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"Faltou logística", diz engenheiro sobre trabalhos em escombros de desabamento no Rio

O despreparo nas ações após a tragédia

Atualizado: Quarta-feira, 1 Fevereiro de 2012 as 9:16

O Rio de Janeiro não está preparado para lidar com emergências como o desmoronamento dos três prédios na avenida Treze de Maio, ocorrido há uma semana no centro da capital fluminense. Esta é a avaliação do engenheiro da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Gilberto Menezes Moraes, especializado em estruturas. Ao menos 17 pessoas morreram no acidente e outras cinco ainda estão desaparecidas.

O engenheiro civil afirma que faltou logística na retirada das mais de 40 mil toneladas de escombros que se empilharam numa montanha de entulho de quase 15 metros de altura. Isso pode dificultar o trabalho de perícia. “Não dá para esperar uma resposta suíça ou alemã, mas faltou logística. A cidade não suporta um acontecimento desse porte”, disse ao UOL.

Segundo o especialista, as decisões foram todas tomadas no “calor dos acontecimentos” e faltou uma rede de informação que integrasse os centros de pesquisa e universidades ao Centro de Operações da Prefeitura do Rio, que reúne 30 órgãos de monitoramento da cidade.

“A prefeitura aprendeu que tem que ter uma equipe disponível, um pessoal especializado para ser acionado em casos de emergência. Mas as autoridades são refratárias em pedir ajuda. O Centro de Operações da prefeitura tem que ser usado numa hora dessas e não só para casos de enchente”, argumentou.

Para o engenheiro, que esteve presente em casos emblemáticos como o desabamento de parte do edifício residencial Palace 2, em 1998, e trabalhou como fiscal na recuperação e escoramento do Palace 1 para evitar que o prédio caísse, “a gente não tira nota 10”.

“Já temos algum conhecimento, mas a ação é sempre baseada no heroísmo do bombeiro”, afirmou Moraes ao destacar a necessidade de maior integração entre as autoridades, gestores públicos e profissionais qualificados para serem consultados em situações de emergência, para facilitar as buscas e os trabalhos de perícia.

De acordo com Moraes, apesar de não haver um protocolo internacional para esses tipos de tragédia, “a compreensão dos limites são maiores” em outros países. “Até mesmo em relação ao roubo de objetos dos escombros, lá não haveria esse tipo de problema, como não houve no Japão após o terremoto”, compara.

Na Alemanha, citou como exemplo, as autoridades delimitariam uma área muito maior para restringir a circulação de pessoas e seriam chamados especialistas formando um grupo de trabalho para que pudessem participar dos trabalhos.
A reportagem está tentando contato com a prefeitura para comentar o assunto.

Perícia será prejudicadaSegundo Moraes, o trabalho pericial levará de 4 a 6 meses para ser concluído e desvendar as causas do desabamento. O fato de os escombros serem removidos para outros locais distantes da área da tragédia, como o cais do porto e um terreno da Comlurb na rodovia Washington Luis, vai atrapalhar a atuação da perícia.

O engenheiro defende que deveria ter sido feito antes da remoção um registro (uma espécie de inventário) catalogando a relação do que estava sendo transportado nos caminhões. “Era preciso mover com uma logística pela ordem dos andares, isso facilitaria. Mas em função da pressa para salvar vidas e pela comoção, não foi feita essa separação.”

Para Moraes, teria sido necessário fazer uma primeira triagem no próprio local. “Deveriam utilizar o espaço da avenida Treze de Maio para retirar os escombros e colocá-los ali abrindo espaço para fazer uma triagem inicial. Enquanto isso, outras equipes em paralelo fariam o transporte do material em escala menor e não nos grandes caminhões que foram usados”, analisou.

Dois dias após a tragédia, cerca de 20 caminhões se aglomeravam em torno da Cinelândia para serem carregados de entulho. Na avaliação do engenheiro, toda a área da praça da Cinelândia e a avenida Almirante Barroso, transversal à Treze de Maio, deveriam ter sido utilizadas para fazer a primeira seleção dos escombros, em vez de serem ocupadas por caminhões. Estes, por sua vez, poderiam ser acionados por um sistema de rádios impedindo o trânsito no local.
“Para isso, a prefeitura teria que decretar feriado municipal para reduzir o trânsito e a circulação de pessoas. Tinham que fechar o metrô da Carioca e separado a área por tapumes”, afirma.

O coronel Roberto Sobral Jr., comandante do grupamento de busca e salvamento dos bombeiros, admitiu ao UOL que, se houvesse espaço no centro da cidade para deixar os escombros, facilitaria o trabalho da perícia. “Mas no centro não tinha espaço. Isso dificulta a ação da perícia, mas não tinha como o material ficar onde estava”, discutiu o responsável pelo salvamento.

Luiz Antônio Cosenza, coordenador da Comissão de Análise e Prevenção de Acidentes do Crea-RJ (Conselho Regional de Engenharia) defendeu a ação dos bombeiros e disse que a velocidade para remoção dos escombros era necessária para liberar a área. “Este foi o primeiro desabamento assim que tivemos no centro da cidade. Foi a primeira vez que vimos algo desse nível, fomos pegos de surpresa.”

Sobre o uso de maquinário pesado para a retirada de escombros, Cosenza afirmou que, mesmo havendo a necessidade de um trabalho minucioso, este não poderia ter sido feito à mão o tempo todo. “Não dava para fazer tudo à mão, era muito entulho e concreto. Estamos falando de 34 andares somando os três prédios que caíram. Era muito difícil, o subsolo e as lajes ficaram uma em cima da outra.”
Bombeiros defendem esquema de buscasForam menos de cinco dias para que a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros retirassem os escombros do terreno. As equipes foram questionadas sobre o esquema de buscas, já que umcorpo foi levado por engano para a área destinada aos entulhos.

Segundo o coronel Sobral, o primeiro passo foi buscar por desaparecidos e sobreviventes, e o trabalho foi todo feito à mão pelos bombeiros. “No primeiro momento, a gente fez buscas nos bolsões de ar, aí foi um trabalho manual. Nas três primeiras horas já colocamos os cães farejadores e logo começamos com as máquinas para abrir o espaço”, explicou.

Foram usadas até oito retroescavadeiras. “Operamos com critério e com cautela para a retirada dos escombros. Quando havia a possibilidade de haver uma vítima ou encontrar um corpo, o trabalho era feito à mão. Mas onde a possibilidade de haver alguém era remota, trabalhávamos com as retroescavadeiras”, alega o coronel.

Segundo o responsável por coordenar as buscas, devido à pressão da queda, poucas partes da estrutura ficaram inteiras. “As lajes sofreram uma forte compressão e viraram farelo. Só as lajes dos andares superiores ficaram inteiras.”

Questionado sobre a preservação de material para o trabalho da perícia, o coronel Sobral afirmou que a prioridade foi a busca por sobreviventes. “A perícia prima para manter a integridade do local, mas é um trabalho de etapas, primeiro a busca por sobreviventes, corpos e depois a remoção do material para um espaço”, completou.

Escombros são monitorados por câmeraSegundo comunicado divulgado pelo  governo do Estado, a Polícia Civil, a Prefeitura do Rio e a Procuradoria Geral do Município definiram como será realizado o trabalho de separação e devolução de bens. O local está sendo monitorado por câmeras, bem como vigília da Polícia Militar. Isso porque houve denúncias de desvio de material.

Depois de uma varredura dos materiais, a Polícia Técnica iniciará o trabalho de vistoria e examinará o local para “verificar e obter eventuais objetos de prova para o inquérito sobre o acidente ocorrido”.

Após a atuação da Polícia Técnica, uma empresa contratada pelo município fará a separação entre: documentos e papeis, bens pessoais e materiais (como celulares, computadores) e objetos de valor (cartão de crédito, cheques, dinheiro, joias). Será feito um catálogo dos bens recolhidos num formulário da Polícia Civil, que irá acompanhar o trabalho.

Segundo a nota do governo, representantes credenciados dos proprietários dos objetos também poderão acompanhar o trabalho de separação e catalogação. Todos os bens recolhidos serão diariamente encaminhados à delegacia de polícia, que ficará responsável por identificar os proprietários e fazer a entrega desses bens aos seus respectivos proprietários.

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