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Documentário de dupla portuguesa sobre o Alemão ganha prêmio

Documentário de dupla portuguesa sobre o Alemão ganha prêmio

Atualizado: Segunda-feira, 20 Dezembro de 2010 as 9:17

Uma dupla de documentaristas portugueses acaba de ganhar em Hollywood, nos Estados Unidos, o prêmio de melhor filme internacional de direitos humanos, no Artivist Film Festival, com o documentário Complexo – Universo Paralelo, que retrata o Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. O prêmio foi recebido na segunda semana de dezembro pelos irmãos Mário e Pedro Patrocínio, que conviveram entre 2004 e 2007 com a comunidade. O resultado da convivência é o documentário, que acabou de ser apresentado no Tribeca Cinemas, conjunto de salas do ator Robert De Niro, em Nova York, e em janeiro estreia em Portugal.

Para melhor retratar a comunidade, que na época sofria com o peso das mãos dos traficantes e a extrema pobreza, os irmãos Patrocínio pinçaram três moradores e um grupo de traficantes que, com o relato de suas vidas, ajudou a dupla a passar para as telas a realidade do Alemão. Um MC (mestre de cerimônia), um líder comunitário e uma mulher com oito filhos falam de suas rotinas e da esperança de dias melhores, assim como o grupo de bandidos entrevistados, que também desejam uma vida melhor para os filhos.

Atualmente, o conjunto de favelas está ocupado pelas polícias Civil e Militar, além do Exército, que nos moldes do trabalho feito no Haiti, comandará uma força de paz no complexo.

Mário Patrocínio falou com o R7, por e-mail, logo depois de receber o prêmio. Na entrevista abaixo, ele fala da emoção em realizar o documentário e da vontade de ver o Alemão como um lugar de paz para os amigos que ele e o irmão fizeram ao longo do trabalho na comunidade.

R7 - De onde surgiu a ideia de um documentário sobre uma favela no Rio de Janeiro? Qual a relação de vocês dois com o Rio?

Mário Patrocínio - O sonho de conhecer o Brasil começou quando morávamos no Japão e os melhores amigos dos nossos pais era um casal de brasileiros. Creio que o Brasil acaba estando sempre no imaginário de qualquer português, por meio da música, das novelas, dos livros de história ou do futebol. A primeira vez que visitei a cidade foi em 2001 e essa paixão se transformou em confirmação. O Rio é realmente uma cidade única. Quando chegou a hora de escolher o lugar para onde ir estudar, o Rio de Janeiro foi a opção.

R7 - Por que escolheram o Complexo do Alemão? Sabiam que a comunidade era dominada pela violência e que a área era muito pobre?

Patrocínio - Costumo dizer que nós fomos escolhidos, porque a oportunidade que tivemos foi única. Um dia um amigo pediu ajuda para gravar o vídeo clipe de um rapper em uma comunidade chamada Complexo do Alemão. Não fazia a mínima ideia do que era, dos perigos e do que a mídia falava. Imediatamente disse que sim, sem nem pensar. Nosso primeiro contato foi pelo vídeo do MC Playboy da música “Por Amor”. Depois, fizemos uma pesquisa na internet e nos demos conta de como aquela realidade era retratada. Também lemos sobre o assassinato de um jornalista [Tim Lopes] e isso nos deixou um pouco assustados. Mas a nossa experiência pessoal dentro do complexo foi muito boa, todos nos trataram bem e o clima que sentíamos era de uma pequena comunidade. Foi aí que começou a surgir a ideia de fazer um documentário.

R7 – O que mais impressionou vocês nesse contato com a comunidade?

Patrocínio - Posso lhe dizer que o que mais nos marcou foi conhecer a família da dona Célia e ver as condições em que viviam. Eu já havia ido à África, mas não imaginava que se pudesse viver naquelas condições num país como o Brasil. Mas não era só a questão das dificuldades, era também a força interna que ela tinha para conseguir segurar aquela estrutura familiar, de oito filhos e um marido com graves problemas de dependência de drogas. Foi inspirador ver a sua força.

R7 - Por quanto tempo viveram no complexo para elaborar o documentário? Como pinçaram alguns moradores para fazer o perfil deles em paralelo com o cotidiano da comunidade?

Patrocínio - Não sabia nem por onde começar o documentário e comecei a estudar. Mais importante foi continuar a vivenciar o Complexo do Alemão, visitar frequentemente, conhecer pessoas novas, trilhar as ruas, almoçar lá, jantar, ir no churrasquinho, jogar futebol, compreender um pouco da vida do morador. Tudo isso sempre com a ajuda e carinho do Mc Playboy, que queria nos fazer ver que não eram só coisas e pessoas ruins que existiam ali. No final de 2005 já estávamos no complexo há mais de um ano. Comecei a escrever um roteiro que se chamava “Complexo Natal” e tentava imaginar como seria passar o Natal no complexo, uma nova aventura que nos faria entender aquela realidade. Mas nós também estávamos mais sensíveis e foi uma experiência intensa. Falamos com o Mc Playboy, que nos acolheu em sua casa e tivemos a oportunidade de finalmente estar no complexo, mas sem ser apenas uns meros frequentadores, mas viver aquela realidade durante cinco dias de verdade, 24 horas. Conhecemos e entrevistamos um leque de quase trinta pessoas e foi dessa base que, depois, escolhemos aqueles que achamos que como um todo representariam o Complexo do Alemão.

R7 - Como foi o contato com os traficantes? Precisaram pedir autorização? Sentiram medo? Foram ameaçados?

Patrocínio - Os primeiros contatos com os traficantes foram comuns, bastava subir o morro que já estava entrando em contato com eles, por meio dos pontos de venda [de drogas] ou dos postos de guarita. Quando foi para filmar o nosso documentário tivemos de falar com o chefe máximo. Explicamos exatamente o que queríamos fazer, qual era o conteúdo do nosso documentário, mostramos até um trailer do nosso trabalho. Nos trataram sempre bem e só pediram para falar aquilo que víamos e não deturpar. Como isso já faz parte da nossa maneira de ser, pareceu bastante simples. A única coisa que incomodava era a presença das armas, que, por maior convívio que houvesse, nunca nos acostumaríamos. Mas, com o tempo, fomos entendendo que aquelas armas para eles eram como se fosse um utensílio do trabalho. É verdade que nos primeiros momentos tínhamos medo sim, mas a vontade de concretizar este projeto, a inspiração dos personagens e o encorajamento do Mc Playboy nos faziam acreditar que era possível. Estávamos sendo privilegiados por viver num outro mundo e tendo a oportunidade de conhecer este mundo complexo, mas ao mesmo tempo tão igual. Agora que olho para trás e vejo tudo o que passamos, quem conhecemos, só com alguma luz nos guiando poderíamos ter chegado até aqui.

R7 - Foram quantas horas de entrevistas e de imagens? Como foi o trabalho depois para organizar tudo? Havia um roteiro?

Patrocínio - Houve dois processos que nos ajudaram muito. Um tem a ver com o estudo transformado em roteiro concreto, onde estava minuciosamente definida a rotina dos personagens escolhidas e do complexo como um todo, e depois o estudo fotográfico que foi feito. Fotografamos o complexo de ponta a ponta, para poder entender as suas cores, os seus reflexos e a orientação do sol nos diferentes morros em diferentes épocas do ano e alturas do dia. Com o tempo compreendemos que dificilmente alguém iria investir dinheiro num projeto feito por dois irmãos portugueses que diziam conseguir entrar dentro do Complexo do Alemão. Para a maioria das pessoas, esse era um lugar impenetrável e, à medida que se foi aproximando a data do Pan do Rio [2007], tudo se tornava mais difícil. Decidimos então juntar tudo o que tínhamos, que não era muito, e com a venda de um Golzinho [carro] vimos apenas que daria para concretizar 20 dias de filmagens. Tentamos contratar profissionais, mas mais uma vez ninguém quis. Foi então que um grande amigo português, que estava no Rio, que nunca tinha tido uma experiência em produção de filmes, se juntou a nós, além de outro amigo brasileiro. Tínhamos então juntado a nossa equipe e rumamos a esta aventura declarada impossível por quase todos.

R7 - Vocês acompanharam as notícias recentes sobre o Complexo do Alemão? Vocês conseguem visualizar as ruas e vielas do complexo tomadas por policiais? O que acham dessa ocupação?

Patrocínio - Naturalmente, pelos anos de vivência que tivemos, reconhecemos os lugares que vão aparecendo na TV. Estamos acompanhando toda a situação que o complexo tem vivido. Por um lado era um passo necessário, que mais tarde ou mais cedo tinha de ser dado, mas creio que a ação não pode parar por aqui. O complexo precisa de infra-estruturas, de emprego, de informação e formação, precisa de saúde. Todos os seus moradores precisam viver em condições dignas e ter oportunidades reais de crescimento e de sucesso nas suas vidas.

R7 - Vocês mantém contato com algum morador do Alemão até hoje? Falaram com ele depois da ocupação?

Patrocínio – Falamos com alguns amigos de dentro do complexo durante a operação e agora na pós-operação. Uma situação que nos deixou muito preocupados foi a dona Célia, um dos personagens do filme. A sua família ficou três dias sitiada em casa. Essa é uma família que depende do trabalho diário para a sua sobrevivência, o que faz com que três dias se tornem quinze. Eles estavam comendo farinha porque não tinham mais mantimentos. Ficamos tristes. É difícil estar longe e nos sentimos impotentes para ajudar. Felizmente falamos com um grupo de amigos que moram no Rio que se disponibilizaram a ajudar. Sabemos que a questão apenas fica resolvida por um tempo, mas continuamos a crer que este tipo de situação deixará de existir, pois o Brasil tem todas as condições para erradicar este tipo de situação. No que depender de nós, sempre tentaremos ajudar.

R7 - O que mais ficará em suas lembranças sobre esse trabalho? Já tem em mente outro documentário no Brasil? Algo no Rio?

Patrocínio - O que mais nos marcou foram as pessoas que tivemos a oportunidade de conhecer. Mesmo que tenha sido um grande desafio profissional, o que nos fica na memória e no coração são os moradores do Complexo do Alemão e as vivências que tivemos. Somos gratos por cada segundo, pois essa experiência tornou-nos homens diferentes, com uma nova forma de olhar a vida e o mundo. Hoje sabemos realmente que às vezes pequenos gestos podem fazer toda a diferença na vida dos outros. O Rio nos marca pela sua complexidade, mas também pela sua maravilha, é uma terra abençoada que deve ser cuidada por todos. Amamos o Brasil e sonhamos todos os dias em poder voltar e contribuir para o desenvolvimento do país. Temos outros projetos que gostaríamos de concretizar no Brasil.

R7 - Em quantos países o documentário foi apresentado?

Patrocínio - O documentário começou a ser apresentado no lugar que sempre sonhamos, no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, no cinema Odeon. Foi maravilhoso ver na estreia pessoas do morro e do asfalto juntas numa mesma sala, convivendo e confraternizando. No fundo, estava ali representado aquilo que acreditamos, que é o Rio em paz. Depois o filme estreou em Lisboa, no Festival de cinema Doclisboa, com sucesso. Em seguida apresentamos em Hollywood, no Egyptian Theater, dentro do festival de cinema Artivist, onde ganhamos o prêmio de melhor filme internacional na categoria de direitos humanos. Também apresentamos o filme em Nova York, no Tribeca Cinemas, o que foi mais um sonho concretizado. Aguardamos agora a resposta de vários festivais e vamos estrear em Portugal no mês de janeiro, nos cinemas. Esperamos, do fundo do coração, que o caminho tenha longa vida e que possa abrir mais portas para a reflexão e contribuir positivamente de alguma forma para o desenvolvimento do Complexo do Alemão.    

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