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Esmir Filho estreia primeiro longa

Esmir Filho estreia primeiro longa

Atualizado: Quarta-feira, 31 Março de 2010 as 12

Esmir Filho queria poder levar cheiros para a sala de cinema. E também mostrar cenas tão molhadas que respingassem nos espectadores. É assim que ele imagina seus filmes, "uma coisa bem sensorial", diz o paulistano de 27 anos, de fala rápida e muitos gestos, numa pracinha idílica no meio da movimentada Vila Madalena, bairro onde mora em São Paulo.

O jovem diretor já registra prêmios no currículo e passagens por festivais do porte de Cannes e Berlim. E isso só com alguns curtas e um primeiro longa-metragem, "Os Famosos e os Duendes da Morte", que chega na sexta aos cinemas, após receber troféus no Uruguai, Chile, México e vencer o prêmio de melhor longa de ficção no Festival do Rio (2009).

"Deslumbre não está com nada", diz, frente à expectativa criada com tantos prêmios. "Já tive momentos de parar e pensar, será que é isso mesmo? Promessa do cinema? Mas eu não estou prometendo nada!" A história de "Os Famosos..." em nada tem a ver com seu trabalho mais conhecido, o vídeo-piada "Tapa na Pantera", feito em parceria com amigos na época da faculdade e fenômeno na internet, no qual a atriz Maria Alice Vergueiro interpreta uma maconheira lesada.

O longa fala sobre jovens solitários de uma cidadezinha fria do interior do Rio Grande do Sul, cuja única ponte com o mundo exterior é a internet. Uma outra ponte, essa real, que atravessa o rio do vilarejo de descendentes alemães, também tem importância crucial, como ponto final para os moradores cansados do tédio.

"Tem gente que acha que fiz o "Tapa" e já estou lançando um longa. Não, eu fiz todos esses curtas antes", lembra Esmir, premiado pelo roteiro de "Alguma Coisa Assim" (2006) em Cannes, onde também exibiu "Saliva" (2007), ambos sobre percalços da adolescência.

"Meus trabalhos são muito pessoais, não autobiográficos. Eu passei por aquilo [solidão na adolescência]. Como o menino na ponte, tive a minha ponte. São questões de crescimento."

O menino no caso é Mr. Tambourine Man (Henrique Larré), 16, que vive mais no mundo virtual do que no real, conversando com amigos na internet, blogando ou visitando a página da enigmática Jingle Jangle (Tuane Eggers). Um novo personagem aparece na sua vida real, uma espécie de forasteiro da cidade (Ismael Caneppele).

Ismael é também autor do livro "Os Famosos e os Duendes da Morte". Natural de Lajeado, no vale do Taquari (RS), onde se passa a história, ele apresentou a Esmir o romance inacabado, e os dois trabalharam livro e roteiro juntos, ao mesmo tempo. "Foi muito doido, uma criação meio coletiva. Livro e filme são complementares, é um diálogo", diz Esmir, que assina o roteiro com Ismael, num processo que os dois batizaram de "roteiro literário". A parceria deve render mais um livro e filme, a ser rodado na praia, sobre "claustrofobia familiar".

"Quando o menino senta naquele gira-gira, tudo o que ele sente está escrito no livro." Formado em cinema pela Faap em 2004, Esmir estudou teatro na adolescência. Quando filmava curtas, fazia questão de pagar do próprio bolso a equipe. "Sempre quis profissionalizar o curta", diz Esmir, que trabalhava como assistente de direção de publicidade. Ainda hoje, faz direção de comerciais e também a divide com Rafael Gomes, parceiro de "Tapa", na série da TV Cultura "Tudo o que É Sólido Pode Derreter".

Apesar de gostar de Bergman, Kieslowski e Rohmer, Esmir acredita que seu longa tenha mais diálogo com a obra de jovens diretores que vem conhecendo em viagens a festivais. "As referências são inconscientes, mas vejo diálogos", diz. "Está tudo diluído, pequenos movimentos artísticos acontecendo. Acho que é isso, estamos na era de aquário."

Por: Fernanda Ezabella

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