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Despachante se dispõe a acareação em caso de violação de dados

Despachante se dispõe a acareação em caso de violação de dados

Atualizado: Sexta-feira, 22 Outubro de 2010 as 9:57

O despachante Dirceu Rodrigues Garcia, suspeito de obter de maneira ilegal dados fiscais de integrantes do PSDB e de familiares do presidenciável José Serra, disse em depoimento à Polícia Federal estar disposto a fazer uma acareação com o jornalista Amaury Ribeiro Junior, apontado como a pessoa que teria encomendado as informações sigilosas. O depoimento foi dado no último dia 7.

Diante do delegado Hugo Uruguai, na Superintendência da PF em São Paulo, Dirceu disse que resolveu cooperar com as investigações sobre a violação de sigilos fiscais de Veronica, filha de José Serra, Alexandre Bourgeois, genro do candidato tucano, do vice-presidente-executivo do PSDB, Eduardo Jorge, e de outras pessoas ligadas ao partido. O acesso aos dados ocorreu entre setembro e outubro de 2009, em uma unidade fiscal da Receita Federal em Mauá, no ABC paulista.

"Pensando melhor, resolveu não fugir e encarar os fatos, por isso está colaborando com a investigação da Polícia Federal. Que está à disposição para uma futura acareação e reconhecimento pessoal de Amaury Ribeiro Junior", diz Dirceu no depoimento, segundo a reprodução das respostas dadas ao delegado da Polícia Federal.

Investigação da PF divulgada nesta quarta-feira (20) conclui que foi o jornalista Amaury Ribeiro Junior foi o mandante da quebra dos sigilos fiscais. O G1 tenta falar com o jornalista desde esta quarta-feira, mas ele não respondeu aos recados.

Ainda no depoimento, Dirceu afirma que, depois de tomar conhecimento pela imprensa que a PF investigava o caso, recebeu R$ 5 mil de Amaury, em dois depósitos de R$ 2,5 mil. O dinheiro, segundo Dirceu, foi depositado em sua conta bancária de maneira "espontânea" pelo jornalista. O despachante alega ainda que só aceitou o dinheiro por estar em dificuldades financeiras.

"Que não pediu dinheiro a Amaury depois que o fato ora em apuração apareceu na imprensa; que Amaury espontaneamente lhe ofereceu dinheiro, uma ajuda, depositando na conta poupança do interrogado", revela outro trecho do depoimento.

Em entrevista nesta quarta ao Jornal Nacional, da TV Globo, Dirceu admitiu ter recebido dinheiro de Amaury Ribeiro Júnior para agir como intermediário no esquema de quebra de sigilo fiscal na Receita Federal.

Dirceu trabalha como despachante na porta de uma unidade da Junta Comercial, local onde teria recebido a encomenda do jornalista.

Na época em que solicitou as cópias ao despachante, Amaury trabalhava no jornal "Estado de Minas". Em nota divulgada nesta quarta, o jornal afirma que ele nunca escreveu reportagens sobre o caso.

A polícia sabe que Amaury estava em um voo que saiu de Brasília e pousou no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em 7 de outubro do ano passado, um dia antes da entrega das declarações.

No dia 8 de outubro, o jornalista recebeu a encomenda que havia feito ao despachante em um bar no Centro de São Paulo. De acordo com Dirceu, o encontro no local durou pouco mais de meia hora. Ele afirma que o jornalista reagiu com satisfação quando viu as cópias do Imposto do Renda e teria dito que a missão estava cumprida. "Esperei ele conferir a documentação e ele me passou o valor combinado. Conferi o valor e fui embora", disse o despachante.

'Inteiramente arrependido'

Um dia antes de demonstrar a disposição de participar de acareação com Amaury, Dirceu prestou outro depoimento ao delegado Hugo Uruguai, no qual afirmou que recebeu orientação de Amaury para "ficar calado", caso viesse a ser procurado pela polícia.

"Amaury, por diversas vezes pediu ao declarante que se fosse procurado para se explicar na polícia, deveria nesse caso ficar calado. Esclarece que só aceitou o dinheiro oferecido por Amaury para ficar calado, porque está passando dificuldades financeiras."

O despachante disse ainda estar "inteiramente arrependido" de ter trabalhado para obter dados fiscais sigilosos de maneira ilegal. "O declarante acompanhou as matérias na internet e sabia que a qualquer hora dessas iria ser procurado pela polícia; que o declarante está inteiramente arrependido do que fez", diz outro trecho do depoimento.

Questionado sobre quanto cobrou por cada quebra de sigilo, respondeu: "R$ 700 cada uma". Como eram 12 pedidos, o total foi de R$ 8,4 mil. Um mês depois da entrega, Dirceu voltou a encontrar o jornalista, segundo seu relato à PF.

Amaury teria dado ao despachante mais R$ 5 mil. "Ele me ofereceu um auxilio, e quis saber como estava a situação." O despachante afirma que aceitou o dinheiro. Segundo ele, dois depósitos foram feitos nos dias 9 e 17 de setembro deste ano.

Dirceu disse que não entendeu a oferta como um "cala-boca", para não falar nada para a PF. "Eu entendi como um auxílio, uma ajuda." A Polícia Federal confirmou que os depósitos na conta de Dirceu foram feitos em dinheiro vivo, na boca do caixa, num banco em Brasília.

Por: Robson Bonin

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