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Douglas Leonardo de Oliveira exibe um rosto triste com lágrimas nos olhos

Piloto e paraquedista morto não conversaram antes de voo

Atualizado: Domingo, 15 Julho de 2012 as 9:15

Em entrevista ao Fantástico, Douglas Leonardo de Oliveira exibe um rosto triste e com lágrimas nos olhos. O piloto atropelou e matou o amigo paraquedista em pleno voo, na última segunda-feira (9). 
“O cara que subiu no avião era um e o que pousou é outro”, diz Douglas. 

A vítima é Alex Adelmann conhecido como "Sangue". Considerado pelos colegas um dos melhores profissionais do Clube de Paraquedismo de Boituva, interior de São Paulo. 

“Ele era o sangue bom. Era o cara mais legal da área”, diz o piloto Douglas. 

Em entrevista exclusiva ao Fantástico, Douglas revela: percebeu a gravidade do acidente antes mesmo de pousar. 

“Eu já sabia que era fatal”, lamenta. 

O piloto ainda muito abalado está no Paraná, onde mora com a mulher e com a filha. Ele diz não entender como atingiu o amigo. 

“Parece um pesadelo, não que é verdade que ele morreu, não parece que é verdade que eu estou passando por isso. Ele era um paraquedista muito experiente, muito bom no que fazia. Era um cara com quem eu tinha muita confiança em trabalhar”, declara Douglas. 

Alex tinha 34 anos. Saltava desde 94. 

Ele era tetracampeão brasileiro de paraquedismo e também ganhava dinheiro fazendo saltos duplos, quando um profissional pula com alguém que queira viver a experiência. 

Em um vídeo gravado para o Fantástico dois dias antes de morrer, Alex repassa instruções. 

"Então vamos lá: lembra da posição? Perna junto e dobrada. Mão no suspensório, sorrisão”, orientou o paraqueditsta. 

O cliente é o Antônio que tinha prometido pular de paraquedas, caso o Corinthians fosse campeão da Libertadores. Antes do salto, o instrutor tenta acalmar o paraquedista novato. 

“Chegou a hora Tony”, disse. 

Na segunda-feira do acidente, Alex foi convidado pelo diretor da Confederação Brasileira de Paraquedismo para outro trabalho. 

Ele iria gravar, com uma câmera no capacete, um salto duplo. 


Mas a tragédia acabou com a missão. 

Segundo o piloto, depois de decolar, o avião subiu em espiral, por cerca de doze minutos, até uma altura de 3,6 mil metros. É nessa altitude que os paraquedistas saltam. 

De dentro de um avião, um modelo parecido com o do acidente, o Fantástico acompanhou a manobra de descida feita habitualmente pelos pilotos, no Clube de Boituva. 

Quando o último paraquedista salta, o avião embica para baixo, numa manobra conhecida como mergulho. 

A imagem da cidade dá uma ideia de como o avião fica inclinado. O piloto faz uma curva para a esquerda e desce em espiral. 

Nas imagens, dá pra ver como o avião chega rápido ao solo. Leva apenas quatro minutos. Um terço do tempo da subida. 

No dia do acidente, o piloto Douglas Leonardo já havia feito outros dez voos levando paraquedistas. O voo com o Alex foi o décimo primeiro. 

Douglas explica como foi o procedimento depois de lançar os paraquedistas. 

“Foi feito no nosso padrão. Como é feito todo dia. Iniciamos uma curva para esquerda, cinco, dez segundos depois senti o impacto”, lembra Douglas. 

O Fantástico recriou o momento do acidente segundo a versão do piloto. Logo depois do salto, Douglas começa a descida. Vira e volta em direção aos paraquedistas. 

A asa esquerda acerta Alex. Com o choque, ele foi jogado contra os outros dois homens que faziam o salto de instrução. 

Wanderson de Andrade e Conrado Álvares tiveram as pernas quebradas. 

Um dispositivo de segurança abriu o paraquedas de Alex que caiu no chão desacordado. 

Mesmo com o estrago na asa e com problemas no comando do avião, Douglas conseguiu pousar. 

Fantástico: O que você acha que pode ter acontecido? Porque é raríssimo um acidente desse tipo. 

“Aconteceu o improvável. Se eu tivesse tentado acertar ele muito provavelmente eu não teria conseguido. A chance é mínima de atingir alguma coisa com o avião em vôo”, afirma Douglas. 

Em depoimento à polícia, o piloto revelou dois fatos que podem ajudar a entender as causas do acidente. 

Primeiro: Douglas não sabia que o salto começaria sem um equipamento que diminui a velocidade da queda dos paraquedistas, porque não conversou com eles antes do voo. 

Para o presidente da Associação de Pilotos de Aeronaves, isso é um erro. 

“Eu jamais iria lançar alguém sem saber o que estava acontecendo”, diz Geroge Sucupira. 

“A gente subiu e a gente por acaso não tinha se falado nesse voo. Mas a gente se falava em todas as decolagens”, conta. 

Douglas disse ainda que na forma como desceu não pôde ver os colegas. Ele perdeu a referência de distância que tinha dos paraquedistas. 

“É difícil você responsabilizar sem saber exatamente o que aconteceu. O que é preciso ver nessa investigação: o que ficou combinado no preparo do voo e por que o piloto perdeu a visão do cinegrafista”, analisa Geroge Sucupira. 

A Aeronáutica está investigando o caso. 

Mesmo sem saber os motivos da tragédia, os donos dos aviões de paraquedismo de Boituva resolveram mudar as regras para o pouso. 

“Ninguém mais desce em curva, eles mergulham agora em linha reta, porque eles têm que descer rápido porque eles têm que buscar o outro grupo que está esperando” afirma Fabio Alvim Brandt, dono do avião do acidente. 

Mas, para o presidente da Confederação Brasileira de Paraquedistas, em Manaus, o mergulho não deveria ser realizado. 

“Aqui é um local que não ocorre essa prática. A posição da Confederação Brasileira de Paraquedismo em relação a essa prática do mergulho é contrária. Ela não recomenda. Porém, não proíbe porque não tem instrumentos para isso”, diz Jorge Derviche Filho. 

Mas o Presidente da Associação de Pilotos discorda. 

“É uma manobra radical, mas não é perigosa”, avalia Geroge Sucupira. 

Douglas também estava com a permissão para lançar paraquedistas e o certificado médico do aeronauta vencidos. E segundo a Agência Nacional de Aviação Civil não poderia estar pilotando. 

Por causa do atraso na documentação, a Anac pode agora puni-lo com multa, suspensão ou até mesmo cassação da carteira de piloto. 

Fantástico: Você pretende retomar a sua carreira? 

“Eu não sei, eu não sei fazer outra coisa da vida, eu nunca pensei em fazer outra coisa desde que eu era criança, eu só quis isso. Então, eu não sei se eu consigo fazer outra coisa, não sei se consigo continuar fazendo o que eu fazia”, declara Douglas. 

A mulher de Alex espera uma resposta sobre o que aconteceu. Ela também é paraquedista e conheceu o marido durante um salto. 

Ela conta qual era a sensação de saltar com o marido. 

“Não dá nem para explicar. É a sensação melhor que eu já tive na minha vida. O Alex mudou a minha vida”, diz Solange Majoros. 



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