugar onde se faça debate político. O que tem são uns caras xingando uns aos outros nos blogs, isso é o que tem. Pouco mais de 1 milhão (de leitores), contando todos os jornais: são esses que sabem do assunto. Isso aí não está pegando, não é um tema, e isso certamente não chega na massa de eleitores. Chega na gente.

BBC Brasi l - E o projeto do Conselho Federal de Jornalismo, existe chance dessa discussão voltar?

Abramo - Acho que sim. O Estado - e não o PT - enxerga na imprensa uma cobertura falha, deficiente, e esse tipo de coisa aparece como discussão. Eu não acho que haja condições de exercer o tipo de controle que os mais alucinados gostariam que existisse, mas a discussão vai voltar.

É bom discutir esse assunto, inclusive como forma de pressão sobre a imprensa para que ela melhore a sua cobertura. A imprensa escrita tem gravíssimos problemas de viabilidade econômica, o que tem reflexos instantâneos sobre a sua capacidade de apurar. A imprensa é muito deficiente na apuração, o que reflete naquilo que ela publica. É um problema crônico.

BBC Brasil - O senhor vê algum ponto ideal de relação entre Estado e mídia?

Abramo - (A relação) tem que ser tensionada, e se não for assim, a mídia não está cumprindo o seu papel. A atitude de um veículo de comunicação que tem independência em relação ao poder tem que ser antagônica, no sentido de exercer permanente cobrança.

Agora, a mídia brasileira é fundamentalmente chegada ao Estado, porque não existem só Estado , Folha e Globo , existem 820 jornais diários no Brasil. Eles estão aí, perdidos todos no interior, nas mãos dos prefeitos e de seus “cupinchas”, assim como as rádios brasileiras. A mídia brasileira é de péssima qualidade porque é controlada em cada local pelos caras que estão no poder, então ela não será independente, nunca.

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