Marfinenses em SP temem por familiares no país em conflito

Marfinenses em SP temem por familiares no país em conflito

Atualizado: Sexta-feira, 8 Abril de 2011 as 8:46

Imigrantes da Costa do Marfim que residem em São Paulo estão preocupados com a situação de familiares e moradores das cidades do país invadidas pelos rebeldes que apoiam o presidente eleito Alassane Ouattara, reconhecido pela comunidade internacional, e também com os bombardeios realizados pela França sobre o país na tentativa de tirar do poder o atual presidente, Laurent Gbagbo. Segundo eles, os civis são os que mais sofrem com o conflito.

“Os rebeldes, armados, estão assaltando pessoas nas ruas, roubando carros, invadindo e saqueando casas. Alguns usam roupas do Exército. Chegou a uma situação que não sabemos quem é o que, e o que está fazendo ali. Está todo mundo com medo”, diz o administrador de empresas Didier Kovakou, de 33 anos, que imigrou para o São Paulo em 2007.

  Kovakou e outros três marfinenses conversaram com a reportagem do G1 em São Paulo. Eles defendem maior engajamento do Brasil na resolução do conflito, que começou em janeiro, após a vitória de Ouattara nas eleições presidenciais. Gbagbo alega que o pleito foi fraudulento e nega-se a deixar o poder, onde está há dez anos.

“Ao invés de bombardearem nosso país por causa de uma cadeira, a do presidente, podiam recontar os votos. Em nenhum país do mundo a população sofre e se começa uma guerra por causa de eleições. Nos Estados Unidos, houve suspeita de fraude em uma eleição do George Bush e o caso foi levado à Justiça”, diz o tradutor Michel Kovamie. “O Brasil podia se engajar na questão e estar à frente disso, liderando uma comissão neutra que busque uma solução pacífica. Uma recontagem de votos, simples, resolveria o problema sem matar tanta gente”, acrescenta ele.

Os marfinenses em São Paulo, que são simpatizantes do governo Gbagbo, acreditam que o atual presidente deixaria o poder caso uma recontagem de votos comprovasse que ele foi derrotado. “É melhor matar a população do que recontar votos?”, questiona Kovamie.   “Gbagbo e Ouattara moram no mesmo bairro, em uma distância de um quilômetro, e nunca se encontraram para discutir o problema”, disse Kovamie. “Gbagbo foi líder da oposição durante 40 anos, pedindo diálogo. Como um homem desses pode ser chamado de ditador”, acrescenta o professor Désiré Nguessan, presidente da associação dos marfinenses vivendo no Brasil.

“O que queremos é que a comunidade internacional deixe o próprio povo resolver o problema da Costa do Marfim ou que isso seja feito de forma pacífica. Se fosse para derrubarmos o nosso presidente e mandar ele embora, o próprio povo faria, como fez o povo do Egito e de outros países da Ásia. Querem impor a democracia na África no modelo americano e europeu. Mas isso nunca vai dar certo, porque a África tem suas diferenças, suas castas, suas tribos, sua história é diferente”, afirma Kovamie.

Dificuldade de contato

O administrador Kovakou está há duas semanas sem contato com a mãe, pois não consegue localizá-la por telefone e nem pode enviar remédios ou dinheiro, devido a um bloqueio internacional. A irmã do professor Nguessan, que vivia em São Paulo, voltou no início de março para Abidjan, principal cidade do país. “Ela conta que a situação está trágica, ninguém sai nas ruas com medo de assaltos, de ser saqueado, se que caia uma bomba. Os estudantes não podem ir para a faculdade, os serviços foram fechados”, explica Nguessam.     Os marfinenses relatam que os ataques da França atingiram uma universidade e também uma base do Exército onde moravam parentes de militares que são civis. Um paiol de armas do governo também foi alvejado pelos bombardeios, mas explosivos destruíram ainda moradias da população.

Massacre étnico

Outro ponto levantado pelos imigrantes é que está havendo um massacre étnico no país. Isso porque, na Costa do Marfim, é possível saber de qual região provém uma pessoa pelo seu sobrenome.

“Estão matando sem explicação todos os que têm o sobrenome de família com origem do oeste do país, só porque o Ouattara é do norte. A pessoa pode não ter nada a ver com a situação, sem ligação política e nem saber o que está acontecendo e é morta”, afirma o administrador Kovakou.

“O que está havendo é uma matança. Os rebeldes querem tomar o país e estão matando todos do oeste porque acham que estão apoiando o presidente”, acrescenta Nguessan.

Os marfinenses sonham em retornar para o país após o fim do conflito e investir na Costa do Marfim usando os aprendizados e o dinheiro obtido no Brasil.        

veja também