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Família aguarda carro para enterrar mulher que morreu na segunda-feira

Família aguarda carro para enterrar mulher que morreu na segunda-feira

Atualizado: Quarta-feira, 31 Agosto de 2011 as 12:16

Karina (ao centro) aguarda com tio e prima liberação

do corpo da mãe (Foto: Juliana Cardilli/G1)

  Enterrar parentes está mais doloroso em São Paulo desde esta terça-feira (30). Com a greve do serviço funerário municipal, os trâmites para a liberação de corpos na cidade têm se arrastado por dezenas de horas, ampliando o sofrimento de quem acabou de perder alguém próximo. No Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), na Zona Oeste da cidade, uma família ainda aguardava na manhã desta quarta-feira (31) o transporte do corpo de uma mulher que morreu na segunda-feira (29).

A mãe da estudante Karina Amorim Silva, de 18 anos, morreu após sofrer um infarto em casa por volta das 15h de segunda. Por volta das 9h desta quarta, 42 horas depois da morte, ela ainda não sabia que horas poderia enterrar a mãe. Ao lado de um tio e de uma prima, aguardava no SVO a chegada de um carro funerário que pudesse levar o corpo – liberado após autópsia desde a manhã de terça – para um cemitério na Zona Norte.   “Chegaram quatro carros funerários hoje, mas eram da Zona Sul. Deram um número do serviço na Zona Norte, mas ninguém atende. O enterro era para ter sido às 9h de hoje, mas o corpo nem saiu daqui ainda”, contou a jovem.

A família teve problemas antes mesmo de a greve começar. Segundo Paulo Sérgio, tio de Karina, o resgate demorou cerca de uma hora para chegar à casa de sua cunhada, e ela já chegou morta ao hospital, por volta de 16h de segunda. O corpo só foi liberado e chegou ao SVO por volta de 4h de terça. Lá, funcionários disseram que os trâmites seriam finalizados até meio-dia. “Mas aí entrou em greve. Ficamos até 18h e nada. Falaram para voltar hoje, mas não tem carro. Aqui o serviço deles diz que já fez tudo, que está liberado. Já até lacraram o caixão”, contou.

Rosângela e o marido passaram a noite no SVO

aguardando chegada de carro (Foto: Juliana

Cardilli/G1)

  Outras famílias chegaram a passar a noite no SVO esperando transporte para o corpo de seus parentes, em vão. A mãe da aposentada Rosângela Borges, de 53 anos, morreu de causas naturais aos 92 anos em casa, às 9h30 de terça. A família fez o boletim de ocorrência e o corpo só foi chegar ao SVO por volta de 21h. “Liberaram o corpo 1h da madrugada, mas o caixão não chegou, nem o carro”, disse a aposentada nesta manhã. “Falaram que tem que esperar, que eles estão em greve. Passamos a madrugada aqui. Temos que levar o corpo para a família se despedir.”

O motorista Alan Carlos, de 34 anos, também passou a madrugada no SVO, acompanhando parentes de uma vizinha que morreu nesta terça no Hospital Paranaguá em decorrência de problemas respiratórios. “O corpo só foi chegar aqui 3h de hoje, alegaram que não tinha carro para trazer. Agora não tem carro para levar para o cemitério. Os parentes estão todos na Vila Alpina esperando”, contou. “Nós tentamos contratar até uma empresa particular para fazer o transporte, mas não deixaram.”

Prefeitura

O transporte de corpos dentro da cidade de São Paulo só pode ser feito por uma empresa contratada pelo Serviço Funerário. Segundo a Secretaria Municipal de Serviços, por causa da greve, 15 carros de funerárias particulares foram contratados para auxiliar no transporte de corpos a partir desta quarta, sem custo para a população.

De acordo com a secretaria, o serviço mais afetado é o de transporte – o atendimento nos cemitérios e os sepultamentos também foram afetados, mas estão sob controle. Nos cemitérios onde a paralisação de coveiros afetou os serviços funcionários terceirizados e de serviços administrativos foram deslocados para auxiliar nos sepultamentos.

Guardas-civis metropolitanos também foram desviados para fazer o transporte dos corpos nos carros do serviço funerário. A Prefeitura não soube informar quantos guardas foram tirados do policiamento para fazer o serviço. Entretanto, um guarda que não quis se identificar questionou a medida enquanto fazia o transporte no Cemitério do Araçá, também na Zona Oeste.

“É um desvio de função. Estamos nos esforçando ao máximo para fazer, pois a população não pode sofrer. Mas não estamos acostumados com o trabalho”, afirmou o guarda.

Guardas-civis dirigem carros do serviço funerário (Foto: Juliana Cardilli/G1)

  O sindicato da categoria não soube dizer quantos servidores aderiram à greve. Eles pedem um aumento salarial de 39,79%. A Prefeitura informou que já deu aumento de mais de 15% no piso salarial de servidores com jornada de 40 horas. Uma nova assembleia dos trabalhadores esta marcada para a manhã de quinta-feira (1º).

Cemitérios

Aguardando o enterro de seu pai no Cemitério do Araçá, o engenheiro Gerson Fontes de Oliveira, de 53 anos, contou ter sofrido nesta segunda para conseguir transportar o corpo. “Meu pai morreu 3h de ontem no hospital, mas só foi chegar aqui 17h30. Eu queria ter enterrado ontem, mas não deu tempo. Ficamos esperando o carro, mas não tinha”, afirmou. Nesta manhã, ele aguardava outro tipo de transporte – o carrinho de mão – para levar o corpo até o túmulo. Quando conversou com a reportagem do G1 , o enterro já estava uma hora atrasado.

Segundo funcionários da administração do cemitério, os enterros estavam sendo marcados normalmente, mas os atrasos estavam mais comuns devido à demora para chegada e saída dos corpos.

No Cemitério São Paulo, também na Zona Oeste, nenhum enterro estava marcado para esta quarta, e nenhum velório era realizado durante a manhã. Um coveiro contou à reportagem que nesta terça realizou apenas dois enterros – em dias normais, ele trabalha em pelo menos cinco sepultamentos.            

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