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Ex-escrevente revela durante júri em MT que juiz tinha medo de morrer

Ex-escrevente revela durante júri em MT que juiz tinha medo de morrer

Atualizado: Quarta-feira, 30 Novembro de 2011 as 8:55

Juiz foi assassinado em 1999 no Paraguai

(Foto: Reprodução/TVCA) A ex-escrevente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT), Beatriz Árias, prestou o depoimento mais impactante do primeiro dia do Tribunal do Júri, em Cuiabá, que julga o empresário acusado de mandar matar o juiz Leopoldino Marques do Amaral, assassinado em 1999.

Durante esta terça-feira (29) foram prestados os depoimentos das testemunhas de acusação, e quarta-feira (30), a partir das 9h, também serão ouvidas as testemunhas arroladas pela defesa do acusado. Devem prestar esclarecimentos o ex-delegado federal José Pinto Luna, o agente federal Daniel Rui Baldi, o atual superintendente da PF em Cuiabá, César Augusto Martinez, e o ex-superintendente do órgão Cláudio da Rosa. Em seguida, começam os debates entre defesa e acusação. A previsão inicial é que o julgamento dure pelo menos três dias. 

Beatriz Árias, que foi ouvida apenas na condição de informante, disse que Leopoldino tinha provas que comprovariam o envolvimento do acusado Josino Guimarães no esquema de venda de sentença no Poder Judiciário Estadual. O Ministério Público Federal (MPF) apontou o empresário como um negociador de sentença e o denunciou por homicídio triplamente qualificado.

Ela disse ainda que o juiz, com quem manteve um caso amoroso por certo período, elaborou um dossiê que seria entregue a ela para que fosse divulgado publicamente. Mas o documento não veio à tona até hoje, segundo ela, por temer pela própria vida. Ela comentou ainda, que assim como ela, o juiz Leopoldino a confidenciou que tinha medo de morrer.

Defesa

O advogado Waldir Caldas disse que vai defender a tese de não autoria do crime de mando. O advogado disse que o empresário sempre negou durante os últimos 12 anos qualquer envolvimento com o crime, e que ele nunca negociou sentença. Ainda segundo o advogado, o depoimento dela só mostrou uma série de inverdades e deixou os jurados com mais dúvidas.

Sobre o depoimento de quase três horas prestado pela ex-escrevente, o advogado João Cunha, que também integra a defesa do empresário, lembrou que Beatriz depôs na condição de testemunha, ou seja, sem precisar necessariamente falar a verdade em juízo. Documentos

A ex-escrevente disse que existe um dossiê, ainda não divulgado, com uma série de documentos, fotos e cópias de cheques comprovariam o esquema criminoso. A procuradora da república Vanessa Scarmagnani, que integra a equipe de acusação do MPF, perguntou por que ela nunca divulgou o conteúdo deste dossiê que poderia, inclusive, tê-la ajudado no próprio julgamento que a condenou a prisão, em 2001.

“Esse documento esta me deixando viva até hoje”, declarou a ex-escrevente durante o júri. Ela ainda denunciou que os policiais que investigaram o caso a forçaram a mudar seus depoimentos seguidas vezes. Durante o depoimento, a ex-escrevente também disse que não conhecia o empresário Josino na época do fato. Ela comentou que o conheceu pessoalmente durante o julgamento. Questionada pelo advogado João Cunha, ela disse que o empresário nunca lhe ofereceu diretamente qualquer proposta em dinheiro, mas que "terceiros" fizeram isso.

"Fuga"

Segundo a Polícia Federal, o corpo do juiz Leopoldino foi encontrado carbonizado em setembro de 1999 na cidade Concepción, no Paraguai. Ele teria sido morto após ser atingidos por tiros na cabeça. Na época, o juiz tinha acabado de denunciar um esquema de venda de sentença no Poder Judiciário Estadual. Beatriz Árias foi condenada pela Justiça a 12 anos por co-autoria do crime. Já o tio dela, Marcos Peralta, que morreu na cadeia, foi condenado como o autor dos disparos.

No Tribunal do Júri, porém, Beatriz narrou que o juiz estava na verdade fugindo para o Paraguai. Na época, disse ela, o juiz revelou que “estava com medo de morrer”. A ex-escrevente declarou que o juiz se sentia ameaçado pelas pessoas que foram denunciadas como envolvidas no esquema. Ela informou que Leopoldino foi assassinado quando queria buscar mais provas dos crimes no Paraguai.

O depoimento dela foi o último realizado nesta terça-feira. O penúltimo foi do juiz José Geraldo da Rocha Barros Palmeira, que foi arrolado como testemunha de acusação pelo Ministério Público Federal (MPF). Ele afirmou que Josino teria encomendado a morte do juiz Leopoldino em uma reunião onde estiveram presentes desembargadores do Tribunal de Justiça.

Diante da informação, a defesa de Josino pediu ao presidente do Tribunal do Júri, o juiz Rafael Vasconcelos Porto, que os dois desembargadores aposentados, citados por Palmeira, fossem chamados para prestar esclarecimentos dos fatos. No entanto, o juiz indeferiu o pedido. “Indefiro, acho irrelevante no processo”, comentou o juiz Rafael Vasconcelos. O MPF lembrou que tal medida causaria uma desconfiguração da atual composição do júri.

“A ordem dada era para assassinar a mim e ao Leopoldino”, comentou o juiz Palmeira, em depoimento via vídeo-conferência direto de Alagoas. Ele foi questionado de Cuiabá pelo procurador Douglas Santos Araújo. O juiz disse que a informação lhe teria sido repassada por uma pessoa que foi até a casa dele. Palmeira contou ainda que a sua família chegou a ser perseguida por um carro dia antes do crime.

No depoimento, o juiz revelou também que era tido pelo grupo de desembargadores como um homem que teria distribuído provas para o juiz Leopoldino, que na época apurava a suposta venda de sentença em Mato Grosso. Na reunião secreta, os magistrados teriam acertado pagar R$ 100 mil em dinheiro pela morte do juiz. Palmeira destacou, porém, que o informante explicou que o empresário Josino teria apenas emprestado a casa para o encontro.

O Tribunal do Júri está composto por quatro homens (um odontólogo, um contador, um analista de sistema e um servidores público) e três mulheres (uma administradora, uma técnica em manutenção e uma assistente social). Em geral, são pessoas com mais de trinta anos. Eles vão definir o futuro do acusado Josino Guimarães.        

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