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Escutas da PF flagram negociações entre presos do Rio e traficante paraguaio

Escutas da PF flagram negociações entre presos do Rio e traficante paraguaio

Atualizado: Terça-feira, 22 Maio de 2012 as 7:32

Mario Hugo Monken, iG Rio de Janeiro

Escutas telefônicas feitas pela PF (Polícia Federal) revelaram que presos do sistema penitenciário do Rio de Janeiro negociavam diretamente, via telefones celulares, com um suposto traficante paraguaio o envio de cocaína e maconha para o Brasil.

As investigações foram feitas entre 2009 e 2010 e culminaram, em janeiro deste ano, com a condenação de seis acusados de participar do esquema pela Justiça Federal pelos crimes de tráfico internacional de drogas e associação para o tráfico. O iG teve acesso ao processo que traz trechos de interceptações telefônicas que mostram as negociações.

O paraguaio que falaria nas escutas seria, segundo a Justiça Federal, Juan Arnaldo Céspedes Amarilla, o Nando, que viveria entre Coronel Sapucaia (MS) e Capitán Bado (Paraguai). O suspeito é o mesmo que, em 2009, teria sido o pivô da prisão de dois agentes federais brasileiros no Paraguai.

Na época, os policiais teriam invadido o país vizinho em perseguição a Juan, que teria pedido ajuda à polícia local e a dupla acabou indevidamente presa. Foi paga uma fiança e os agentes liberados. O paraguaio continua solto com um mandado de prisão pendente. Ele não foi condenado porque houve desmembramento do processo.

Em interceptações feitas entre os dias 7 e 8 de março de 2010, um preso, cujo nome não é citado na sentença, fala com Nando sobre um carregamento de drogas que saiu da cidade de Caarapó (MS) com destino a Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense.

Nas conversas, os suspeitos usam códigos para falar das drogas. Ao ser perguntado sobre quanto viria de drogas, o paraguaio afirma que seriam 12 de B e 53 do verde. De acordo com a Justiça, B significaria cocaína e verde, maconha. Os números correspondem a quantidade de quilos de cada entorpecente. Confira os principais trechos das conversas entre eles sobre a chegada do carregamento:

O carregamento citado na conversa foi interceptado pela PF no dia 8 de março de 2010. Na ocasião, foi apreendida a quantidade quase exata mencionada pelos suspeitos durante a conversa (12 kg de cocaína e cerca de 50 kg de maconha). Quatro pessoas foram presas na época. Pouco depois do fato, a PF flagrou o mesmo preso comentando sobre a apreensão com o paraguaio. Acompanhe os trechos:

Encomenda antes do Carnaval

No dia 31 de janeiro de 2010, a polícia já havia interceptado uma conversa de um preso (cujo nome também não foi divulgado na sentença) e o mesmo paraguaio em que eles falam sobre o envio de 25 kg de cocaína e de 100 kg de produtos químicos para serem misturadas na droga.


Novamente, os bandidos falaram em códigos. Eles se referem a B como sendo cocaína e usam a palavra bolo para os dois (a cocaína e as substâncias para a mistura).

O paraguaio também afirmou que faria duas viagens para a entrega do material acertado. O preso questiona se as drogas chegariam antes do Carnaval. Veja os principais trechos da conversa:

Uma outra interceptação, feita em outubro de 2009, mostrou uma conversa do preso Marcelo Santos Silva, o Carlão, com o paraguaio Juan Arnaldo sobre a chegada de produtos químicos para se misturar com a cocaína

Carlão era o segundo na hierarquia da quadrilha no Brasil e o encarregado de fazer a ponte com o paraguaio. Ele estava abaixo apenas de Luiz André Ribeiro Fiúza, o Pastor, que na época das investigações estava preso no presídio Plácido Sá Carvalho, no Complexo Penitenciário de Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro.

Na conversa, o paraguaio falou que teria enviado para o Rio uma mistura de benzo e chelocaína. De acordo com a polícia, se tratavam na verdade de benzocaína e xilocaína.

Troca de carros por drogas

As investigações feitas pela PF na época revelaram que o fornecedor paraguaio exigiria o envio de carros para a fronteira como forma de pagamento pelas drogas.

Interceptações feitas em dezembro de 2009 flagraram Nando supostamente questionando um suspeito brasileiro conhecido como Coquinho, filho do traficante Pastor, sobre o envio de uma picape.

Na conversa, ele disse a Coquinho que comparsas no Paraguai aguardavam pelo veículo. O brasileiro respondeu dizendo que ficaria na porta da casa de uma pessoa para roubar uma Hylux preta e que, para efetuar o roubo, teria um “brinquedo” (arma).

Em outras conversas gravadas, os suspeitos chegaram a comentar sobre o envio de uma Pajero e de um Palio Weekend para o Paraguai em troca de drogas.

Mulheres

Segundo as investigações, Pastor e Carlão também usavam suas respectivas mulheres para realizar as negociações. A companheira de pastor, por exemplo, foi flagrada em uma escuta telefônica negociando com uma pessoa não identificada a venda de uma pistola 9 mm ao preço de R$ 4.500, além de uma metralhadora ponto 40 (arma antiaérea).

Há também uma conversa em que Carlão fala para uma das mulheres que atuava no grupo que poderia trazer para o Brasil fuzis calibre 762 ao preço de R$ 28 mil.

Pastor foi condenado a 17 anos e seis meses de prisão pelos crimes de tráfico internacional de drogas e associação para o tráfico. Carlão foi sentenciado a seis anos e três meses por associação ao tráfico.

Outras quatro pessoas também foram condenadas no processo. Todas elas foram presas durante a apreensão do carregamento de drogas enviado à quadrilha no dia 8 de março de 2010.  


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