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Mães temem que filhos não superem a tragédia das chuvas em Petrópolis

Mães temem que filhos não superem a tragédia das chuvas em Petrópolis

Atualizado: Quinta-feira, 20 Janeiro de 2011 as 9:52

Ao ser perguntado sobre o que mais quer, o adolescente Wesley da Silva, de 14 anos, responde em duas palavras: “minha casa”. Ele está abrigado com sua mãe, a doméstica Simone Aparecida da Silva Fernandes, de 40 anos, no Club Boa Esperança, em Itaipava, distrito de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, local atingido pelas chuvas na última semana. Simone preocupa-se em como lidar com a situação.

- A gente não vivia como rico, mas tinha tudo direitinho. Meus filhos só falam que querem ir embora. Com as chuvas desses dias, ninguém tem conseguido dormir direito. A operadora de caixa, Tatiane da Costa, de 25 anos, explica que, para conseguir ir à sua antiga casa no Buraco do Sapo e tentar recuperar algum bem, precisa deixar a filha Evelyn, de 4 anos, na creche da Prefeitura.

- Quando levo a Evelyn comigo à nossa casa, ela só repete que a casa dela foi embora. Ela fica triste, e eu também. É preferível deixá-la na creche para que se distraia. Minha outra preocupação é com a escola. Seria o primeiro ano dela, mas o colégio que fiz a matrícula também foi destruído.

Essa mesma tensão repete-se nos outros dois abrigos ao longo dos mais de 15 km de destruição em Itaipava. Na igreja do Divino, no Vale do Cuiabá, Cristiane Pereira do Amaral, já conversou com uma psicóloga que foi ao local, mas disse que ainda precisa de ajuda.

- Ser mãe já é difícil, nessa situação então não há palavras. Eles estão traumatizados, assustados. Não desgrudam de mim. Querem sempre saber para onde eu vou, principalmente, o Daniel, de 2 anos. Ele afundou na água duas vezes naquela noite, enquanto tentávamos fugir. Falei com a psicóloga que estou pirando. Mas ela lembrou que é comigo que ele quer falar, ficar. A camareira Elaine de Souza Amaral, de 36 anos, lembra como as crianças ficaram assustadas na madrugada de quarta-feira (12), quando várias pessoas pediram abrigo na casa dela, atualmente interditada pela Defesa Civil. Ela é mãe de Geovana, de 9 anos, Jeniffer, de 11 anos, e Jefferson, de 14 anos.

- As crianças acordaram perguntando pelo pai, que estava no lado de fora da casa tentando ajudar os outros. Toda vez que começa a chover, eles avisam e ficam perto de mim. A psicóloga já veio aqui, mas tem muita gente a ser atendida. Preciso conversar com ela sobre as crianças e sobre mim. Qualquer barulho vou procurar ver. Só estou em pé porque tenho bastante fé.

Tragédia das chuvas O forte temporal que atingiu o Estado do Rio de Janeiro na terça (11) deixou centenas de mortos e milhares de sobreviventes desabrigados e desalojados, principalmente na região serrana.

As cidades de Nova Friburgo, Teresópolis, Petrópolis, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto foram as mais afetadas. Serviços como água, luz e telefone foram interrompidos, estradas foram interditadas, pontes caíram e bairros ficaram isolados. Equipes de resgate ainda enfrentam dificuldades para chegar a alguns locais.

  Na sexta-feira (14), a presidente Dilma Rousseff liberou R$ 100 milhões para ações de socorro e assistência às vítimas. Além disso, o governo federal anunciou a antecipação do Bolsa Família para os 20 mil inscritos no programa nas cidades de Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis.

Empresas públicas e privadas, além de ONGs (Organizações Não Governamentais) e voluntários, também estão ajudando e recebem doações.

Os corpos identificados e liberados pelo IML (Instituto Médico Legal) são enterrados em covas improvisadas. Hospitais continuam com muitos feridos. Médicos apelam por doação de sangue e remédios. Os próximos dias prometem ser de muito trabalho e expectativa pelo resgate de mais sobreviventes e localização de corpos.

Em visita à região de Itaipava, em Petrópolis, o governador Sérgio Cabral (PMDB) disse que ricos e pobres ocupavam irregularmente áreas de risco e que o ambiente foi prejudicado.

- Está provado que houve ocupação irregular, tanto de baixa quanto de alta renda. Está provado, também, que houve dano da natureza. Isso não tem a ver com pobre ou rico.    

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