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Em novo livro sobre o caso Isabella, médico diz que pedófilo matou garota

Em novo livro sobre o caso Isabella, médico diz que pedófilo matou garota

Atualizado: Segunda-feira, 10 Maio de 2010 as 7:42

Está previsto para o fim deste mês o lançamento de mais um polêmico livro sobre o caso Isabella, que terminou em março deste ano com a condenação do casal Nardoni pelo assassinato da menina, em 2008. ''A morte de Isabella Nardoni - Erros e Contradições Periciais'', do médico alagoano George Sanguinetti, discorda da versão oficial da Justiça, que diz que Anna Jatobá tentou esganar a enteada e Alexandre Nardoni jogou a filha pela janela após uma discussão.

Em 87 páginas, ele critica o trabalho dos peritos e volta a reafirmar a existência de uma ''terceira pessoa'', mas, desta vez, ''revela'' quem seria o criminoso. ''Um pedófilo matou Isabella Nardoni e ela sofreu violência sexual, foi abusada sexualmente'', resumiu o autor por telefone ao G1, na sexta-feira (7). Essa tese sugere que o pai e a madrasta de Isabella são inocentes.

Não é a primeira vez que alguém escreve uma obra sobre o caso. Em junho de 2009, o gaúcho Paulo Papandreu, que também é médico, havia publicado ''Isabella'', que apresentava outra explicação para a morte da garota: ''acidente doméstico''. Segundo ele, a garota caiu sozinha do sexto andar do Edifício London, na Zona Norte de São Paulo. O livro, que exibia uma foto de Isabella, não agradou a mãe da menina, Ana Carolina Oliveira. Ela entrou com uma ação contra as imagens e o conteúdo da publicação. Em outubro, uma decisão judicial proibiu a sua venda e determinou o recolhimento dos 10 mil exemplares.

Para não vir a correr o risco de sofrer uma ação similar à que ocorreu com Papandreu, Sanguinetti afirma estar ''calçado'' e bem assessorado juridicamente. ''Não preciso de autorização da família da Isabella para publicar o livro, isso está na Constituição Federal. Mas mesmo assim me precavi. O primeiro passo foi o de não colocar nenhuma foto de Isabella, qualquer citação da família dela ou cópia de documento original do processo. Faço linguagem técnica a partir de achados. Não estou dizendo que o casal é inocente, mas que a polícia e a perícia deveriam ter investigado uma terceira pessoa'', disse o médico alagoano que em 1998 ganhou o prêmio Jabuti de literatura pelo livro ''A Morte de PC Farias: O Dossiê de Sanguinetti''.

Isabella Nardoni morreu no dia 29 de março de 2008. À época, a garota tinha cinco anos. Nardoni foi sentenciado a 31 anos, 1 mês e 10 dias; Jatobá, a 26 anos e 8 meses de prisão. Os dois estão presos em Tremembé, a 147 km da capital paulista. Ambos negam o crime. Sugerem que alguém entrou no apartamento enquanto Isabella dormia sozinha e a matado.

Pedófilo

''Sim, quem matou Isabella foi um pedófilo. As lesões encontradas no seu órgão genital são iguais a de uma criança abusada sexualmente. Ela caindo sentada, como afirmou a perícia paulista, não teria lesões como as que ficaram em seu corpo'', afirmou Sanguinetti. Os peritos alegam que as lesões na genitália são decorrentes da queda do sexto andar.

O G1 teve acesso à cópia do conteúdo do livro de Sanguinetti. São 45 páginas expostivas da tese do médico, contêm fotos de uma boneca para representar Isabella e desenhos feitos à mão de um suspeito, apontado como o pedófilo. O restante das páginas é de cópias de documentos de pareceres que ele já fez sobre o caso.

Leia abaixo o trecho do livro no qual ele tenta reproduzir como Isabella foi morta possivelmente por um pedófilo:

''A provável e talvez única motivação para o crime, para que ela fosse jogada do 6º andar do Edifício London foi desviar o foco do atentado sexual. Para que não fosse descoberta as lesões na genitália de Isabella e também impedir o reconhecimento do pedófilo. Acredito que a menor estava adormecida na cama, quando o infrator baixou a calça e a calcinha e a vulnerou com toques impúdicos, dedos, manuseios, etc. Ela acorda e grita papai... papai... papai e para...para..para, como foi descrito por testemunhas que ouviram os gritos de Isabella, audíveis até no 1º andar e no edifício vizinho. Os depoentes que ouviram os gritos, testemunharam que foram minutos antes da precipitação. Na tentativa de silenciá-la, de ocultar a tentativa de abuso sexual, a menor é jogada para a morte. Quando iniciei meus trabalhos, relatei meus primeiros achados e divulguei: 'procurem o pedófilo, procurem o pedófilo', mostrando a causa real da morte de Isabella. No prédio ou nas cercanias, havia alguém com antecedentes de pedofilia? Os que trabalharam anteriormente foram investigados sob esta ótica? Repito: 'Procurem o pedófilo! Procurem o pedófilo.'', escreve Sanguinetti.

De acordo com o médico, a finalidade do livro é a de contribuir com o esclarecimento do caso. ''Não afirmo que o casal é inocente. Apenas digo que deveriam ter investigado uma terceira pessoa, além do casal. E que o crime teve conotação sexual''.

''O responsável pela vistoria no local na noite em que Isabella Nardoni foi jogada foi o tenente [da Polícia Militar Fernando Neves] acusado de pedofilia, que, dias após, cometeu suicídio quando descoberto. Suas afirmações no local: 'revistou todos os apartamentos possíveis e os que teve autorização dos moradores'', afirma Sanguinetti em outro trecho do livro.

Segundo o escritor, o oficial da PM deveria ter sido investigado como suspeito. "Além dele, havia uma rede de pedofilia que era investigada pela Corregedoria da PM naquela área", disse.

Entre o que chama de principais erros dos peritos dos institutos Médico Legal e de Criminalística, o autor cita:

1) A causa da morte de Isabella (para os peritos foram asfixia mecânica por esganadura e politraumatismo devido a queda de 18 metros de altura; Sanguinetti acredita apenas na segunda hipótese);

2) Asfixia por embolia gordurosa confundida com asfixia por esganadura (a perícia diz que a asfixia foi por esganadura; o autor do livro descarta isso).

3) Interpretação de pequenas lesões nos lábios e boca (peritos dizem que foram causadas pela sufocação; Sanguinetti sustenta que foram causadas porque a menina foi entubada e os aparelhos machucaram suas vias respiratórias)

4) Investigação (a polícia acusou o casal e afirmou não ter encontrado indícios de uma terceira pessoa; o médico alagoano diz que era possível entrar no prédio por uma construção vizinha)

5) Motivação para o crime (o Ministério Público afirmou no julgamento que a madrasta Jatobá tinha ciúmes do marido, Nardoni, com a mãe de Isabella e a filha deles; Sanguinetti fala em crime sexual praticado por um pedófilo).

A capa do livro ''A Morte de Isabella Nardoni - Erros e Contradições Periciais'' ainda não foi definida. O escritor afirma que a decisão está entre três idéias, mas que em nenhuma delas aparece qualquer foto da menina. ''Numa, usamos um manequim de criança se fragmentando. Em outra, a silhueta de uma criança com ferimentos. A terceira sugestão é uma discussão com adultos e uma criança'', disse Sanguinetti.

Apesar de ainda dizer que negocia com a editora onde fará o lançamento, o autor diz que o livro deverá estar pronto entre os dias 20 e 25 de maio, quando estará previsto seu lançamento oficial. ''Devo fazer a divulgação primeiro em São Paulo'', afirmou o médico, que sugere um preço popular para a obra. ''Quero ver se consigo vendê-lo em bancas por R$ 10 ou R$ 8''.

Procurada pelo G1 para comentar o assunto, a advogada de Ana Carolina Oliveira, Cristina Christo Leite, não quis se manifestar. O promotor Francisco Cembranelli, que denunciou o casal Nardoni, afirmou por telefone que ele não tem qualificação. "Considero tão insignificante o trabalho dele [Sanguinetti], que ele não foi chamado nem pelo advogado da defesa [Roberto Podval] para ser testemunha''.

Por Kleber Tomaz

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