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Em cadeira de rodas, Bertolucci diz que 3D o impediu de deixar o cinema

Em cadeira de rodas, Bertolucci diz que 3D o impediu de deixar o cinema

Atualizado: Quinta-feira, 12 Maio de 2011 as 10:43

Um sótão, dois personagens e três dimensões. Assim, o diretor italiano Bernardo Bertolucci descreveu, na manhã desta quarta-feira (11), em Cannes, seu novo projeto para o cinema. O filme será uma adaptação em 3D do romance "Io e te", de Niccolo Ammaniti, história de um adolescente que se refugia no sótão de casa na tentativa de escapar dos problemas do cotidiano e do bullying dos amigos na escola até a chegada de uma garota que tenta tirá-lo da exclusão..

"Nos últimos cinco ou seis anos eu estava convencido de que não faria mais filmes. Minha condição, que todos podem ver, me fez pensar: é o fim", revelou o diretor que, aos 71 anos, foi ao encontro dos jornalistas em uma cadeira de rodas por conta de uma série de cirurgias que fez para contornar uma hérnia de disco.

"Então, um ano atrás, eu li esse livro e gostei. Já tinha visto 'Avatar' e ficado fascinado com o 3D, mas comecei a pensar por que [essa tecnologia] só é considerada boa para para filmes de horror ou ficção científica. Se o "Oito e meio", do Fellini, fosse em 3D não seria maravilhoso? E 'Persona', do Bergman? Então pensei que esse meu filme com dois personagens também poderia ser fantástico [em 3D]."

Diretor de obras como "Antes da revolução" (1964), "O último imperador" (1987), "Beleza roubada" (1996) e "Os sonhadores" (2003), Bertolucci está em Cannes para "corrigir uma injustiça", nas palavras de Thierry Fremaux, diretor do festival. Em mais de quatro décadas frequentando a riviera francesa, Bertolucci nunca foi premiado aqui e, nesta noite, recebe a Palma de Ouro Honorária por sua carreira.

"Fico feliz porque não é um júri que está me dando um prêmio por um filme. Foi o festival que me trouxe aqui, por causa de um 'filme', que é feito de sequências de todos os meus filmes", comemorou ele, que deverá receber o prêmio logo mais das mãos de um velho amigo, o ator Robert De Niro, presidente do júri desta 64 edição do Festival de Cannes.

"Será ótimo. Quando Bob veio trabalhar comigo, em '1900', éramos muito mais jovens - ainda somos jovens, dependendo do ponto de vista e do espelho em que se olha -, mas ele já falava pouco. Bob é muito lacônico. Se fizer um discurso essa noite, já será um milagre."

Além de lhe entregar a Palma honorária, o festival também realizará uma sessão de "O conformista" (1970), um dos primeiros e menos conhecidos trabalhos de Bertolucci como diretor. "Não sei quem escolheu esse filme para me representar nessa ocasião. Acho que é porque foi restaurado recentemente. Mas seria melhor se me restaurassem, em vez de restaurarem meus filmes", disse, fazendo graça novamente.

Entre os tantos longas de sua filmografia, Bertolucci falou mais extensamente sobre "Último tango em Paris" (1972), drama protagonizado por Marlon Brando e Maria Schneider que, à época, escandalizou - e animou - plateias em todo o mundo por conta da famigerada cena de sexo anal com a manteiga.

"Lembro que, por um ano, eu perdi a cabeça completamente. O filme foi um sucesso tão grande que, mesmo que eu quisesse ficar com os pés no chão, esse sucesso te leva e te deixa um pouco louco", comentou, acrescentando que a contribuição de Brando para o resultado final foi inestimável. "Ele me deu tanto por aquele filme que, quando acabamos de rodar, ele não queria me ver mais, percebeu que havia se aberto demais comigo. Ele estava fazendo algo que nunca tinha feito antes, e colocou tudo para fora ali - seu material, suas memórias, a essência da sua natureza."

Antes de ser empurrado para fora da sala em sua cadeira de rodas e se desculpar por não ter nenhum filme novo mas "só essas memórias antigas" para comentar, Bertolucci ainda teve tempo de compartilhar uma última anedota cinemtográfica com os jornalistas. "Vai ser uma rapidinha", prometeu ao mediador, arrancando novas gargalhadas."

"Quando eu fiz 'O último tango', estava seduzido pelas histórias [eróticas] do Georges Bataille, lia muita coisa dele. Mas há afinidades estranhas no cinema: ao mesmo, no Japão, tinha um diretor [Nagisa Oshima] fazendo 'O império dos sentidos'. A gente não se conhecia, mas ambos tínhamos o desejo de falar sobre sexualidade de uma forma que ninguém tivesse feito. Ficamos amigos depois e, um dia, descobrimos que tínhamos escrito exatamente a mesma cena, que não entrou nas versões finais de nenhum dos dois filmes. [Depois do sexo], o homem diz à mulher: 'Não vamos abrir a janela, não vamos abrir as portas nunca mais. Vamos manter nosso cheiro conosco'."

A cena, explica Bertolucci, foi cortada de "O último tango em Paris" porque o cinema não tem ainda como representar cheiros. Quem sabe daqui a alguns, depois que o seu projeto em 3D ver a luz do dia, uma nova tecnologia não o leve até lá.

Por: Diego Assis

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