MENU

"Dói enterrar o filho no Dia das Mães", diz mãe de motoboy morto por PMs

"Dói enterrar o filho no Dia das Mães", diz mãe de motoboy morto por PMs

Atualizado: Segunda-feira, 10 Maio de 2010 as 5:10

No title "Foi horrível. Dói enterrar o filho no Dia das Mães", disse nesta segunda-feira (10) a vendedora Maria Aparecida de Oliveira Menezes, de 43 anos, mãe do motoboy Alexandre Menezes do Santos, de 25 anos, morto após ter sido abordado e imobilizado por quatro policiais militares na madrugada de sábado (8) na Zona Sul de São Paulo. Seu corpo foi sepultado no domingo (9). Os policiais foram presos em flagrante pela Corregedoria da Polícia Militar e indiciados por suspeita de terem competido homicídio culposo (sem intenção de matar).

Por telefone, a vendedora afirmou ao G1 que seu filho foi morto aos seus pés, em frente a casa onde o motoboy morava com a mãe, o padrasto, a mulher e um filho de três anos, na Rua Guiomar Branco da Silva, na Vila Marari, por volta das 3h30 de sábado.

"Acordei com o barulho das sirenes dos carros da Polícia Militar. Depois, fui para frente de casa e vi o meu filho sendo espancado, receber uma gravata, cair e bater a cabeça no chão. Ele morreu aos meus pés por quatro policiais grandes e fortes. Diziam que meu filho era bandido, vagabundo, mas ele nunca fez nada de errado. Era um motoboy que entregava pizza, um trabalhador", disse Maria Aparecida.

Segundo a versão que os policiais militares deram a Polícia Civil, Alexandre estava numa moto sem placas, na contramão de uma rua, e rompeu uma barreira da Polícia Militar quando foi solicitado que ele parasse. Ele foi perseguido até a porta de sua casa. Chegando lá, os policiais alegam ter aplicado "gravatas" no pescoço da vítima porque ela teria entrado se recusado a conversar e entrado em luta corporal com eles. Depois disso, afirmaram que Alexandre perdeu os sentidos e desmaiou. Como ele não recobrava a consciência, foi levado pelos policiais para um hospital, onde morreu. Lá, os policiais disseram ter encontrado uma arma com o motoboy. 

Atestado de óbito

O atestado de óbito aponta traumatismo craniano e asfixia, segundo a mãe do motoboy. "A cena do meu filho apanhando é pior do que a do enterro. Porque essa cena é muito dura de lembrar. Ele apanhou por 30 minutos só porque acharam que ele estava com uma moto roubada na contramão. A moto era dele, não tinha placa porque era nova. Foi comprada a prestação. Seria emplacada amanhã [na terça-feira, dia 11]. E não existe contramão em rua de bairro pobre. Não era contramão", afirmou Maria Aparecida.

O caso foi registrado no 43º Distrito Policial, em Cidade Ademar, como homicídio culposo. Os policiais que participaram da ação pagaram uma fiança e foram liberados para responder ao crime em liberdade. Mas instantes depois, os mesmos policiais foram presos pela Corregedoria da PM e indiciados sob a acusação de assassinar o motoboy. Segundo a PM, os quatro suspeitos estão no presídio Romão Gomes.

Dois processos foram abertos contra eles na PM. Um administrativo, que pode resultar em expulsão da corporação, caso sejam considerados culpados. Outro, criminal, prevê pena de 1 a 4 anos de reclusão se eles forem condenados. Eles teriam usado "excessivo de força física", diz o comunicado da PM.

Segundo caso de motoboy morto

No dia 10 de abril, o motoboy Eduardo Luiz Pinheiro dos Santos também foi morto após ter sido abordado por policiais militares, na Zona Norte de São Paulo. Ele mais três amigos foram detidos depois de uma discussão. Os quatro foram levados para o quartel da PM. Um dos rapazes confirmou que Santos foi separado do grupo e que teria sido agredido com chutes. Duas horas depois, os rapazes foram liberados - menos o motoboy, que foi levado por policiais do mesmo quartel, já morto, para o hospital.

Doze policiais apontados por testemunhas como autores da tortura e do assassinato tiveram a prisão decretada pela Justiça Militar, a pedido da Corregedoria da polícia. O comandante geral da Polícia Militar, Álvaro Batista Camilo, enviou na segunda-feira (26) uma carta com pedidos de desculpas à mãe do motoboy.

"Quero conhecer a mãe desse outro motoboy também e dividir minha dor com ela. Com certeza, nossos filhos estão no céu e agora devem estar dizendo para nós: é isso aí, força! Os policiais não podiam ter deixado vocês sem o presente de ter os filhos no Dia das Mães", disse Maria Aparecida.

Por Kleber Tomaz

veja também