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Mãe de gari morto em maio de 2006 em SP cobra investigação federal

Mãe de gari morto em maio de 2006 em SP cobra investigação federal

Atualizado: Domingo, 15 Maio de 2011 as 8:06

Pouco antes de ser atingido pela onda de violência de maio de 2006, o gari Edson Rogério Silva dos Santos, de 29 anos, participou da festa de aniversário da mãe, Débora Maria da Silva, no domingo, 14 de maio, em São Vicente, no litoral de São Paulo. Débora lembra que os dois se emocionaram diante da televisão com as cenas do enterro, em pleno Dia das Mães, do bombeiro João Alberto da Costa, também assassinado a tiros. Apesar de uma inflamação no dente, Edson Rogério trabalhou normalmente na segunda-feira (15) e à noite voltou à casa da família para pegar um medicamento que havia esquecido.       No caminho para o imóvel da família do qual tomava conta, em Santos, mas a poucos quilômetros de sua casa, a moto usada por Edson ficou sem gasolina e ele ligou de um orelhão para pedir ajuda a um amigo. Por volta das 23h, pouco depois de uma suposta abordagem policial no posto de gasolina em que eles estavam, Edson Rogério foi encontrado morto, ainda de capacete, com a carteira funcional de gari em um bolso e o holerite manchado de sangue em outro.

"Eles estavam no posto e chegaram duas viaturas e foram em cima do Rogério. Começaram a dar tapas na cara dele, chute, falando que se morrer ele era ladrão e ele gritava que ele era trabalhador. Gritou várias vezes que era trabalhador. Aí as viaturas foram pelo caminho que, com certeza ele falou, que ia fazer [até um proximo posto, já que o primeiro estava fechado]. Ele ia buscar gasolina. As viaturas entraram e em seguida ele saiu pelo mesmo lugar, porque era o único lugar para buscar gasolina. Não foi nem mil metros, mataram ele. "

Os ataques do crime organizado em São Paulo completam cinco anos. Desde quinta-feira (12), o G1 publica uma série de reportagens sobre os nove dias que marcaram a história de São Paulo. Entre 12 e 21 de maio 493 pessoas morreram vítimas de crimes violentos no estado. De acordo com estudo divulgado nesta semana, pelo menos 261 dessas mortes tiveram relação com ações de uma facção criminosa.

Cinco tiros

De acordo com Débora, o filho foi morto porque conhecia os autores do crime. "O que chama mais atenção é que ele morreu de capacete. Não fizeram nem ele tirar o capacete porque sabiam quem estavam matando. Mataram meu filho porque bateram nele e sabiam que ele era trabalhador e que ele iria para cima, porque meu filho era boca-dura. Ele estava com holerith no bolso, com funcional no bolso. Não pediram documento. A revista da época era só armamento. A maioria dos que morreram era trabalhador."

Edson foi morto com cinco tiros. A mãe conta que o frentista e o amigo dele, que disseram ter visto a primeira abordagem no posto, não foram chamados a depor. A fita da câmera de segurança foi apagada. Os policiais que encontraram o corpo e o socorreram não confirmaram a abordagem anterior no posto de combustível. O inquérito policial foi arquivado em 23 de junho de 2008. Uma das fundadoras do Movimento Mães de Maio, Débora cobra a apuração da autoria da morte de seu filho e reivindica que o caso seja transferido para a esfera federal. "A natureza do crime é homicídio doloso, com autoria desconhecida", afirma ela, cinco anos depois.

Ruas desertas

Ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo em maio de 2006, o advogado Antonio Funari Filho se viu no centro do furacão quando começou a chegar à sua sala, a partir de sexta-feira (12) as primeiras informações de testemunhas de abusos policiais misturadas a boatos sobre ataques a edifícios públicos. Quando deixou o expediente agitado, ele encontrou as ruas da cidade desertas como nunca vira antes desde que chegou a São Paulo, em 1963.

"Eu estava na minha sala. O pessoal que atende recebeu telefonemas e disse que estavam chegando queixas assim, assado. Aí começamos a receber informações pelo rádio e pela televisão. Neste dia houve silêncio na cidade. A cidade ficou vazia. Eu, quando voltei para minha casa, encontrei a Avenida Angélica vazia, completamente sem carro. Começaram com: 'olha, tão atacando o Mackenzie', uma série de boatos. Criaram um clima de terror na cidade. Nunca vi São Paulo parar. Nunca houve nada igual", afirmou.

Presídios lotados

A rotina do Padre Valdir João Silveira, coordenador nacional da Pastoral Carcerária da Confederação dos Bispos do Brasil (CNBB) também foi intensa no sábado, 13 de maio.

"As primeiras notícias chegaram por telefone, de familiares que tiveram pessoas assassinadas. Eu estava viajando naquele dia, saí cedo de São Paulo para visitar unidades prisionais no interior do estado, quando vi de manhã um estouro muito grande aqui no centro, que foi uma bomba colocada no prédio do Ministério Público. Depois, andando em direção ao interior e vi alguns acidentes ainda. A Pastoral Carcerária esteve em vários presídios para acalmar rebeliões.

Eu tinha negociado dias antes desse fato uma rebelião em Pinheiros onde houve pessoas mortas. Consegui sair com os reféns e com dois revólveres e uma granada. Também fomos a vários enterros de funcionários do sistema prisional." O ex-ouvidor da polícia admite que apesar do empenho da Ouvidoria em listar e acompanhar todos os crimes com autoria desconhecida, "infelizmente o sistema de investigação falhou".

Para o padre João Silveira, que também foi ao enterro de dezenas de agentes do sistema penitenciário, sobre os mortos ainda pesa a pecha de terem de alguma forma algum envolvimento com a criminalidade.

"Sobre todos que morreram na época pesava sempre a condenação como se eles também fossem envolvidos. Antes de matar, ou após a morte, era destruída a imagem da pessoa como cidadão, dizendo que aquela pessoa tinha envolvimento como crime."          

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