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Facção em SP tenta manter estrutura de cooperativa, dizem promotores

Facção em SP tenta manter estrutura de cooperativa, dizem promotores

Atualizado: Quinta-feira, 12 Maio de 2011 as 8:29

Bases da PM e dos bombeiros estavam entre alvos de ataques em 2006 (Reprodução/Globo News)

  Cinco anos após os ataques de maio de 2006, a facção criminosa que age dentro e fora dos presídios de São Paulo está mais estruturada e investe não só no tráfico, mas na tentativa de manter um sistema lucrativo, segundo promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), órgão do do Ministério Público encarregado da investigação de quadrilhas desse tipo.

O que preocupa agora não são apenas as drogas, dizem eles. Mas o uso de empresas de fachada para lavagem de dinheiro, a corrupção policial e a busca de legitimazação do poder através da eleição de políticos que apoiam a causa do sistema penitenciário.

De acordo com dados do MP, atualmente, a facção tem cerca de 6 mil integrantes dentro do sistema penitenciário e outros 1.500 fora das cadeias, movimentando por mês até R$ 5 milhões no estado.     “A facção funciona como uma quadrilha que tenta arrigementar pessoas para praticar crimes buscando o lucro e depois lava o dinheiro para dar consistência lícita ao resultado do tráfico. É possível e factível que tentem eleger quem os apoie. Eles criam toda uma estrutura para dar sustentação ao crime e não sei até que ponto isso vai”, disse ao G1 o promotor Luiz Henrique Cardoso Dal Poz, coordenador dos Gaecos do estado.

“Combatemos o crime nas corregedorias, para reprimir a corrupção policial, e também reprimimos a lavagem de dinheiro. Mas o que nos preocupa é que eles podem entrar no poder estatal através da política. Já tivemos isso no caso do assassinato do prefeito de Jandira [em dezembro de 2010, com a descoberta de um esquema de corrupção e desvio de verbas e que gerou 7 denúncias do MP] e a prisão do candidato a deputado estadual Ney Santos em Taboão da Serra, suspeito de ligação com a facção”, afirma o delegado-geral da Polícia Civil paulista, Marcos Carneiro. Ney Santos, que está em liberdade, negou as acusações .

Ônibus foram queimados durante ações da facção há 5 anos (Reprodução/Globo News)

  Como uma 'cooperativa'

A facção foi criada em 1993 após o massacre na Penitenciária do Carandiru, quando 111 presos foram mortos pela polícia durante uma rebelião, e dizia defender os direitos dos detentos. Segundo o Ministério Público, desde 2006, a quadrilha ficou mais seletivida quanto aos filiados, que pagam contribuição mensal. O dinheiro é usado para contratação de advogados e ajuda às famílias.

“A facção funciona como uma cooperativa bem organizada em que as contribuições voltam em prol dos associados, como um plano de saúde. Todo domingo saem do Terminal da Barra Funda, na Zona Oeste da capital, ônibus fretados que levam familiares às penitenciárias. Isso garante o poder deles”, diz o ex-secretário nacional de Segurança Pública José Vicente.

“Após os ataques de 2006, eles perceberam que não compensa comprar briga com o estado, que eles precisam garantir os lucros e os benefícios de forma silenciosa. O estado também agiu fortemente e passou a monitorar e a conhecer as lideranças do crime. O negócio do tráfico é custoso, tem que empregar gente, pagar policial corrupto, lavar dinheiro. Tudo com sutileza”, acrescenta José Vicente.

Estrutura empresarial

A inteligência do MP tem um levantamento detalhado com os nomes dos chefes do crime organizado em cada região da capital e do interior. Eles são denominados “torres” ou “sintonias”. “A facção não perdeu sua motivação desde que foi criada, que é defender os direitos dos detentos. Não busca só o lucro, como a máfia, mas defende que a renda seja revertida para os próprios integrantes”, afirma um promotor especialista na área. “A quadrilha tem os setores bem divididos: tem a área financeira, a de advogados, a parte de compra de armas, de compra de drogas, de contabilidade. Como uma empresa estruturada”.

“A facção sofreu frentes fortes de investigação: seus líderes foram identificados, formas de atuação e planejamento integralmente mapeadas e os advogados colaboradores presos, processados e condenados, de forma que a retração era especialmente aguardada. A primeira condenação por lavagem de dinheiro da facção veio após os atentados. Antes, não existia registro de processo desta natureza. Enfim, o Estado reagiu. É o que explica o atual silêncio. Eles estão menores do que eram, em razão da contraofensiva do Estado”, acredita o promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro, especialista na facção.

Para o promotor Márcio Sérgio Christino, que obteve em 2010 a primeira condenação do Marcos Herbas Camacho, o Marcola, como chefe da quadrilha, não houve mudanças de poder na organização. “Há uma estrutura com caráter de franquia, pois os líderes vão delegando funções e recebem participação nas vendas. Claro que há muitas bocas de venda de droga que se autodenominam ligadas à facção. Por que se for de uma facção rival, há briga”, diz Christino.

Repressão policial

O comandante da Polícia Militar do estado entende que o investimento em inteligência, tecnologia e a troca de informações entre os órgãos de segurança fez com que a repressão à criminalidade aumentasse desde os ataques de 2006. “O poder deles hoje é mínimo, não vejo uma organização como a daquela época. Realizamos seguidas operações com apreensão de armas e drogas. Os infratores da lei aprenderam que enfrentar a polícia não é um bom negócio”, diz o coronel Alvaro Batista Camilo.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a  Secretaria de Estado de Segurança Pública diz que o estreitamento dos órgãos de inteligência das polícias e em tecnologia possibilitou desde 2006 ações preventivas contra a facção e os indicadores criminais em queda demonstram isso. Já a Secretaria de Administração Penitenciária não respondeu. O advogado de Marcola, Roberto Parentoni, diz que “não reconhcece a existência” da facção e que entrou com recurso contra a condenação por formação de quadrilha.        

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