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Detentas de penitenciária têm dia de celebridade em SP

Detentas de penitenciária têm dia de celebridade em SP

Atualizado: Sexta-feira, 18 Dezembro de 2009 as 12

O dia 17 de dezembro ficará marcado na lembrança de detentas da Penitenciária Feminina da Capital, na Zona Norte de São Paulo. Nesta quinta-feira, em um teatro improvisado numa capela da unidade, essas mulheres puderam mostrar seus talentos artísticos em apresentações de teatro e música.

Resultado de mais de um ano de trabalho, os espetáculos são fruto de projetos sociais distintos implantados por voluntárias. Responsável pela parte musical, a professora Mônica Jurado, de 47 anos, enfrentou dificuldades para juntar o grupo de 17 presas que encheram de alegria uma plateia formada por cerca de 50 funcionários, amigos e outras detentas. "É grande o fluxo de alunas. Muitas vão para o [regime] semi-aberto e outras desistem no meio do curso", disse.

Antes de entrar em cena, cada reeducanda (como também são chamadas as internas) foi maquiada e trocou o tradicional uniforme da penitenciária - composto por uma camiseta branca e uma calça laranja- por figurino próprio. Com tudo pronto, as luzes do "teatro" foram acesas e as "estrelas" puderam mostrar seu brilho.

Com jinga no pé e voz afinada, as jovens iniciaram suas apresentações dançando e cantando. Entre rodas de capoeira, corais, canções de liberdade e luta, uma jovem sul-africana chamou a atenção dos expectadores. Cantora profissional, Melanie Lloyd, de 24 anos, emocionou suas colegas com uma música de sua autoria: "Painful Love" (amor doloroso, em tradução livre). "Escrevi essa letra na minha cela, em uma época difícil de minha vida", afirmou a jovem.

Em dezembro do ano passado, Melanie foi presa no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, na Grande São Paulo, com 1,5 kg de cocaína na bagagem. Arrependida, ela afirma que pretende mudar de vida ao sair da prisão. "Quero aproveitar meu dom e subir em um palco para me apresentar", contou. "Também pretendo conhecer o Brasil e toda sua musicalidade." Histórias como a da cantora são comuns na penitenciária. Funcionários ouvidos pelo G1 informaram que das cerca de 700 internas, 40% são estrangeiras. A maioria dessas mulheres cumpre pena pelo mesmo crime cometido por Melanie: tráfico de drogas.

É o caso da húngara Rita Dobonyi, de 40 anos. Há um ano e quatro meses vivendo atrás dos muros da cadeia, ela diz sentir saudade da filha adolescente que deixou em seu país natal. As dificuldades da vida atual foram abrandadas após começar a frequentar as aulas de teatro. "Tinha muitas dúvidas, estava em busca de respostas. O teatro me ajudou a ser mais feliz", disse. "Quando estou atuando, sinto como se não estivesse em uma cadeia", completou.

A parte cênica ficou a cargo da professora e psicóloga Patrícia Teixeira, de 41 anos. Para ela, o teatro tem uma função psíquica e social que auxilia na recuperação das internas. "Temos dentro de nós um disco arranhado. O teatro ajuda a descobrimos onde está o problema. Com isso, conseguimos avançar para as outras faixas." As 11 internas que participaram do espetáculo intitulado "Tantas Histórias Tão Mais, Tão Menos Graves" puderam escolher a história, os personagens e o texto de seus esquetes. "Consegui me redescobrir nesse processo", afirmou a interna portuguesa Susana Soares, de 31 anos, também presa por tráfico. "Essa peça me fez lidar com meus fantasmas. Foi um grande trabalho psicológico."

Nas apresentações, cada detenta lembrava um pouco de sua vida. As sul-africanas lembraram do preconceito vivido no período do apartheid, regime de segregação racial que durou de 1948 até 1990. Já as brasileiras ressaltavam o período da ditadura militar.

Ao final das apresentações, as novas artistas foram ovacionadas por suas colegas. Emocionadas, as estrelas estampavam no semblante a alegria do momento e a esperança de um futuro melhor. Nascida na República Tcheca, a reeducanda Helena Kalbacova, de 28 anos, resumiu o que tirou de lição com a arte:"Aprendi a olhar para a frente".

Por: Paulo Toledo Piza

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