Haitianos sonham virar jogadores de futebol em SP

Haitianos sonham virar jogadores de futebol em SP

Fonte: Atualizado: sábado, 31 de maio de 2014 09:55

Primos Peterson Fleurisca (esq.) e Gabriel Nenio (dir.) sonham em virar jogadores de futebol em São Paulo (Foto: Luciana Rossetto/G1)   Ao contrário da maioria dos locais em Tabatinga (AM), onde homens adultos chegam a chorar de fome e entram em desespero quando o assunto é dinheiro ou abrigo, o porto é um lugar alegre. A cidade, localizada na fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia, registrou a entrada de 769 haitianos desde o ano passado, de acordo com a Polícia Federal. Cerca de 300 permanecem em Tabatinga, mas desejam sair da cidade em busca de oportunidade em Manaus.

Três horas antes da partida do barco Manoel Monteiro, que desce o Rio Solimões e Amazonas até Manaus, os primos Gabriel Nenio e Peterson Fleurisca já aguardavam ansiosos no Porto de Tabatinga (AM). Eles não pretendem ficar em Manaus, querem arrumar um jeito de chegar a São Paulo. Nenio acha que lá terão a oportunidade de realizar um sonho: virar jogadores de futebol.

“Eu não sou tão bom, mas Peterson joga bem. Temos que tentar para saber, mas acho que pode dar certo. Eu adoro futebol e acho que Kaká é o melhor jogador do mundo”, diz Nenio, que tem 30 anos e deixou cinco filhos no Haiti.

Modesto, Fleurisca garante que não joga tão bem assim e enumera outros motivos para escolher São Paulo. “Podemos ter escola para aprender português e trabalho. Estamos preocupados primeiro em ter sustento, depois, vamos ver”, afirma o rapaz, que também tem 30 anos e um filho no Haiti.

saiba mais 'Tabatinga é como o limbo para os haitianos', diz padre Suspensão do pedido de visto surpreende haitianos em Tabatinga Filho que vai nascer motiva viagem de fotógrafo haitiano ao Brasil A passagem mais barata de Tabatinga a Manaus custa R$ 170. Nessa categoria, os passageiros ficam acomodados em redes durante os quatro dias de trajeto. Para pagar o ticket, os primos recorreram à família. “Venderam algumas coisas que ainda tínhamos para nos mandar o dinheiro. Se ficássemos aqui esperando, não sairíamos nunca”, afirma Nenio.

Apesar de ainda não terem conseguido nenhum trabalho, os primos já planejam as próximas férias. “Vamos ao Haiti. Queremos agradecer os parentes que emprestaram dinheiro para virmos e rever também a nossa terra”, diz.

Irmãos vão trabalhar em fábrica de tijolos em Manaus (Foto: Luciana Rossetto/G1)   Fábrica de Tijolos

Os irmãos Anélus Philenaud, de 33 anos, e Vilma Serrat, de 45, não escondiam a felicidade de deixar Tabatinga com um emprego em vista. Sem nada fixo em Tabatinga, eles fazia ocasionalmente serviço de carregador no porto da cidade.

“Vamos para vagas em uma fábrica de tijolos. É um alívio depois de três meses sem fazer nada aqui”, afirma Philenaud, que também estava desempregado no Haiti.

Através do padre Gonzalo Franco, que entrou em contato com outro padre em Manaus, os irmãos se candidataram para a vaga e foram selecionados. Sem dinheiro para a passagem, eles apelaram aos parentes no Haiti, que pediram um empréstimo para enviar o valor.

O professor de inglês Daniel Gustave diz que é

"quase brasileiro" (Foto: Luciana Rossetto/G1)   “Quase brasileiro”

Os passageiros dos barcos que partem de Tabatinga são obrigados a passar por um check in, realizado pela Polícia Federal, Polícia Militar do Amazonas e Força Nacional de Segurança. Na fila, o professor de inglês Daniel Gustave, de 32 anos, era um dos mais agitados.

“Não tenho lugar para ficar na capital, mas isso a gente resolve quando chegar lá. Eu não tenho medo, porque sou quase brasileiro agora. Só preciso melhorar o português. Se eu fico calado, ninguém sabe de onde sou”, diz.

Gustave conta que gostaria de dar aulas de inglês, mas sabe que não tem condições de escolher trabalho. “Aqui temos uma vida nova. Não sei se um dia poderei voltar a ter minha profissão, mas estou feliz apenas por estar no Brasil”, diz.

Desconto

Com tanto imigrante haitiano querendo sair da cidade nos barcos, os vendedores de passagens dizem que a palavra em português mais comum no porto é "desconto". Quando o grupo é grande, a vendedora Rosimeury Cindi, de 26 anos, aprova o negócio.

“Eles choram mesmo para abaixarmos o preço. Já chegam pedindo desconto, sempre procuram uma promoção”, diz Rosimeury. “Quando não conseguem, ficam tristes. Mas nunca vi nenhum nervoso por causa disso.”

Cães farejadores fiscalizam bagagem de passageiros antes do embarque em Tabatinga (Foto: Luciana Rossetto/G1)     Luciana Rossetto Do G1, em Tabatinga (AM)

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