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Leilões judiciais no DF ofertam fazendas, sutiãs e vibradores usados

Leilões judiciais no DF ofertam fazendas, sutiãs e vibradores usados

Atualizado: Quinta-feira, 23 Junho de 2011 as 1:53

Os leilões judiciais realizados no Distrito Federal atraem compradores de peças que vão de sutiãs e vibradores usados a imóveis com preços acima de R$ 15 milhões. Os produtos acabam disputados por profissionais – gente que está no mercado há anos – e amadores – que em geral querem um ou outro objeto.

Na última terça-feira, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal realizou um leilão em que, entre as peças postas à venda, estava um par de sutiãs usados. “Lote número 500, de Planaltina. R$ 1, moçada, R$ 1. Esse é o lote do suti㠑encarnado’”, anunciou o leiloeiro Ilmar Santos, 47. Ele é um dos sete oficiais de Justiça do TJ que atuam como leiloeiro no leilão público coletivo do tribunal.

Leilão público coletivo é realizado em auditório do Tribunal de

 Justiça do Distrito Federal. (Foto: Marcelo Parreira / G1)

  O lote anunciado fazia parte de um processo de execução de dívida. Os sutiãs, um vermelho com detalhes em lantejoulas, e outro preto de bojo ornamentado, se desvalorizaram com o tempo. No primeiro leilão em que as peças foram postas à venda, em novembro do ano passado, foram avaliadas em R$ 60, mas não houve comprador.

Das mais de 120 placas numeradas distribuídas aos potenciais compradores, só uma se levanta e provoca risos na plateia: a de número 001, de Acelino Firme, um senhor de cabelos e barba brancos, conhecido como “Popeye”. Sem concorrência, arrematou o bem e foi aplaudido. Ele não dá entrevista, mas diz que comprou os sutiãs “para tirá-los de lá”.

Popeye é uma celebridade entre os arrematantes dos leilões públicos coletivos do TJ. Ele é dono de uma loja de objetos usados, como a grande parte dos participantes do leilão, e conhecido pela persistência. Muitos relatam já tê-lo visto levantar a placa para dar lances e não abaixá-la até ser declarado vencedor, independentemente de concorrência.   Estrume, caixão, vibrador

Para atrair a atenção dos compradores, os leiloeiros foram criando seus estilos ao longo do tempo. Walter Sá é um dos que transformam o leilão em um “quase show”, com o uso de frases de efeito e irreverência. Ele transforma celulares velhos em “relíquias de colecionador”, que também podem ser comprados para “pôr os meninos pra brincar”.

Com experiência, discorre ao longo do leilão sobre a qualidade de tudo, de tampos de vidro a mesas de som e motores. Nessas horas vale até apelar a “dons artísticos”. “Rapaz, eu cantava na noite. Já até cantei ‘New York, New York’ em leilão”, conta.

Ele é oficial desde 1991 e leiloeiro desde 97 e nunca recebeu treinamento específico. “Eu já fui feirante, mascate, controlador de voo, fiscal do trabalho, maquinista”, disse.

Curiosidades sobre os leilões são comuns. Nos mais de dez anos em atuação, os leiloeiros dizem já ter vendido de tudo. Ou quase. “Uma vez, no fórum do Gama, tinha 300 sacos de estrume para leiloar. Eu olhei, pensei: ‘Minha mãe falou para eu estudar, agora estou aqui...’ Mas não vendi, estava caro”, relata Ilmar Santos, rindo.

A leiloeira Rosemeyre Azoubel, 51, conta já ter vendido um lote com produtos de sex shop, novos e pelo menos um lote com produtos de despejo que tinha, entre as peças, um vibrador usado.

“O oficial teve de notificar tudo que tinha no quarto. E veio uma almofada, uma cama, um ‘consolo’. E eu vendi”, afirma ela. Na lista de objetos exóticos, ainda há espaço para um lote de caixões, que o arrematante disse que usaria para decoração de uma festa.

Os oficiais riem de alguns dos produtos leiloados, mas já passaram por situações delicadas, com pessoas idosas que se sentem mal ao verem a casa em que passaram toda a vida ser vendida. “As pessoas não se conformam de você estar vendendo a casa. Já me disseram ‘se vocês venderem minha casa eu mato vocês’. A gente teve de chamar a segurança do tribunal”, diz Rosemeyre.

Ilmar Santos diz preferir relembrar os casos positivos. “Tem um homem no Gama que toda vez que me encontra me dá um abraço, porque fui eu que vendi a casa em que ele mora”, relata.

Já entre os problemas estão os falsos arrematantes, usados como “laranjas” de interessados em aumentar o valor do bem penhorado, o que muitas vezes reduz a dívida em execução. “Já aconteceu da pessoa ganhar e dar cheque sem fundo. E também de a gente ter de chamar a segurança do tribunal para pegar o arrematante no estacionamento, porque o objetivo do cara era só mesmo frustrar o leilão, ganhar tempo”, disse.

Oportunidade

O leilão realizado pelo TJ nesta terça-feira arrecadou R$ 94,7 mil na chamada primeira hasta, a primeira tentativa de venda. Muitos são objetos penhorados pela Justiça em ações como cobrança de dívida, despejos e divisão de bens e espólios, mas o que atrai mesmo a atenção são os chamados objetos de crime. “Eles são o filé, porque ladrão só rouba o que é bom, né?”, diz Santos.

Entre esses objetos, divididos em lotes, estavam 16 celulares com lance inicial de R$ 16, arrematados por R$ 270, e ferramentas avaliadas em R$ 50 e que foram arrematadas por R$ 750. A maior parte dos objetos é composta por eletrodomésticos antigos, mas há espaço para quase tudo: livros, portas, aparelhos de som, sofás, óculos escuros.

Dono de ferro-velho, José Cícero começou a

trabalhar nos leilões há 17 anos, mas desde os

8 acompanhava o pai. (Foto: Marcelo Parreira / G1)

  No leilão, 2 metros cúbicos de jatobá, madeira de lei, avaliados inicialmente em R$ 100, renderam a melhor disputa do dia e acabaram arrematados por R$ 3,5 mil. Já os mais de 3 mil potes de creme para cabelo – um dos 54 lotes não arrematados na terça-feira – ficaram para a próxima tentativa, no dia 5 de julho.

Na segunda hasta, os produtos são postos à venda por um lance inicial equivalente à metade do valor de avaliação. Alguns interessados seguram o interesse na expectativa de um preço menor na segunda tentativa.

"Já teve um caminhão de chassi alterado, que não podia rodar, e por isso foi avaliado como sucata em R$ 250. Com a disputa, saiu por R$ 17 mil", contam os leiloeiros. O comprador desmontou o veículo e vendeu as partes por R$ 60 mil.

“Menos de 300% de margem de lucro não compensa” diz um arrematante identificado apenas como Paulo. Ele foi de Goiânia a Brasília para participar do leilão do TJ e conta já ter gastado R$ 28 mil em um único leilão. “Isso vicia igual jogo, se você não tomar cuidado. Exige tempo, dinheiro e conhecimento de mercado, dos produtos”, afirma. Mas também há espaço para esbanjar. "Já comprei um lote com uma mobilete, uma jaqueta e um relógio só porque vinha uma camisa do Fluminense", afirma um participante do leilão.

Outro arrematante, que prefere não se identificar, comprou um lote que incluía um desodorante. “Não comprei por causa dele, mas vou vender. A gente vende até urubu voando, rapaz, só depende do gogó”, afirma.

Dono de um ferro-velho, José Cícero, 41, é a segunda geração a marcar presença nos leilões públicos. “Comecei acompanhando meu pai, que trabalhou com leilões por mais de 30 anos”, conta ele, que já arremata produtos há 17 anos, com foco em peças de carros e sucatas.   “Já rendeu mais, hoje está dando muita concorrência. Tem muito amador com dinheiro parado que vem comprar uma bicicleta, por exemplo”, afirma Cícero.

Os amadores, no entanto, são minoria, o que fica comprovado na compra de carros e sucatas. Os arrematantes conversam entre si, avaliam valores e dão detalhes dos objetos, que passam duas semanas abertos à visitação nos depósitos públicos.

São 11 ao todo, um em cada circunscrição do DF. Hamilton Lima, 48, trabalha há 24 anos neles. Hoje atua no maior deles, o de Brasília, um galpão localizado no Setor de Armazenagem e Abastecimento Norte (SAAN). Ele conta que já recebeu avião e até panela com comida para guardar – provavelmente vinda de despejo realizado na hora da refeição.

O funcionário sabe de cabeça a maioria dos lotes de produtos em visitação, e toma todo o cuidado para garantir a qualidade dos produtos. Isso inclui não testá-los antes do leilão, para evitar a possibilidade de um dano acidental.

De resto, relata histórias de visitantes bastante criteriosos e frequentes, uma ou outra tentativa de furto por visitante e casos “inexplicáveis”. “São barulhos, sensor de movimento ativado sem ninguém por perto”, conta ele. “Eu me benzo, peço proteção, porque tem muita carga negativa”, diz ele.

Alguns problemas mais "mundanos", no entanto, são relatados pelos depositários. “Já tive várias ocorrências de furtos e invasões”, relata Frederico de Melo, depositário do Gama, que também tem problemas com a limpeza e manutenção do local. Ele conta que precisou recorrer a segurança armada no local e já solicitou monitoramento por vídeo e sensores de movimento. Outro desafio, e esse geral, é a superlotação dos depósitos, um dos motivos para a realização dos leilões.

Leilões individuais têm audiência menor, mas

movimentaram R$ 16,5 milhões em 2010.

(Foto: Marcelo Parreira / G1)

  Arrematantes profissionais

Os leilões coletivos são os “mais animados”, mas rendem pouco, principalmente devido aos valores pequenos dos lotes. Em 2010, os dois eventos semestrais renderam juntos R$ 240 mil. O dinheiro que circula nos leilões individuais é muito maior.

No ano passado, foram R$ 16,5 milhões vendidos em bens, principalmente imóveis e veículos. Em alguns casos, o valor de venda chega a ser metade do valor de avaliação inicial, que por sua vez já é normalmente inferior ao de mercado.

A diferença no preço atrai empresas grandes, como imobiliárias e construtoras, e seus arrematantes profissionais – advogados que se especializam em acompanhar leilões e processos relacionados.

"O arrematante vem e olha o processo, analisa, depois vai no cartório ver se não tem outra penhora, vai na Secretaria de Fazenda ver se não deve impostos, vai no prédio ver se não deve condomínio", contam os leiloeiros.

“Aqui não tem amador, meu filho”, diz uma advogada com mais de 30 anos de experiência. Ela prefere não se identificar, mas acompanhava para um cliente um leilão com pouco mais de 20 pessoas quando falou com o G1 .

O evento acabou tendo uma única venda, de uma sala comercial na Asa Sul, avaliada em R$ 67 mil. Foi arrematada por R$ 80 mil. O bem mais caro já leiloado em um leilão desse tipo, segundo leiloeiros, foi uma fazenda de um empresário de Brasília. “Saiu por R$ 16 milhões. A dona que arrematou disse que ia construir uma cidade lá”, relata Ilmar Santos, que não sabe que fim teve o terreno.

O dinheiro atraiu o médico Ricardo Sobrinho, 37. Ele não comprou, mas assistiu e tirou dúvidas sobre o leilão, o quinto que acompanhou desde março. O interesse surgiu ao adquirir o próprio apartamento, em um leilão extra-judicial em São Paulo. "Comprei para morar, mas gostei do rendimento e estou pensando em vender para reinvestir", afirma ele.          

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