Depois da devastação, falta de oferta faz aluguel subir na Região Serrana

Depois da devastação, falta de oferta faz aluguel subir na Região Serrana

Atualizado: Quarta-feira, 19 Janeiro de 2011 as 4:53

Os municípios da Região Serrana tentam voltar à rotina em meio a contagens de mortos, desaparecidos e desabrigados por causa da chuva. O comércio já reabriu em parte e o abastecimento de produtos se normaliza aos poucos, assim como o fornecimento de serviços públicos. Mas, no entanto, sobreviventes que perderam tudo têm dificuldade de encontrar um novo lugar para morar.

O município de Teresópolis, na Região Serrana do Rio, tem, segundo o último levantamento da prefeitura, 3.679 desabrigados e 4.530 desalojados pelas chuvas. Com tantas pessoas fora de casa, a procura pelo aluguel de imóveis cresceu muito e os moradores das áreas atingidas pelo temporal relatam muita dificuldade em encontrar um novo teto.

“Não conseguimos encontrar uma casinha razoável, está muito difícil e caro”, afirma a dona de casa Vanusa Lopes, de 42 anos, que procura um imóvel de aluguel para a filha de 21 anos, que perdeu a casa em que morava no bairro Santa Rita.

O corretor de imóveis Luiz Carlos Paim, de 57 anos, que trabalha em uma imobiliária no Centro do município, concorda que a oferta está muito baixa em relação à procura. “Está difícil. Nós aqui não temos quase nada”, afirmou. Em uma imobiliária vizinha, o corretor Renato Araújo, de 39 anos, disse que só há apartamentos maiores e mais caros disponíveis para aluguel, na faixa de R$ 1.000. Imóveis menores e com preço mais acessível às famílias desabrigadas estão em falta.     Os moradores também reclamam da alta dos preços. A caixa Kelly Cristina Soares, de 28 anos, que perdeu a casa no temporal, diz que um apartamento que custaria R$ 200 está sendo ofertado por R$ 400. Ela está procurando uma nova residência para ela e a mãe. “A gente anda, anda, e nada. Só tem em área de risco, mas não adianta ir de um lugar de perigo para outro”, disse. A solução provisória foi abrigar 12 pessoas na casa de dois quartos da sogra de Kelly.

Abastecimento

As entregas de mercadorias estão sendo normalizadas esta semana em Teresópolis. A comerciante Beatriz Lopes, de 34 anos, dona de uma padaria no Centro, diz que chegaram a faltar frios, que são trazidos de Nova Friburgo, e refrigerantes, transportados de Petrópolis. “Algumas entregas não chegaram. Eu acredito que agora vai normalizar”, afirmou. A maioria dos produtos não faltou porque o estoque estava abastecido.

O empresário Fábio Garbelini, de 40 anos, notou um aumento de preços em verduras e legumes – os agricultores da região perderam a plantação com a chuva. “Uma alface que custava R$ 0,50 está R$ 1,50. Essas coisas verdes estão todas caras”, contou.     Quase uma semana após a enchente, boa parte do comércio abriu as portas pela primeira vez na terça-feira (18) em Nova Friburgo. As ruas estavam movimentadas e algumas lojas realizavam liquidações. Uma delas, de departamentos, anunciava roupas a R$ 0,99 cada peça. "Fomos limpar o estoque após a água invadir a loja, a um palmo de altura, e encontramos esses itens de coleções antigas. Sempre fazemos promoções", diz o gerente. Ele não soube informar quantas peças estão à venda.     Na porta, a funcionária limitava a entrada de clientes: "Pode esperar um pouquinho? A loja está muito cheia", dizia, apesar da movimentação ser pouca, pelo menos na área do saldão de roupas. O gerente explicou que a restrição se devia à falta de funcionários: "Alguns ainda não conseguem vir porque moram em bairros muito afetados", diz. Mas ele também afirma que a medida foi tomada após boatos de saques que correram na semana passada: "Acho que queriam assustar a gente."

Ainda havia comerciantes limpando a lama de dentro e na frente dos estabecimentos. Nas ruas, muita gente ainda circulava em galochas e usando máscaras. Com lixo ainda acumulado nas calçadas, o forte calor faz exalar o mau cheiro.

Na rua principal de Friburgo, onde passa o Rio Bengalas, que transbordou e invadiu imóveis, há sofás abandonados na frente de muitas casas, junto com roupas, outros móveis, monitores de computadores e até televisão; tudo sujo de lama, à espera de recolhimento pelos caminhões de lixo.

  O principal ponto turístico da cidade, a Praça do Suspiro, tomada pela lama, apenas começou a ser limpa, mas agora é possível chegar até perto da Igreja Santo Antônio, parcialmente destruída por deslizamento. Pela porta, se vê que algumas imagens de santos ficaram intactas. E mais: se mantiveram de pé nos altares.  

Petrópolis

Apesar da tragédia que deixou mais de 60 mortos nos distritos de Itaipava e Brejal, em Petrópolis, na Região Serrana, a população não enfrentou problemas de desabastecimento, como ocorreu em Nova Friburgo , outro município muito afetado por enchentes e deslizamentos. Em Itaipava, não falta nenhum produto no maior supermercado do distrito, localizado a oito quilômetros do Vale do Cuiabá, devastado por uma enxurrada.

  A assessoria de uma rede de supermercados informou que houve apenas dificuldades em receber verduras, que vinham de Teresópolis, outra cidade que teve bairros arrasados. O supermercado tem água, fraldas, papel higiênico, material de limpeza e velas em estoque, com preços normais. Alguns desses produtos são oferecidos até com preço em oferta. Apenas panelas de pressão e roupas íntimas femininas estão acabando, mas já foram encomendadas aos fornecedores.

“Não tivemos problemas para comprar comida e água”, afirmou a secretária Denise Borba, de 42 anos, que trabalha em uma serralheria que foi inundada. A casa onde o irmão dela morou por 15 anos foi parcialmente destruída. “Agora é hora de recomeçar. Com licença, pois preciso ir ali chamar o pessoal da prefeitura para me ajudar a limpar a casa”, despediu-se Denise.

  Os postos de combustíveis da cidade também não tiveram maiores problemas. O que fica mais próximo ao Vale do Cuiabá, a 7,5 quilômetros do bairro, vende o litro da gasolina comum e aditivada a R$ 2,729, do etanol a R$ 2,099 e do diesel a R$ 2,029. “Apesar das chuvas, não tive nenhum problema para abastecer o carro”, contou o motorista Luiz Carlos Machado da Costa, de 64 anos, nascido e criado em Itaipava.    

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