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Lata de DVDs com seis filmes traz o melhor e o pior de Elvis Presley

Lata de DVDs com seis filmes traz o melhor e o pior de Elvis Presley

Atualizado: Segunda-feira, 2 Agosto de 2010 as 3:27

A Paramount está lançando uma lata de DVDs com seis filmes de Elvis Presley para comemorar os 75 anos de nascimento do cantor. Os DVDs são simples, sem extras, e a caixa vem com cinco fotos de Elvis. O pacote não traz o suprassumo da carreira do Rei do Rock no cinema, mas inclui seu melhor filme, “Balada Sangrenta” (“King Creole”, 1958, leia resenha aqui), e o de maior bilheteria, “Feitiço Havaiano” (“Blue Hawaii”, 1961, leia resenha aqui).

Elvis, que morreu em 1977, fez 31 filmes como ator entre 1956 e 1969. Nenhum chega a ser de primeira qualidade, mas alguns são bem agradáveis de ver. Além disso, foi no cinema que Elvis ganhou os melhores registros musicais de seu período de auge: as aparições na TV nem se comparam em qualidade técnica.

As duas fases da carreira cinematográfica do cantor são bem marcadas. Na primeira, que coincide com o apogeu da elvismania e com a invasão do rock’n’roll nas paradas de sucesso, os filmes ainda ecoavam a imagem de rebeldia do ídolo. Nas telas ele também era um problema social, mesmo que, em geral, meio involuntariamente. Fazia sempre um rapaz do sul dos Estados Unidos pobre (como havia sido de fato) e cercado de malfeitores. Os filmes tendiam ao dramático, com Elvis se esforçando para interpretar, e os estúdios convocavam nomes importantes para assinar roteiro e direção. “Balada Sangrenta” é desse período.

“Feitiço Havaiano” inaugura e resume bem a segunda fase, iniciada com a volta de Elvis depois de dois anos no Exército. Começava o longo período em que ele encaretou, engordou e literalmente perdeu o rebolado, até se tornar aquele cantor balofo dos cassinos de Las Vegas.

Com “Feitiço Havaiano” os filmes de Elvis passam a integrar um novo gênero conhecido como... filmes de Elvis. São comédias em que a imagem de rebelde ficou para trás, dando lugar à de playboy. Elas seguiam uma fórmula típica de matinê, embora nos Estados Unidos recebessem classificação etária restrita, graças a alguma voltagem erótica (afinal, estamos falando de Elvis, the Pelvis).

Boa parte deles se ambientava em cidades de praia, o que permitia o uso máximo do magnífico azul do Technicolor e a presença de farta quantidade de garotas de maiôs e biquínis, além do próprio cantor de calção, exibindo sua boa forma.

Elvis adorava o Havaí e os filmes eram bom pretexto para uma temporada no arquipélago. Metade dos seis filmes lançados agora é “produto havaiano”: além do título já citado, também “No Paraíso do Havaí” (“Paradise Hawaiian Style”, 1966) e “Garotas! Garotas! Garotas!” (Girls! Girls! Girls!, 1962).

Os “filmes de Elvis” sempre tinham uma criança engraçadinha, pelo menos duas garotas disputando o coração do galã, ele tentando emplacar alguma carreira profissional além de cantar, uma troca de socos com o vilão perto do fim e uma salada étnica que se reflete diretamente no repertório musical. A quantidade de canções tendeu a aumentar a cada filme, na razão inversa da qualidade – as baladas saturadas de violinos passaram a predominar sobre os rocks e a voz do Rei perdia um pouco da qualidade.

As trilhas saíam em álbuns que foram se tornando coleções de faixas insossas com apenas uma ou duas melhorzinhas para puxar as vendas. Conta-se que Elvis se aborreceu progressivamente com isso, mas continuou aceitando as imposições de seu lendário e matreiro empresário, o “coronel” Tom Parker, identificado como “consultor técnico” nas fichas técnicas de todos os filmes (outra presença indefectível é do grupo que acompanhava Elvis, The Jordanaires, embora muitos outros músicos apareçam sem crédito nos filmes).

Por um ou outro motivo, todos os filmes do pacote merecem pelo menos uma olhadinha. “Garotas! Garotas! Garotas!” tem entre as músicas um dos grandes standards de Elvis, “Return to sender”. A história é bem chata, se é que se pode chamar de história as atribulações profissionais do galã como pescador de atum, enquanto namora uma morena rica e boazinha (Laurel Goodwin) e uma cantora loira desequilibrada (Stella Stevens). Há um número coreograficamente engraçado, o tango “The walls have ears”.

Em “Seresteiro de Acapulco” (“Fun in Acapulco”, 1963) uma das melhores atrações é a opulenta teuto-suíça Ursula Andress – sim, a primeira Bond Girl, da famosa cena do biquíni branco em “Dr. No”—fazendo a loira. A morena é uma toureira vivida pela mexicana Elsa Cárdenas. A graça adicional fica por conta dos sotaques carregados das duas atrizes. Elvis faz um salva-vidas e ex-artista do trapézio com trauma de altura. Todas as suas cenas foram filmadas nos Estados Unidos, e a falsidade fica bem evidente. Como o ambiente é latino, as músicas incorporam mariachis, clarins, rumba, mambo, chachacha e chegam até o Brasil com o melhor número do filme, “Bossa Nova Baby”, que, apesar do título, é um rock.

Pouco se salva em “No Paraíso do Havaí”, que tem a criança mais chata do pacote, a pequena cantora Donna Butterworth. As melhores músicas são “Scratch my back” e “Stay where you are”. Dessa vez houve um grande investimento em números e coreografias nativas. Nos créditos há agradecimentos a um certo Centro Cultural Polinésio. Elvis faz um piloto de helicóptero, pretexto para várias e tediosas tomadas aéreas.

Em geral “Meu Tesouro É Você” (“Easy Come, Easy Go”, 1967) é considerado um dos piores filmes de Elvis, senão o pior. Mas, dado o absurdo, revela-se um dos mais divertidos da lata. E é o que tem garotas mais bonitas. O cantor, já com a cara arredondada, vive um ex-homem-rã da Marinha à caça de um tesouro, ao mesmo tempo que canta num nightclub.

Na época do filme, toda uma geração de artistas do rock, Beatles à frente, tinha varrido o Rei de seu trono absoluto, e o filme tenta satirizar a nova onda, os orientalismos, as vanguardas artísticas, os protestos hippies, o visual psicodélico, o triunfo dos excêntricos etc. O auge é um número musical hilariante chamado “Yoga is what yoga does”. Entre as demais bizarrices estão um artista plástico que desmonta um carro para transformar em móbile, outro que pinta painéis com o corpo de garotas de biquíni (tal qual Yves Klein) e outro ainda que joga um caldeirão de espaguete sobre um casal de namorados. Figurinos multicoloridos e fotografia berrante completam o cardápio.

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