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Dificuldade de identificar corpos resgatados aumenta com o passar dos dias

Dificuldade de identificar corpos resgatados aumenta com o passar dos dias

Atualizado: Segunda-feira, 17 Janeiro de 2011 as 1:57

A enorme dificuldade em identificar os corpos resgatados e cadastrar as pessoas desaparecidas aumenta progressivamente com o passar do tempo, seis dias após o temporal que devastou a região serrana do Estado do Rio de Janeiro e deixou mais de 600 mortos, no maior desastre natural do país.

O desafio enfrentado pelos promotores do Ministério Público e pela Defensoria é reunir em um único cadastro as informações sobre as vítimas que morreram (muitas já sepultadas), com a identificação daqueles que estão vivos, espalhados em abrigos ou em casas de parentes, internados em hospitais públicos e privados.

Como se não bastassem as dificuldades em coordenar esse tipo de trabalho, o estado de decomposição dos corpos que ainda vêm sendo resgatados impossibilita a identificação por meio de fotos ou impressões digitais, que só podem ser coletadas até no máximo quatro dias após a morte.

Além disso, a avalanche de terra e lama que desceu das encostas pegou a maioria dos moradores dormindo, com roupas leves que se perderam na enxurrada e sem documentos. Os promotores pedem que as famílias que estão em busca de desaparecidos forneçam dados da arcada dentária, como uso de aparelhos, pontes e tratamentos odontológicos, e informações como fraturas sofridas no passado, por exemplo. A promotora Anaiza Helena Malhardes Miranda, titular da 1ª Promotoria de Tutela Coletiva de Teresópolis, explica que essas características estão sendo coletadas nos laudos cadavéricos pelos peritos e serão confrontadas com o cadastro de desaparecidos.

- É um enorme trabalho de pesquisa forense, quase um CSI. Pode levar meses para identificar todos os que não reconhecemos. A essa altura, só com exame de DNA. Em Teresópolis, 168 corpos haviam sido identificados por suas famílias até a manhã de segunda-feira (17). Mas o número de mortos deve “aumentar muito mais” nos próximos dias, considerando que ainda há localidades isoladas nas áreas rurais, as mais castigadas pelo temporal.

Os familiares que estão em busca de parentes devem procurar a 110ª DP, na avenida Alberto Torres, 569, ou a sede da Ouvidoria Municipal, na praça Luiz de Camões, também conhecida como praça olímpica. As vítimas que foram enterradas aleatoriamente por familiares que permanecem isolados serão identificadas posteriormente, de forma oficial.

Nova Friburgo ainda tem 32 corpos não identificados Antes do sepultamento, os peritos coletam dados da arcada dentária, da formação óssea, objetos e tudo o que possa levar à identificação no futuro. Com essas informações, foi possível identificar 38 pessoas já enterradas em Nova Friburgo. Outras 32 vítimas já sepultadas ainda aguardam identificação.

O promotor Hédel Luis Nara Ramos Júnior conta que o MP atua em três frentes: a identificação dos corpos, o cadastro dos desaparecidos e o das crianças e idosos que perderam parentes e estão desacompanhados. A frente dos trabalhos no IML (Instituto Médico Legal) improvisado em uma escola no centro da cidade, ele conta que o MP e os peritos têm feito “um trabalho impecável” para assegurar a dignidade para as vítimas e seus familiares. Todos foram sepultados em covas individuais, em urnas doadas pelas funerárias, nos cemitérios São João Batista, no centro, e Trilha do Céu, em Conselheiro Paulino.

- Temos peritos das polícias civil e federal, alguns que vieram de São Paulo, uma equipe de alto nível técnico, trabalhando com cadastros informatizados.

O promotor cita o caso de uma criança de nove anos de Brasília, que passava férias com parentes em Nova Friburgo. - Como ele tinha carteira de identidade, foi possível identificá-lo por meio das digitais. Papiloscopistas de Friburgo fizeram contato com o IML do Rio de Janeiro. A família pediu e o corpo foi para o Rio, onde foi cremado e os pais levaram para Brasília. Ele fez um apelo para que as famílias procurem a escola onde foi montado o IML, onde há postos da Defensoria Pública, do Ministério Público, da Polícia Civil e do Instituto Félix Pacheco para registrar o desaparecimento de parentes e amigos.

Tragédia das chuvas O forte temporal que atingiu o Estado do Rio de Janeiro na terça-feira (11) deixou centenas de mortos e milhares de sobreviventes desabrigados e desalojados, principalmente na região serrana.

As cidades de Nova Friburgo, Teresópolis, Petrópolis, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto foram as mais afetadas. Serviços como água, luz e telefone foram interrompidos, estradas foram interditadas, pontes caíram e bairros ficaram isolados. Equipes de resgate ainda enfrentam dificuldades para chegar a alguns locais.

  No final da noite desta sexta-feira (14), a presidente Dilma Rousseff liberou R$ 100 milhões para ações de socorro e assistência às vítimas. Além disso, o governo federal anunciou a antecipação do Bolsa Família para os 20 mil inscritos no programa nas cidades de Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis. Empresas públicas e privadas, além de ONGs (Organizações Não Governamentais) e voluntários, também estão ajudando e recebem doações.

Os corpos identificados e liberados pelo IML (Instituto Médico Legal) são enterrados em covas improvisadas. Hospitais estão lotados de feridos. Médicos apelam por doação de sangue e remédios. Os próximos dias prometem ser de muito trabalho e expectativa pelo resgate de mais sobreviventes.

Em visita à região de Itaipava, em Petrópolis, o governador Sérgio Cabral (PMDB) disse que ricos e pobres ocupavam irregularmente áreas de risco e que o ambiente foi prejudicado. - Está provado que houve ocupação irregular, tanto de baixa quanto de alta renda. Está provado também que houve dano da natureza. Isso não tem a ver com pobre ou rico.      

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