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Homicídio é o que mais leva policiais militares à prisão em SP

Homicídio é o que mais leva policiais militares à prisão em SP

Atualizado: Segunda-feira, 2 Agosto de 2010 as 9:32

Ex-policial militar, Otávio Lourenço Gambra se tornou um símbolo da violência policial. Hoje, ele, que é conhecido como Rambo, diz que mudou. Há 13 anos, ficou nacionalmente conhecido por de imagens que registraram a agressividade da polícia na Favela Naval, em Diadema, no ABC O então soldado Rambo atira e mata o conferente Mário José Josino. Ele conta que se arrepende do crime. “Claro. Foi uma fatalidade e, geralmente, quando o policial militar erra, é uma vida que se vai, infelizmente.”

Nos últimos dias, a violência e a corrupção envolvendo policiais militares viraram notícia mais uma vez. No dia 25, em Fortaleza, Bruce, de 14 anos, foi morto com um tiro na cabeça, quando estava na garupa da moto com o pai. “Eu imaginava que fosse um assalto. Uma pessoa gritando atrás: para, para, para. Não imaginei que seria comigo. Foi desastrosa a ação do policial”, afirma Francisco das Chagas, pai do garoto.

Mas o que acontece com os policiais que se envolvem em casos assim? Na sexta feira (30), a equipe do Fantástico entrou no principal presídio para policiais militares do estado de São Paulo: o Romão Gomes, na Zona Norte da capital.

Rotina militar

Lá, os presos têm uma rotina militar: Levantar e dormir cedo, fazer faxina, respeitar horários. Os 210 policiais militares que estão na unidade trocaram a farda pelo crime. Quase cem deles são suspeitos de assassinato: mataram em serviço ou em brigas, na hora de folga. Além do homicidio, o que mais traz os policiais para cadeia é o crime de roubo.

É ordem no presídio: quem pode voltar para o crime fica isolado dos outros presos. Com 15 anos de profissão, um PM admite que assaltou um posto de gasolina. Ele contou se arrepender de ter entrado para a polícia. “É uma fábrica de louco, entendeu?”

No presídio, estão muitos policiais que se envolveram em casos de grande repercussão, como o assassinato de um deficiente mental, em 2008. Na sexta-feira, quatro réus foram condenados a mais de 18 anos de prisão pelo crime. “Eu posso ficar aqui 18 anos. No último dia, vou sair, olhar para trás e vou falar: aqui ficou um inocente”, afirmou um dos condenados.

No Romão Gomes, 90% dos presos trabalham - o que permite reduzir o tempo que deveriam ficar na cadeia - uma regra que vale também para os criminosos comuns. Em fevereiro de 2004, o dentista Flávio Sant'Ana, de 28 anos, foi morto por PMs que simularam um tiroteio, para parecer que ele tinha reagido à prisão. Dois policiais foram condenados a mais de 17 anos.

Um deles é o ex-tenente Carlos Alberto de Souza Santos. Segundo a Justiça Militar, ele trabalhou na cadeia e reduziu o tempo de prisão: ficou de 2004 a 2006 em regime fechado e foi para o semiaberto. Só voltava à noite para o presídio. De 2008 até hoje, cumpre a pena na chamada prisão albergue domiciliar.

Ele pode ser considerado um homem livre: tem apenas a obrigação de uma vez por mês ir ao fórum dizer quais são suas atividades. O ex-tenente, que não quis gravar entrevista, trabalha atualmente como advogado. A família de Sant'Ana também foi procurada. “Parece que não tem lei. A vida não tem mais valor, porque tiram e não acontece nada”, disse Jonas Sant´Ana.

Outra profissão

Também trabalha como advogado o ex-cabo Flávio Carneiro, da PM do Rio. Em março de 1995, ele executou um assaltante, que já estava dominado. Tudo foi filmado. Condenado a 20 anos de prisão, ficou cinco na cadeia.

O ex-soldado Otávio Gambra, o Rambo da Favela Naval, disse que trabalha hoje na empresa de prestação de serviços da mulher dele. Condenado inicialmente a 59 anos de prisão, ficou sete em regime fechado, segundo a Justiça Militar. De 2006 pra cá, só precisa se apresentar mensalmente no fórum.

“A execução da pena na Justiça Militar, acaba sendo mais rápida pela quantidade de processos, pelo fato de ser uma justiça especializada, com menos trabalho, acaba sendo mais rápida”, disse João Carlos Campanini, advogado especialista em direito penal militar.

Impunidade

No Rio de janeiro, um caso chama a atenção por causa da impunidade. Em outubro de 1998, uma mulher grávida e o filho dela, de 4 anos, foram fuzilados quando a família ia para a maternidade. Em 2004, o ex-sargento Joel Evaristo da Silva foi condenado a 14 anos, mas ele nunca foi preso e é um foragido da Justiça.

No Rio, há 38 mil PMs na ativa. Em São Paulo, 90 mil. Nos últimos três anos, 540 foram expulsos no Rio e 699 no estado paulista.

Um dos policiais presos no Romão Gomes tinha cometido um assalto. Foi expulso da corporação e nas ruas voltou a roubar e vendeu armas ilegais para ganhar “um dinheirinho”. Preso de novo, cumpriu pena em uma cadeia comum e agora trabalha como motorista.

Religião

Na tentativa de se recuperar, muitos policiais militares procuram ajuda na religião. Luiz Wilson Pereira ficou 14 anos preso por um triplo homicídio e se tornou pastor evangélico. Ele vai uma vez por mês ao presídio Romão Gomes.

O ex-soldado Rambo chegou a dar palestras para novos policiais, reconhecendo os erros do passado. “Era uma frase que eu usava que era assim: é melhor voces engolirem um sapo na rua do que engolir um brejo inteirinho todos os dias no Romão Gomes”, disse ele.

Depois das denúncias de que policiais cobraram propina do pai do rapaz que atropelou o filho da atriz Cissa Guimarães, vem do Rio de Janeiro bons exemplos de policiais militares. Um homem foi algemado em Petrópolis, na região serrana, após tentar subornar o PM com R$ 50. O motoqueiro levava crack, maconha e cocaína.

Na quarta feira (28), dois policiais recusaram R$ 70 para liberar um carro sem documentação. O motorista que ofereceu a propina foi detido. “Eu peço que a sociedade não fique desacreditada com a instituição. Nós estamos tentando no máximo suprimir todas as dificuldades em prol da própria sociedade”, disse o cabo Roberto de Almeida.

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