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Mãe que trancou filhos diz que juiz agiu certo ao levá-los para abrigo

Mãe que trancou filhos diz que juiz agiu certo ao levá-los para abrigo

Atualizado: Terça-feira, 6 Setembro de 2011 as 11:55

Helena foi ouvida pela polícia e pela Vara da Infância

e Juventude na segunda (Foto: Juliana Cardilli/G1)

  A mulher de 37 anos que deixou três filhos com idades entre 5 meses e 12 anos trancados dentro de casa em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, no sábado (3), disse na manhã desta terça-feira (6) não ter medo da Justiça e estar pronta para enfrentar as consequências de seus atos. As crianças, que foram deixadas aos cuidados do pai no fim de semana, foram encaminhadas para um abrigo na noite desta segunda  (5) por determinação do juiz Gabriel Campos Sormani, da 3ª Vara da Infância e Juventude.

“Eu achei correto, ele [o juiz] fez o correto. Porque eles têm que investigar e se eu tiver que pagar alguma coisa, eu vou pagar, eu não vou fugir. O que o juiz fez agora, fez certo. As leis têm que ser respeitadas. Não tenho medo da Justiça. Se eu tiver que ir presa, vou presa, estou com a consciência tranquila”, afirmou Helena Alves Ferreira ao G1 .   As crianças foram encontradas pela Polícia Militar depois que o filho mais velho, de 12 anos, ligou para o 190 dizendo que estava trancado em casa com os irmãos, sem comida, e que a mãe o agredia. Policiais foram até o local, arrombaram o portão e a porta e soltaram as crianças. Inicialmente, a PM informou que elas tinham sinais de maus-tratos e violência doméstica.

Nesta segunda, Helena, seu marido e as crianças foram ouvidos no Conselho Tutelar de Itapecerica da Serra, no 1º Distrito Policial e no Fórum da cidade. Segundo o Conselho Tutelar e a Polícia Civil, de acordo com os primeiros depoimentos, não era possível afirmar que as crianças eram agredidas. Helena admite que deixou as crianças sozinhas e que chegou a bater no filho mais velho para “corrigi-lo”. Mas negou que tenha queimado o filho na barriga e na boca, como ele disse aos policiais.

“Eu tenho que ensinar meus filhos. Ou eles querem que os filhos da gente virem o quê? Assassinos? Peguem uma faca e matem as mães? Eu dei uma correção no meu filho, mas não bati na boca, não queimei ele, aquilo foi tudo mentira”, afirmou. “Umas varadinhas eu dei nele mesmo, mas não ficou nem marca. E a boca ele machucou na rua, andando de bicicleta, e o joelho [machucou também].”

A mãe disse que o filho é muito inteligente, mas tem dado trabalho – ele estaria com 24 faltas na escola. Ela acredita que o menino possa ter sido influenciado por outras pessoas a mentir. “Depois, no Conselho Tutelar, ele falou outras coisas, perguntaram se eu judiava dele, se eu era uma má mãe, ele falou que não, que eu era boa, uma mãe que cuida dos filhos, cuida da casa”, disse Helena, afirmou ainda não ter perguntado ao filho porque ele disse aos policiais que era agredido pela mãe.

Na rua em que família mora, vizinhos afirmam que nunca desconfiaram de

 maus-tratos às crianças (Foto: Juliana Cardilli/G1)  

Justificativas

Nos depoimentos dados nesta segunda, Helena contou que estuda pedagogia com bolsa de estudos e, por isso, precisa trabalhar aos fins de semana em uma escola estadual. Neste sábado, saiu para trabalhar e, como de costume, deixou as crianças em casa – ela acreditava que o marido chegaria logo.

“Esse dia eu deixei ele trancado mesmo, isso ele não mentiu, porque ele ficou muitos dias na rua, faltou na escola, isso é verdade. Mas nunca tinha deixado ele trancado, inclusive ele saía, ficava com o menino de 2 anos, levava para a escolinha”, afirmou. Entretanto, ela admitiu que aos sábados as crianças ficavam sozinhas em casa, com o portão trancado. “De dia de sábado é assim, das outras vezes eu deixava só o portão aqui trancado, ele ia para a rua, ele pulava o muro e ia para a rua.”

Helena reclamou da exposição da família e dos julgamentos precipitados feitos contra ela. “Eu quero dar uma vida boa para os meus filhos. Eu quero dar uma vida digna. Não quero que falem ‘o filho da Helena é um marginal’. Não estou aqui para condenar ninguém, mas ninguém sabe o que acontece”, afirmou. “Admito sim [que deixou os filhos sozinhos em casa], mas bater, assim como ele falou, jamais. Nesse dia eu dei umas correções nele, porque ele ficou muito na rua, fiquei sabendo das faltas. A mãe perde a cabeça, porque eu não quero ele na rua, quero que ele estude.”

A mãe disse ter consciência de que foi errado deixar os filhos sozinhos em casa. “A psicóloga falou que ele estava com a responsabilidade de ficar com as crianças. Mas era só de fim de semana porque o pai estava trabalhando. Eu sei que foi errado mesmo, isso não vai acontecer mais, a gente vai ter que consertar.”

Investigações

Segundo o juiz Gabriel de Campos Sormani, que determinou a ida das crianças para um abrigo, a medida foi tomada para proteger os três enquanto um familiar próximo seja localizado. A Vara da Infância vai agora procurar parentes, ouvir vizinhos e fazer um estudo psicossocial da família para tomar uma decisão definitiva.

Vizinhos da família ouvidos pelo G1 nesta terça relataram que viram Helena deixar as crianças sozinhas em casa em diversas ocasiões, mas nunca presenciaram nem desconfiaram de violência doméstica.

“É a segunda vez que vem polícia. De agredir as crianças, eu nunca ouvi falar, mas ela larga as crianças mesmo. Tem dia que ela sai correndo atrás do marido 5h e larga as crianças sozinhas”, afirmou a dona de casa Edivânia Ferreira, de 36 anos. “Ela briga com todo mundo aqui na rua, por ciúme do marido.”

Questionada, Helena confirmou que policiais já haviam ido até sua casa em outra ocasião, mas disse que não foi relativo às crianças e não quis comentar o assunto.

Outra vizinha também afirmou já ter visto a polícia na casa em outras ocasiões. “Polícia já veio por causa das crianças. Ela costuma deixar o maior com os mais pequenos, vive brigando na rua”, disse a aposentada Ester dos Santos, de 65 anos.

Apesar dos relatos dos vizinhos, a polícia e o Conselho Tutelar não têm registros anteriores da família.          

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