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Faro de cães da PM multiplica por 20 as apreensões de drogas e armas no Rio

cães da PM é uma arma contra as drogas.

Atualizado: Terça-feira, 26 Fevereiro de 2013 as 7:19

Cães da pomRaphael Gomide

“Pega o marronzinho, pega o marronzinho!”, disse um traficante da favela de Manguinhos a outro, pelo rádio. Marronzinho é o labrador cor chocolate Boss, do BAC (Batalhão de Ações com Cães, da Polícia Militar do Rio), e a ordem pretendia ser uma sentença de morte, felizmente não cumprida. Aos 6 anos, Boss (Chefe, em inglês) é, segundo os PMs, a “Ferrari” ou o “Romário” da unidade que, em 2012 bateu recorde e apreendeu 2,12 toneladas de drogas – em 2011, tinham sido 917 kg, e 105 kg, em 2010. O labrador passou a ser ameaçado depois que os cães encontraram 300kg de drogas em um dia.

O enorme salto nas apreensões (de 20 vezes o volume, entre 2012 e 2010) tem menos a ver com o sempre excelente faro de Boss e colegas caninos do que com a reformulação estrutural da PM que otimizou o BAC e passou a aplicá-lo de modo mais eficiente, a partir de 2010.

Nesse período, a até então Companhia Independente de Cães se tornou batalhão, ganhando autonomia e estrutura, e passou a se focar em operações – não mais em policiamento preventivo, explicou o comandante, tenente-coronel Nogueira, há dez anos na unidade.

Em seguida, o Estado-Maior Operacional incluiu o BAC no COE (Comando de Operações Especiais), para apoiar principalmente ações do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e do Batalhão de Choque em favelas. A unidade participou de todas as ações de pacificação de favelas e hoje quase todos os dias tem missão.

Com as mudanças, as apreensões de drogas e armas se multiplicaram. “Pegamos o BAC falido, no fundo de quintal do 16º Batalhão (Olaria), mal interpretado e mal aplicado. Definimos seu objetivo e cresceu, atuando no segundo momento, de uma varredura. Gera resultado, porque são especializados nisso”, contou o responsável pela alteração, coronel Pinheiro Neto, chefe do Estado-Maior Operacional da PM.

Por duas vezes, a última em agosto de 2012, o BAC venceu o prêmio da Secretaria de Segurança por superar indicador estratégico, na categoria unidades especializadas. “É impressionante: os cães entram no lugar e em um minuto já dão o sinal de que acharam a droga”, elogia o comandante do Choque, tenente-coronel Fábio Souza.

Hoje, tropa e cães ainda estão alojados no 16º Batalhão (Olaria), mas quando a futura sede do COE estiver pronta, provavelmente em 2014, o BAC terá área exclusiva e canil para 160 cães, o dobro do atual efetivo K-9 (pronuncia-se “canine”, canino, em inglês), 79. Serão comprados cães entre um e dois anos de idade, filhos de campeões de criadores reconhecidos na Europa, ao custo de cerca de 3 mil euros, cada. Na primeira leva, serão adquiridos 12 fêmeas e oito machos, que devem triplicar o número até a Copa do Mundo do Brasil, ano que vem.

Nem só de drogas e armas, munições e explosivos vive o BAC, embora essa venha sendo a principal missão. Os cães e PMs operam ainda em ações de intervenção tática e resgate de reféns (com o Bope), controle de distúrbios (com o Choque), busca e salvamento de pessoas perdidas e soterrados em áreas colapsadas.

Cada raça tem uma especialidade, embora quando se trata de cães, cada indivíduo tenha suas características próprias, explica o major Vitor Valle, subcomandante e na unidade há dez anos, desde tenente.

Em geral, os 79 cães são distribuídos da seguinte forma: Faro (armas, drogas, munição e explosivos) e Captura: labradores, pastores malinois e holandês; Controle de distúrbios: pastor alemão e rottweiller; Intervenção tática: pastor malinois; Busca de pessoas perdidas ou soterradas em áreas colapsadas: malinois e holandês.

O cão policial ideal tem as características que fariam um bom policial: é sociável, persistente, corajoso, tem agressividade controlada e ausência de fobias (ruído, altura, água). Na média, o pastor belga malinois é o mais adaptável, resistente, com faro excelente, ótima capacidade de mordida e neutralização e dificilmente tem alguma “tara” (defeito). Diante da droga, os cães se agitam, balançam a cauda e se sentam – a chamada “sinalização passiva” – à espera da recompensa: uma bola de tênis, um pano ou um carinho, além do elogio. Por vezes, arranha o local, na sinalização ativa, que o BAC está abandonando.

Faro encontra droga a 7 metros de profundidade e em gruta

Além de ameaças – desde a fundação, em 1955, porém, nenhum cão foi morto ou ferido em combate –, os traficantes respondem a tanta eficiência com criatividade ao esconder as drogas.

Antes, achávamos muito no primeiro piso, dentro de paredes que quebramos, fundos falsos, no chão, dentro de botijão de gás. Aí passaram a enterrar em tonéis de plástico, mas os cães encontravam do mesmo jeito. Uma vez apreendemos drogas a 7 metros abaixo da terra, na Rocinha! A moda agora é esconder no 2º e 3º andares. Só dá mais trabalho para subirmos...”, ri o major Vitor, 34 anos.

A apreensão mais emblemática se deveu à teimosia dos cães, que insistiam em seguir para a mata, quando os PMs pretendiam vasculhar a área urbana de uma favela, em 2012. Após 15 minutos de caminhada aparentemente infrutífera, em terreno difícil, os cães entraram em uma gruta. “Chefe, chega aqui!”, chamou-o o primeiro soldado a entrar. Eram montes de placas de 35 kg cada com drogas, no total de cerca de 300kg.

Cães atletas

Os cães são as estrelas do batalhão e tratados como tais. Têm preparação física e acompanhamento médico. Preparam-se com exercícios aeróbicos, de resistência, natação, tração, trabalho funcional. Um dia treinam, no outro estão operacionais e no terceiro de folga, quando têm o dia livre para brincar.

O subcomandante refuta o mito de que os cachorros são viciados para se tornarem eficientes. “Isso é lenda! Como conseguiria então farejar um cadáver, sangue explosivos, uma pessoa perdida? Seria viciado em tudo isso também? Faro é 100% memorização, e nós recompensamos o cão quando ele acha algo, seja com um pano, bola de tênis ou carinho. Ele não sente estar trabalhando, mas brincando. Essa parte psicológica é importante, manter o espírito lúdico, feliz, alegre”, explica Vitor.

A clínica veterinária tem centro cirúrgico, farmácia e seis oficiais veterinários, comandados pelo capitão Luis Renato Veríssimo, além de enfermeiros e auxiliares veterinários – todos os PMs também são socorristas. Há atendimento ambulatorial, procedimentos cirurgias, prevenção a infecções, verminoses e parasitas.

Há ainda uma parte de reprodução, com banco genético. Segundo o capitão Veríssimo, os problemas mais comuns dos cães são intermação, por calor, e escoriações e cortes, pela atuação em áreas irregulares, com pedras, vidros, vergalhões e esgoto. Durante as operações, quando uma ambulância veterinária é levada, os condutores levam água em vasilhas portáteis de nylon para seus companheiros. Na volta, os caninos são avaliados e tomam banho caprichado.

Quando o cão chega aos 8 anos, é doado, castrado. Na maioria das vezes, fica com algum PM da unidade. O comandante Nogueira, porém, que sempre adorou cachorros e criava dobermanns e huskies siberianos, ri ao revelar que hoje tem em casa um cão nada policial: um pequeno yorkshire, comprado por sua mulher.

Curso e falta de gratificação

?Para o curso de formação de cinco semanas do BAC, que começaria esta segunda-feira (25), houve 105 inscritos. Passaram 44 nos exames preparatórios, mas só há 30 vagas – hoje são 141 na unidade. O treinamento habilita PMs a conduzir cães para emprego policial – para integrar o BAC, é preciso ter este ou o curso avançado, de 16 semanas, de adestramento.

A aprovação varia de 40% a 60% dos inscritos, que passam a ter “orgulho de ser cachorreiro”, como diz inscrição no muro da unidade. Os alunos aprendem psicologia animal, doutrina de avanço sob fogo (com cão), a dar tiros, escalar e fazer travessias aquáticas, sempre acompanhados do cão.

O BAC ministrou quatro edições do curso de faro da Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública) para polícias de todo o Brasil e recebe visitantes de países da América Latina e Europa. “Os policiais franceses ficam impressionados com a quantidade de drogas que apreendemos, porque lá as apreensões são de pequenas quantidade”, disse o major Vitor.

Apesar da excelência de resultados e de integrar o COE, os policiais do BAC são os únicos da elite da PM que ainda não recebem a gratificação de unidade especial, como o Bope, Choque, GAM e outras. Na sexta-feira, o assunto estava sendo tratado pelo chefe do Estado-Maior Operacional da PM, coronel Pinheiro Neto, que pede ao governo orçamento para acrescentar R$ 1 mil aos vencimentos dos 141 PMs da unidade.


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