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História se repete para família desabrigada por enchente de 2001

História se repete para família desabrigada por enchente de 2001

Atualizado: Segunda-feira, 17 Janeiro de 2011 as 1:30

A trágica véspera de Natal de 2001, quando 15 pessoas morreram em um deslizamento de terra no Morro do Perpétuo, voltou a fazer parte da vida de uma família em Teresópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, na noite de terça-feira (11). A chuva que vitimou centenas de pessoas fez com que a morte de Delma Cristina Motta e a filha Roberta Motta de Lima, ocorridas entre os dias 21 e 24 de dezembro daquele ano, voltasse a atormentar a vida dos familiares que sobreviveram àquela tragédia.

Na quarta-feira (12), a família voltou a ser vítima da chuva, mas desta vez com menos gravidade, mas ainda assim o suficiente para reviver fantasmas do passado. A casa onde moravam desde 2002, no Bairro do Calembe, em Teresópolis, foi interditada pela Defesa Civil, por questões de segurança, mas não foi atingida por deslizamentos.

Vítimas relembram tragédia

O estudante Gustavo Motta Eshternacht, 18 anos, perdeu a mãe e a irmã em 2001. Elas foram soterradas em casa, quando ajudavam crianças que tinham se refugiado na casa da família, que até aquele momento era considerada um ponto seguro pela Defesa Civil. “Lembro de tudo como se fosse agora. Lembro de correr para tentar escapar da terra. Hoje, não posso ver chuva que já fico desesperado. Foi o que aconteceu agora, nesta terça-feira.”

O pai dele, Fernando Ferro Eshternacht, 52 anos, viúvo de Delma, ainda está muito abalado com a perda da mulher e da filha. Incomodado com a sensação semelhante da que viveu quando perdeu parte de sua família, hoje, ele evitar comentar as consequências da tragédia familiar.

O tio de Gustavo, Rone Motta, 36 anos, relembrou os momentos que antecederam o soterramento que desencadeou a morte da irmã e da sobrinha. “Estava chovendo havia muitas horas. Então, as pessoas desalojadas foram descendo e se refugiando na casa de minha mãe. Na época, a Defesa Civil, os bombeiros e as autoridades consideraram que era uma casa fora de perigo.”   Segundo Rone, na época, até acharam que poderia estar havendo um culto religioso ou uma festa de aniversário na casa da mãe dele, “mas o que aconteceu foi que minha irmã, minha sobrinha e meu cunhado estavam ajudando as pessoas, as crianças a ficarem calmas. Minha sobrinha, por exemplo, morreu vestindo as crianças desalojadas com as roupas de Gustavo. Minha irmã estava dando leite com chocolate para outras crianças.”

Rone explicou que minutos antes do deslizamento maior já tinha ocorrido outro deslizamento. “Nesse momento, 25 pessoas estavam na casa. Algumas conseguiram sair antes da casa ser atingida. Na casa morreram nove pessoas. Da minha família foram duas, minha irmã e minha sobrinha. O Gustavo estava lá e sobreviveu, conseguindo correr.”

Sofrimento mútuo

Para ele, o sofrimento surge em primeiro lugar em uma situação com essa, ocorrida nesta semana, em Teresópolis. “A gente sofre a dor dos outros, porque já vivenciou isso na nossa família. Quando ocorre uma coisa como dessa, em Angra e em Niterói, por exemplo, a gente vê as cenas, as fotografias das pessoas sofrendo, perdendo entes queridos e sendo soterradas, a gente sofre muito. Nossa família sofreu essa dor muito profunda. É uma dor e uma impotência muito grande”, afirmou Rone.

Revivendo fantasmas do passado

“Mudamos para o Bairro Caleme depois do ocorrido em 2001. Agora, a Defesa Civil interditou nossa nova casa por conta do risco de ocorrer uma nova tromba d’água e derrubar tudo. Corríamos perigo. Conseguimos voltar neste sábado (15) para pegar algumas roupas”, disse Maria Helena da Rocha Silva, 63 anos, avó de Gustavo.

“O psicológico da gente fica abalado com a chuva. Não ficamos bem. Posso estar em um apartamento e, se chover, eu já fico preocupado. Não durmo durante a noite por uma preocupação de que alguma coisa ruim possa acontecer”, afirmou Rone.

Dessa vez, no bairro do Caleme, não houve um deslizamento que tivesse afetado a casa da família. “Os geólogos, engenheiros civis e ambientais e integrantes da Defesa Civil nos garantiram que não há risco de deslizamento, mas recomendaram que saíssemos da casa por segurança, porque ficamos sem água, luz e telefone. Para a gente que precisa tocar nossa, trabalhar, ficar lá é ruim. Há o receio, o medo de que realmente possa acontecer de novo o que aconteceu em 2001”, disse Rone.

Reconstrução

“Saímos com a roupa do corpo, sem nada mais. Foi com muita luta que conseguimos reconstruir nossas casas e a família. Estamos conseguindo recuperar alguma coisa agora, mas foi muito difícil. Eu e as crianças passamos por tratamento psicólogo. Sempre lembro dela (filha Delma) na hora que ela chegava do trabalho. Ela passava na janela de casa e dizia: Maricota, que era como ela me chamava, e dizia que tinha chegado. Ela sempre perguntava se tinha café”, disse dona Maria Helena.

Ela teme que a tragédia de 2001 volte a atingir a família. “A gente só fica com aquele receio e pensa, poxa, de novo? Mas é a natureza e por isso temos de colocar a cabeça no lugar e a vida tem de continuar. Tem gente em situação pior. Temos certeza de que ainda há corpos de pessoas conhecidas na região afetada e por onde passamos até chegar a nossa casa, no (Bairro) Caleme.”

Neste ano

Quando começou a chuva, por volta das 22h de terça-feira, a família de dona Maria Helena saiu e se juntou na casa dela. “Por volta das 3h30 da manhã, vimos o maior deslizamento. Estava tudo escuro. Quando amanheceu o dia e olhamos a dimensão dos estragos no bairro, aquele povo correndo, pudemos ter a noção que a coisa foi de uma gravidade sem tamanho”, disse Rone.

Ele lembrou que ajuda em igreja católica, que fica na beira de um rio, no Bairro Caleme, e encontrou pessoas chorando, desesperadas em busca de parentes desaparecidos. “Os carros estavam retorcidos, ruas viraram rio, o rio mudou de curso, as casas foram destruídas e os corpos já estavam na rua. Quando cheguei a porta da igreja, havia um amontoado de lixo na porta. Quando pulei o muro, vi um corpo da varanda da igreja.”

Rone disse ter lembrado de imediato da irmã e da sobrinha. “Eu estava ali, mas era difícil de conter a emoção, o coração disparava e parecia que vinha na boca. Aquele sentimento de dor de perda voltando à tona, a visão das pessoas correndo é muito marcante. Eu prefiro evitar esse contato direto imediato com as pessoas vitimadas por causa dessa dor. Tenho dificuldade de me voluntariar a ajudar, mas se alguém pedir, não deixo de ajudar.”      

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