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Em nova carta, vigia do caso Mércia diz que delegado mandou torturá-lo

Em nova carta, vigia do caso Mércia diz que delegado mandou torturá-lo

Atualizado: Sexta-feira, 6 Agosto de 2010 as 7:46

Em nova carta obtida pelo G1 , o vigia Evandro Bezerra Silva, acusado de envolvimento na morte de Mércia Nakashima, sugere que o delegado Antônio de Olim, do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil de São Paulo, orientou policiais civis de Sergipe a torturá-lo para que ele confessasse o crime. Olim e a Polícia Civil sergipana negam as acusações.

“Eu fui mais bem tratado pelos ladrões que estavam na cela comigo que pela polícia”, escreveu o vigilante.

Em outra carta escrita por Evandro e divulgada em 19 de julho, o vigilante já havia afirmado que foi agredido. Mas, dessa vez, diz que dois delegados e quatro policiais sergipanos queriam que ele falasse o que Olim queria: que Evandro acusasse Mizael de matar Mércia por ciúmes e ainda dizer que o ajudou a fugir.

Evandro foi preso em 9 de julho no interior de Sergipe. Lá, negou saber da morte de Mércia aos policiais sergipanos. Depois, na presença da polícia paulista, passou a dizer que Mizael matou a ex-namorada Mércia por ciúmes, em uma represa em Nazaré Paulista, no interior do estado de SP, em 23 de maio. O vigilante contou ainda nesse depoimento que ajudou o suposto criminoso na fuga, ao dar carona para ele.

Nova carta

A nova carta escrita por Evandro tem quatro páginas e foi entregue ao advogado dele, José Carlos da Silva, antes da transferência do vigilante da cadeia do 1º Distrito Policial, em Guarulhos, na Grande São Paulo, para o Centro de Detenção Provisória (CDP) 1, em Pinheiros, na Zona Oeste da capital, que ocorreu na quarta-feira (4). Silva repassou a carta ao G1 . De acordo com o defensor, o vigilante nega envolvimento no crime.

No texto, Evandro não aponta o delegado paulista como seu agressor, mas sim os policiais de Aracaju, que teriam colocado um saco plástico em sua cabeça. O vigilante também afirma que foi coagido a dar a versão apresentada por Olim. “Tudo o que falei na polícia fui coagido a falar. Foi tudo forjado pela polícia de Aracaju junto com doutor Olim. Só foi ele chegar naquela cidade e a minha vida mudou. Ele diz que não sabia de nada. Será?”, escreveu Evandro, de próprio punho.

Outro lado

Procurado nesta quinta-feira (5) para comentar o assunto, o delegado Olim negou as acusações. “Como fui forjar o depoimento do Evandro se ele falou daquele jeito todo calmo como mostraram as imagens gravadas? Deixa ele [vigia] falar o que quiser. Não teve nada de forjar confissão”, disse.

O DHPP filmou e gravou o seu depoimento. Nas imagens, ele não aparentava sinais de agressão e falava tranquilamente com Olim. Outras testemunhas também estavam presentes.

“No calor da apresentação na delegacia, Evandro disse o que ele quis. Só que ao mostrar as evidências ou ele negaria ou ele tentaria adequar a versão para minimizar a participação dele, como ele fez. Ele disse que não matou a Mércia, apenas socorreu o amigo [Mizael] que estava sozinho na beira da represa”, afirmou em julho o diretor do DHPP, Marco Antônio Desgualdo.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado de Sergipe também disse que o vigilante não foi agredido. Segundo o órgão, Evandro chegou até a passar por exame de corpo de delito e nenhum indício de violência foi encontrado. Ainda de acordo com a secretaria, ele não se queixou de tortura durante os dias que ficou detido no estado.

Detalhes da suposta tortura

“Qualquer júri que for me julgar já sai da sua casa certo para me condenar, pois já fui julgado pela imprensa”, escreveu Evandro na carta. “Sou inocente. Não matei ninguém, nem ajudei [...] Fui torturado." Depois, o segurança descreve como ocorreu a suposta tortura e suas declarações contraditórias: a primeira, quando contou ser inocente, e a segunda, quando acusou Mizael de matar Mércia por ciúmes e disse o ter ajudado a fugir da cena do crime.

De novidade, estão os detalhes da agressão que diz ter sofrido para acusar Mizael e confessar participação num crime que alega não ter visto. Diz que foi preso em Canindé de São Francisco e contou ser inocente. Levado para Aracaju, afirma ter sido torturado por dois delegados e quatro policiais da capital do Sergipe.

Segundo Evandro, os policiais disseram: "Agora você vai falar porque aqui na minha delegacia você não fala o que você quer. Aqui você fala o que nós queremos”.

O vigilante disse que os policiais pediram então para ele acusar Mizael pelo crime e dizer que deu uma carona para o advogado e policial militar aposentado. “Fala isso que o dr. Olim vai te ajudar”, escreveu.

Ao se recusar, Evandro descreve que foi chamado de “durão” pelos policiais e que foi colocado numa cadeira. “Aí, ele pegou uma fita e enrolou na minha boca. Colocou um saco plástico na minha cabeça e me sufocou.”

A senha para os policiais retirarem o saco, contou ele, era bater o pé no chão. Evandro afirmou que bateu o pé por quatro vezes.

Depois, teria sido levado para outra sala, onde estava Olim, com uma câmera de vídeo, e um escrivão. Os policiais, segundo o relato do vigilante, disseram: “Ele vai falar tudo o que foi combinado, não é Evandro?”.

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