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Levantamento mostra que 5% do Paranoá está assoreado

Levantamento mostra que 5% do Paranoá está assoreado

Atualizado: Segunda-feira, 1 Fevereiro de 2010 as 12

O Lago Paranoá de hoje é bem diferente daquele construído no fim da década de 1950, pouco antes da inauguração de Brasília. Com o desenvolvimento urbano e a ocupação desordenada do solo no Distrito Federal nos últimos 15 anos, as características iniciais de um dos cartões postais da cidade vêm se transformando. As nascentes da Bacia do Paranoá sofreram os impactos da atuação do homem. E todo o lixo e os sedimentos jogados nos córregos foram levados ao lago, causando o assoreamento das margens. A parte sul, próximo à Ponte das Garças, apresenta a situação mais crítica. A preocupação se repete perto da Ponte do Bragueto, na entrada do Lago Norte. Segundo a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), 5% do lago está assoreado — o que representa 2 quilômetros quadrados de um total de 40 quilômetros quadrados.

Com as alterações ao longo dos anos, as empresas que dividem a responsabilidade do Lago Paranoá serão obrigadas a refazer estudos ambientais e a rever a qualidade da água (1) , além do novo volume do tanque do lago. A Companhia Energética de Brasília (CEB), por exemplo, terá de calcular a nova curva ideal de geração de energia do DF, já que o órgão tem de manter a água em um nível entre 999,5m e 1.000,8m acima do nível do mar. “Cada vez mais diminui o volume de água. Para nós, menos volume significa menos geração de energia por parte da hidrelétrica. Nunca vi o lago tão baixo. E isso está acontecendo porque o fundo do lago subiu nos últimos anos”, diz Elias Brito, diretor da CEB Geração.

As áreas mais atingidas pelo assoreamento são as extremidades norte e sul do Lago Paranoá. Na altura da estação de tratamento da Caesb do Lago Sul, o fundo está a menos de 1m de profundidade. Grande parte dos sedimentos que chegam ali sai das grandes cidades do DF, como Taguatinga, Águas Claras, Vicente Pires e Riacho Fundo. Os sólidos seguem pelos pequenos cursos d’água da Bacia do Paranoá, que se encontram com os córregos do Vicente Pires e do Riacho Fundo, e desembocam no lago. “Com menor lâmina de água, o lago concentra poluentes. Juntando a esse fator a alta incidência de sol, temos um ambiente propício para as algas se proliferarem”, explica o assessor da Superintendência de Recursos Hídricos da Adasa, Eduardo Costa Carvalho.

O pescador Manoel Alves de Almeida, 65 anos, trabalha com a venda de peixes há 26 anos. Ele se lembra com saudade de uma época em que o lago não era nada assoreado. “Hoje, o lago acabou”, lamenta. Manoel é obrigado a desviar de bancos de areia enquanto navega com o pequeno barco de madeira. Para conseguir uma boa pescaria, tem que remar quase uma hora e meia para chegar à parte norte do espelho d’água. “Tenho que andar o lago todo em busca do meu sustento. Naquela época, bastava eu ficar duas horas sem nem sair das margens da minha casa e conseguia uma boa quantidade de peixe”.

As pilastras da Ponte do Bragueto ainda marcam a altura que a água do lago costumava atingir há alguns anos. Hoje, os resíduos e as plantas ocupam o local onde deságua o Ribeirão do Bananal. A parte norte do Lago Paranoá não é tão atingida quanto a sul. Ali, o desenvolvimento urbano apresenta um ritmo menos acelerado. O Bananal ainda é beneficiado pela proximidade com o Parque Nacional de Brasília e a grande área verde ao fim da Asa Norte. O bairro do Plano Piloto e as cidades de Sobradinho e Planaltina, no entanto, contribuíram para alguma sedimentação do braço norte do Lago Paranoá. A construção do Setor Noroeste também preocupa os ambientalistas (leia na próxima página).

Soluções

A Caesb desenvolveu, há três anos, um projeto de desassoreamento do tanque do Paranoá. Mas o superintendente de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do órgão, Maurício Luduvice, lamenta que faltam R$ 50 milhões para as intervenções. Segundo ele, as obras de dragagem mecânica e hidráulica tirariam os sedimentos e as sujeiras do fundo. “Não é o caso de tentar retomar o Lago como antes. Ali criou-se um habitat natural, o brejo ganhou vida. Mas ao mesmo tempo, precisamos recuperar as características como lago”, comenta.

Segundo o coordenador de fiscalização dos recursos hídricos da Adasa, Roger Souza, a vida útil de um lago urbano é de aproximadamente 70 anos. Para superar essa média, especialistas sugerem ainda a criação de bolsões de retenção dos sedimentos dos centros urbanos. Lagoas seriam construídas para armazenar os resíduos sólidos que seguissem para o lago. Nesse caso, o bolsão seria renovado a cada ano. O custo desse trabalho é menor do que o de dragar os 2 quilômetros assoreados do lago. “As medidas têm de ser tomadas logo. Do contrário, depois não conseguiremos controlar a devastação. Mas ainda não é tarde. Temos tempo para recuperar este bem que é o Lago Paranoá”, acredita Roger Souza.

1 - Água de beber

A Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) pretende abastecer a população do DF com a água do Lago Paranoá a partir de 2011. Segundo o órgão, o risco de faltar água nos próximos anos é alto, já que há mais de 30 anos, o DF é abastecido apenas pelas barragens de Santa Maria, no Parque Nacional de Brasília, e do Rio Descoberto.

E EU COM ISSO

A diminuição do tamanho do Lago Paranoá causa prejuízo a toda a população do Distrito Federal. Construído como alternativa de lazer e para aumentar a umidade do ar da região, o lago também é utilizado para gerar energia. E no futuro próximo poderá ganhar uma nova função: abastecer de água quase 500 mil pessoas. Com o assoreamento do lago, a prestação desses serviços fica prejudicada devido à menor quantidade e à pior qualidade da água. Parte do acúmulo que gera o assoreamento contém lixo jogado nas ruas pela população. “Se alguém joga um papel no chão na W3 Norte, por exemplo, a chuva bate e esse resíduo pode chegar ao lago”, observa o presidente do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), Gustavo Souto Maior. Segundo ele, a flora e a fauna do lago também sofrem. “Os resíduos têm potencial poluidor. Há alguns anos apareceram peixes mortos e até mesmo cegos pelo carreamento de metal pesado para a água”, adverte Souto Maior.

Por: Juliana Boechat

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