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Juiz condena réu acusado de obrigar jovens a pular de trem na Grande SP

Juiz condena réu acusado de obrigar jovens a pular de trem na Grande SP

Atualizado: Sábado, 21 Maio de 2011 as 6:44

O juiz Alberto Alonso Muñoz condenou na noite desta sexta-feira (20) Juliano Aparecido de Freitas, o Dumbão, a 24 anos e 6 meses de prisão por obrigar dois jovens a pular de um trem em movimento há oito anos na cidade de Mogi das Cruzes, Grande São Paulo. Cleiton da Silva Leite, então com 20 anos, morreu. O amigo que estava com ele, Flavio Augusto do Nascimento Cordeiro, que tinha 16 anos na época dos fatos, perdeu um braço em função da queda.

Apesar da condenação, ele poderá recorrer da sentença em liberdade em razão de um habeas corpus obtido no Supremo Tribunal Federal (STF). O advogado de defesa, Adriano Moyses Kawasaki, disse que irá recorrer.

Além de Dumbão, outros dois réus que ainda não foram a julgamento respondem por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima) e tentativa de homicídio. Para o Ministério Público, Dumbão e os outros dois acusados – Vinícius Parizatto, o Capeta, e Danilo Gimenez Ramos – são skinheads, grupo que costuma ser conhecido por pregar a discriminação contra negros, homossexuais, judeus e nordestinos. Na noite do crime, em 7 de dezembro de 2003, as vítimas Cordeiro e Leite usavam camisetas com nomes de bandas punk.

O julgamento, iniciado por volta de 13h, ocorreu no Fórum de Mogi das Cruzes. O juiz Alberto Muñoz pronunciou a sentença, após a votação do júri, às 21h35

Inocente

Ao ser interrogado, à tarde, o réu negou ter cometido o crime. “Compareci aqui com o coração aberto, sem culpa alguma”, disse ele aos sete jurados. No processo, os outros dois réus também negaram ter jogado Leite e Cordeiro do vagão do trem em movimento. O caso ocorreu em uma composição da linha E da CPTM, próximo à Estação Brás Cubas.

O processo contra os três réus foi desmembrado e cada um responde aos crimes em separado. Segundo o TJ-SP, a estimativa é que Parizatto seja julgado em 15 de maio de 2012. A data do júri de Ramos ainda não foi marcada. A defesa de ambos recorre da decisão da Justiça.

Na época do caso, os agressores foram identificados após serem reconhecidos por testemunhas. As imagens deles foram gravadas pelas câmeras de segurança da CPTM e divulgadas. O momento do salto e a queda das vítimas também foram filmados pelo sistema interno da rodovia. As cenas mostram o desespero das vítimas obrigadas a pular.

Sentença

Ao ler a sentença, o juiz condenou Dumbão a 16 anos e quatro meses de prisão pela morte de Leite. E reduziu essa pena à metade, somando oito anos e dois meses de reclusão, pela tentativa de matar Cordeiro.

Na saída do Fórum, Flavio Cordeiro, que perdeu o braço no acidente, disse não ter achado justa a sentença. “Foi uma pena baixa. Com certeza eu sairia mais satisfeito se ele tivesse saído algemado. Mas é um passo dado. Estou consciente de que vamos sair vitoriosos.” Ao longo dos quase oito anos do crime, a vítima contou que nunca conversou com o réu. Questionado sobre o que falaria a ele, demorou a responder: “eu diria: ‘seja homem e fale o que você fez. Seja digo e diga a verdade’”.

Para ele, foi “complicado” estar no julgamento. “É complicado ter que relembrar tudo, passar pelas perguntas do advogado (de Dumbão). Eu sei o que aconteceu comigo”, disse ele, que apesar de discordar da decisão do juiz, afirmou estar “aliviado”.

  Questionamentos

A mãe de Cleiton da Silva Leite também não gostou de saber que o rapaz acusado de matar seu filho está livre. “Assassino tem que ir para a cadeia. Volto (para casa) um pouco chateada. A pergunta que eu tenho a fazer para ele é: ‘qual a razão de destruir a vida do meu filho? Ele tem pai? Tem mãe?’”, questionou a dona de casa Olivina Rosa da Silva Leite, 66. Ela estava acompanhada do marido, Aurino da Silva Leite.

Emocionada desde que o julgamento começou, Olivina precisou deixar o Fórum à tarde para descansar na casa de uma amiga. Também tomou remédio para a pressão alta e voltou à noite a fim de acompanhar o fim da sessão, à qual ela e o marido não tiveram acesso por determinação do juiz.

Dever cumprido

O promotor Marcelo Oliveira disse deixar o Fórum “com a sensação de dever cumprido”, mas não deixou de criticar a decisão do magistrado de permitir que o réu aguarde o julgamento do recurso no STF em liberdade. “Não consigo compreender uma decisão dessa. Esse sujeito jamais poderia responder em liberdade.”

Já o advogado Adriano Moyses Kawasaki saiu em defesa de seu cliente. “Responder em liberdade é um direito.” Ele disse não se sentir derrotado pelo fato de Dumbão ter sido sentenciado em 24 anos e seis meses de prisão. “Vou recorrer porque a pena foi um pouco exagerada.” O réu deixou o prédio pelos fundos e não falou com a imprensa.

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