"Legalizar a maconha inspira a liberação de outras drogas", diz Klein

"Legalizar a maconha inspira a liberação de outras drogas", diz Klein

Atualizado: Sexta-feira, 21 Janeiro de 2011 as 1:58

Uma proposta que consiste na descriminalização da posse da maconha para uso pessoal está sendo defendida por sociólogos e outros intelectuais, como uma solução para reduzir os danos que as drogas têm trazido à sociedade. A sugestão será levada para a próxima reunião da Organização das Nações Unidas, realizada em Viena (Áustria), em março, com o objetivo de avaliar as políticas relacionadas ao uso / venda de drogas em todo o mundo.

Em entrevista exclusiva ao Guia-me, o secretário antidrogas de Curitiba (PR), José Hamilton Klein falou sobre os resultados que tal decisão pode acarretar, os programas de prevenção ao uso de drogas que a prefeitura da capital paranaense tem adotado e como as comunidades terapêuticas podem agir em parceria com as autoridades municipais no combate aos malefícios causados pelos entorpecentes.

Guia-me: Sabe-se que intelectuais - inclusive o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - estão se posicionando a favor da legalização do uso da maconha. Em sua opinião, esse poderia ser um passo a liberação do uso de outras drogas ainda ilegais ou estes são fatores independentes nesse sentido?

José Hamilto Klein: É evidente que tais posições representam um grande retrocesso e representam sim inspiração para a reinvidicação de liberação de outras drogas ilegais. Admira-se que os chamados "intelectuais", diante da destruição de tantos lares provocada pela drogadição, tenham a atitude desrespeitosa, e até criminosa, de estimularem, ainda que de forma indireta, o consumo de substancias tão nocivas ao proprio individuo, a familia, e a sociedade de maneira geral.  

Guia-me: Em uma matéria sobre o assunto (legalização) publicada na Gazeta do Povo (PR), o senhor falou sobre a importância de, além da repressão, haver prevenção contra as drogas e recuperação dos dependentes, porém esses dois últimos fatores estariam desfalcados nos dias atuais. Agora na secretaria Anti-drogas de Curitiba (PR), quais sugestões o senhor apresentaria para agilizar o suprimento dessas necessidades a curto / longo prazo?

Hamilto Klein: Não se tratam de sugestões. A Secretaria Antidrogas de Curitiba, por determinação do Prefeito Luciano Ducci, está intensificando os programas que tratam da prevenção ao uso de drogas, seja através do desenvolvimento de ações diretas junto as comunidades em situação de vulnerabilidade social, seja através da capacitação de multiplicadores e a formação de parcerias com a sociedade civil organizada. Nesta tarefa surge como primordial a participação das entidades religiosas, de qualquer credo ou orientação, que se disponham a enfrentar essa verdadeira guerra contra um inimigo comum que é a luta contra as drogas.

Guia-me: Em depoimento seu, também foi citado o fato de que países do primeiro mundo (Holanda, por exemplo) que legalizaram o uso de drogas - como a maconha e outras - estão repensando tal decisão. É possível mensurar os malefícios que essa liberação traria para o Brasil de forma específica?

Hamilto Klein: A experiência de outros países, que apostaram na tese da liberação do uso de drogas, já deixa evidente o equívoco da decisão ao criar graves problemas de saúde pública com reflexos fortes na economia local. Independente de tais experiências, é possível observar na nossa vizinhança a proliferação de grupos de usuários de drogas que, em função da drogadição, abdicam de quaisquer vínculos sociais ou familiares, passando a viver nas ruas sem qualquer perspectiva. Isso, a médio e longo prazo, certamente iria criar uma legião de alienados improdutivos, provocaria a quebra dos laços de família e, consequentemente, a negação das regras de convívio social. Exemplos desse tipo já podem ser vistos em inúmeros municípios, onde a formação das chamadas “cracolândias” revela as consequências do uso de drogas e deixa exposta a fragilidade dos argumentos dos “intelectuais” que hoje defendem sua liberação.       

Guia-me: As comunidades terapêuticas / clínicas (particulares / não-governamentais) têm sido há anos uma opção para muitos dependentes químicos que não encontram vagas em instituições públicas e suas famílias acabam dando um jeito de pagar uma internação. Há a possibilidade de ocorrer alguma troca de experiências entre a secretaria antidrogas e tais instituições?

Hamilto Klein: Através de uma parceria entre a Secretaria Antidrogas, a Secretaria de Saúde do município e a fundação de Ação Social (FAS), cumprindo uma determinação do Prefeito Luciano Ducci, encontra-se já em fase de implantação a denominada Rede de Comunidades Terapêuticas – RCT – programa através do qual a Prefeitura Municipal de Curitiba dará aos cidadãos, que não possuem condições financeiras de arcar com o custo do tratamento de recuperação em clínicas particulares, a possibilidade de obter atendimento especializado. Com isso a Secretaria Antidrogas, juntamente com seus parceiros, terá a possibilidade de transmitir experiências de sucesso, auxiliar na melhoria do padrão de atendimento e forçar a adequação às condições técnicas mínimas estabelecidas pelo Ministério da Saúde.  

Guia-me: O Brasil já deixou de ser "simplesmente" parte da rota do narcotráfico e tornou-se um dos destinos da droga. Há causas ("culpados") específicas para esse acontecimento ou isso seria resultado de uma junção de diversos fatores simultâneos?

Hamilto Klein: O problema do abuso de drogas sempre existiu em todos os países do mundo, inclusive no Brasil. O que se observa de tempos em tempos é a mudança do tipo de droga utilizada, com maior ou menor potencial de dependência, maior ou menor grau de dependência física ou psíquica. O principal fator que leva a intensificação do uso é a falta de informação, a curiosidade. Em uma iniciativa pioneira o então prefeito de Curitiba, Beto Richa, criou a Secretaria Antidrogas com o objetivo de despertar o cidadão, principalmente os jovens, para os riscos e conseqüências do uso de drogas. Na gestão do Prefeito Luciano Ducci as ações e programas estão sendo intensificados de maneira a massificar a disseminação do conhecimento com o objetivo de evitar o primeiro contato com as drogas, oferecer alternativas para tratamento e recuperação daqueles que já se encontram na condição de usuários, promover a ressocialização através de capacitação profissional e propiciar o ingresso no mercado de trabalho formal.

Vale ressaltar que, por maiores que sejam os esforços do poder público, o sucesso de tais empreendimentos só virá com a participação da sociedade, ficando assim evidenciada a responsabilidade dos movimentos sociais, notadamente das comunidades religiosas que em muito já vem auxiliando neste processo.

Por João Neto - www.guiame.com.br

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