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Do lado dos EUA haverá o reconhecimento da necessidade de um Estado Palestino com autonomia

Do lado dos EUA haverá o reconhecimento da necessidade de um Estado Palestino com autonomia

Atualizado: Segunda-feira, 26 Janeiro de 2009 as 12

Da Redação

"O diferencial é que vai se perceber que não há mais o apoio irrestrito a Israel", afirmou ao Guia-me a cientista-política Maria Aparecida Aquino, em relação ao posicionamento dos EUA no conflito entre israelenses e palestinos. Para ela, a possibilidade de paz seria possível com a criação do Estado Palestino, uma vez que a imagem de Israel saiu arranhada na política internacional e, segundo ela, fez com o que o país saísse com um "capital moral" abalado. "Um pouco desse capital moral que Israel adquiriu com essa questão do Holocausto, ele conseguiu perder com essa manifestação da chamada opinião pública internacional".

Guia-me: Como você avalia o propósito de Israel nessa guerra?

Maria Aparecida Aquino: São dois objetivos: a questão de desarticular e tentar minar qualquer possibilidade de força do Hamas, lembrando que o Hamas é um partido político e não pode ser chamado mais de grupo terrorista, uma vez que ele concorreu democraticamente às eleições e venceu. Conseqüentemente, eu acho que na realidade era tentar ao máximo possível destruir toda a capacidade de reação que o Hamas poderia ter. Esse é um ponto. O segundo ponto, eu acho que é o ponto pragmático relacionado ao período que estamos vivendo, era tentar fazer esse processo de destruição antes de Barack Obama tomar o poder. Uma vez que é evidente que não haverá uma mudança muito grande de relação de Israel com os Estados Unidos. Não se pode esperar um rompimento, ou qualquer coisa do gênero, pois desde 1956 há um alinhamento muito claro, desde a crise de Suez, dos EUA terem relações com Israel. Mas podem acontecer diferenças, como uma tentativa de se chegar a um acordo de paz, como o próprio Clinton fez. Estabelecendo algumas coisas que levem a criação efetiva de um Estado Palestino. Eu acho que eles tinham muita clareza disso. Foi tão pragmático que na véspera da posse do Obama eles começaram a retirada das tropas.

Guia-me: Você acredita na possibilidade de um processo "duradouro de paz", como afirmou o presidente Barack Obama?

Maria Aparecida Aquino: Eu acredito que é possível sim. Mas para que isso aconteça é preciso que haja negociadores com força e potencial reconhecidos. Fala-se muito no quarteto formado pela União Européia, pelos EUA, pela Rússia e Grã Bretanha. É algo que foi surgindo nos últimos anos e que representa uma tentativa de, já que a ONU não tem grande força sozinha, criar um grupo de força que tivesse alguma condição de estabelecer negociação. Eu acho que existe possibilidade de estabelecer negociação. Nesses últimos momentos mais difícieis, que foi o caso específico de governo do presidente Bill Clinton. Ele consegue entre 1992 e 1993 chegar ao acordo Gaza-Jericó. É o acordo Gaza-Jericó que permite que em 2005 se chegue aquilo que foi chamado de mapa da paz, mas que no fundo não é muito mapa da paz, que estabelece os limites do mapa palestino. Uma parte na faixa de Gaza e outra na Cisjordânia. Eu acredito que é hora de um novo movimento conjunto das forças internacionais para que os dois ou três atores em questão parecem não ter condição de se chegar a um bom termo sozinhos.  

Guia-me: A criação de um Estado Palestino acabaria com uma rivalidade tão grande como essa?

Maria Aparecida Aquino: Eliminar todos os motivos que eles têm para se odiarem e todos os conflitos e tensões eu acredito que não. Mas com certeza, as possibilidades de atrito com um Estado internacionalmente aceito com as suas fronteiras claramente estabelecidas, dificultaria muito mais uma possibilidade de reação e de volta a um conflito mais aberto.

Guia-me: Haveria a devolução de posses de terras por Israel?

Maria Aparecida Aquino: Qualquer possibilidade de paz só está na possibilidade caso Israel devolva as terras. Não só nesse episódio em que houve quase uma ocupação de Gaza, embora as frotas tenham sido retiradas. Não só nessa questão, mas precisamos voltar aos termos de 1967, porque nesse ano na chamada Guerra dos Seis dias, eles conquistaram uma parte de território bastante significativa. Israel tinha uma fronteira estabelecida e em 1967 eles estendem a sua fronteira para quase toda a Palestina. Existe uma dupla expulsão dos palestinos da região: quando em 1948 é estabelecido o Estado de Israel e em 1967 quando acontece essa expansão. Consequentemente não há outra possibilidade a não ser estabelecer um projeto para Israel de que ele deve devolver os territórios que foram conquistados ilegalmente durante a guerra dos Seis Dias e se deve firmar a existência de um Estado soberano Palestino.

Guia-me: A criação desse Estado Palestino seria possível pensando que a imagem de Israel estaria mais fragilizada na política internacional?

Maria Aparecida Aquino: Não há dúvida nenhuma. Existe uma coisa que não costumamos pensar muito, mas que é verdadeira, que é a questão de adquirir um capital moral. Por conta do Holocausto, o Estado de Israel seria um capital moral. Todos os anos você assiste milhares de filmes sobre a questão do Holocausto. Eles tem um controle sobre a indústria cinematográfica que é incrível. Sempre tem um ou dois com aquela mesma mensagem. A mensagem de que somos sofredores, um povo ofendido, um povo escolhido por Deus e assim por diante. Na realidade, um pouco desse capital moral que Israel adquiriu com essa questão do Holocausto, ele conseguiu perder com essa manifestação da chamada opinião pública internacional. Multidões saíram às ruas espontaneamente em diferentes partes do mundo para criticar.

Guia-me: A criação dos corredores humanitários teria sido uma forma de reposta a esses protestos, numa forma de ajudar as vítimas?

Maria Aparecida Aquino: Em momento algum eles tiveram a intenção de ajudar as vítimas, porque, se por um lado eles disseram que abririam corredores humanitários, em outros momentos nós cansamos de ver os ataques populações civis. Não estavam atacando os militantes do Hamas, mas também a população civil. Chega a notícia para nós de que um prédio foi encontrado na Faixa de Gaza, no meio dos destroços, onde existem 95 mortos. Dos 95 mortos que o Estado de Israel afirmou serem militantes do Hamas, a grande maioria eram crianças e mulheres. Não existe essa possibilidade do Estado de Israel voltar a receber, a não ser que se estabeleça a paz, um pouco de complacência internacional.

Guia-me: O bloqueio a Gaza vai continuar?

Maria Aparecida Aquino: A intenção é que o bloqueio continue. Mas tudo é muito relativo. Antes daquele cidadão, o senhor Ariel Sharon - que ninguém sabe se está vivo, pois depois do AVC que ele teve, ninguém mais se falou desse cidadão -, construiu um muro separando palestinos e israelenses. Esse muro continua a existir. Dificilmente você terá a retirada dos bloqueios caso não haja uma intervenção dura internacional.

Guia-me: O que representa a posse de Barack Obama para o Oriente Médio?

Maria Aparecida Aquino: Embora o presidente Obama não quisesse que essa questão caísse no seu colo num primeiro momento, não teve muito jeito. Rapidamente ele mostrou bastante esperteza. Ele forçosamente, gostando ou não, vai ter que se pronunciar - e não vai demorar muito. Já houve diversas reuniões. O Hamas mandou por duas vezes o seu grupo para o Egito para negociar. Eu acho que muito cedo ele vai entrar nessa história e eu acredito que com um pequeno diferencial. Nada de grandes chances de mudanças. O diferencial é que vai se perceber que não há mais o apoio irrestrito a Israel. Do lado dos EUA haverá o reconhecimento da necessidade de um Estado Palestino com autonomia para que possa ter força.

Guia-me: Se Obama não tivesse se mantido em silêncio em relação ao conflito, o acordo de paz teria se adiantado?

Maria Aparecida Aquino: É difícil saber se teria adiantado ou não. Eu acho que poderia ter dado um pouco mais de alento ou poderia ter feito com que os israelenses tivessem ficado mais furiosos ou tivessem um pouco de medo, vamos dizer assim. O silêncio de Obama não se justifica daqui para frente. Mas anteriormente é preciso entender de que ele representa um partido, o antigo presidente representava outro partido e há uma diferença muito grande entre os dois. A situação era muito difícil para que ele se pronunciasse. Ele falou com muita clareza: "Os EUA só podem ter um presidente".

Guia-me: O Hamas sai enfraquecido do conflito?

Maria Aparecida Aquino: O Hamas perdeu bastante capacidade de força, pois a destruição não foi pequena. Eu acredito que eles estão militarmente enfraquecidos, mas não acredito que estejam socialmente enfraquecidos. Nessa história, o Hamas sai como vítima. Ao menos do ponto de vista da população. Vítima é um papel que dá a ele uma condição moral superior de negociação.

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