Marina não foge à regra e usa militância paga em comício em SP

Marina não foge à regra e usa militância paga em comício em SP

Atualizado: Sexta-feira, 30 Julho de 2010 as 8:08

Apesar de criticar a escassez de capital humano na política e o modo como os adversários fazem campanha, a candidata do PV à Presidência, Marina Silva, não fugiu à regra dos grandes comícios e também lançou mão da militância paga para avolumar seu primeiro grande ato de campanha no Estado de São Paulo.

O comício realizado na noite desta quinta-feira (29) em Bauru, no interior de São Paulo, contou com pouco mais de 300 pessoas, segundo estimativas da Polícia Militar, e, ao julgar pelo número de pessoas que vestiam camisas e chacoalhavam bandeiras, ao menos a metade era de militantes pagos por políticos locais.

Trafegando pelas ruas ao redor da Praça Rui Barbosa, onde foi realizado o comício, a reportagem do iG flagrou pelo menos duas vans que desembarcavam militantes vestidos com camisas do PV e portavam bandeiras de candidatos que disputam uma vaga na Câmara Federal pela região.

O primeiro veículo tinha inscrições do candidato José Paulo Toffano, que já ocupa o cargo de deputado federal e tenta a reeleição pelo Partido Verde. A base eleitoral do candidato fica em Jaú e, com ajuda da perua estacionada perto da praça, ele transportou cerca de 30 militantes até Bauru para participarem do comício de Marina Silva.

A maioria da militância contratada por Toffano era de mulheres, que contaram à reportagem que recebem cerca de R$ 560 para distribuir panfletos e chacoalhar bandeiras nos faróis da cidade.

"Trabalhamos por contrato. São três meses de trabalho no farol e oito horas de trabalho. A gente tem direito a marmitex e uma folga por semana”, contou a moça, identificada apenas como Marta.

Embora estivessem com o discurso decorado de que Marina era a candidata mais preparada para governar o país, bastou duas perguntas para verificar que poucas conheciam a origem da senadora acriana que tenta chegar ao Planalto.

Perguntadas sobre o Estado de origem da candidata, muitas responderam que Marina nasceu em São Paulo, outras na Bahia. A militante que chegou mais próxima cutucava a companheira e dizia: “Ela é aquela mulher da 'amazônica' (sic), burra”. 

A autora da frase diz ter apenas 22 anos e se chama Camila. Ela disse que usa o dinheiro da “militância” para ajudar a família, que mora na periferia de Bauru. “Meu pai é lavrador numa roça aqui da cidade”, disse a garota.

Outro grupo de militantes aportou na praça central de Bauru graças ao chefe, que é dono de uma empresa de distribuição de panfletos na cidade.

O empresário, identificado apenas como Inácio, fechou a loja mais cedo e “obrigou” os cerca de 70 funcionários a irem até o comício vestidos com a camisa do Partido Verde.

Com medo de perderem o emprego que lhe rendem cerca de um salário mínimo por mês (R$ 510) , ninguém do grupo quis dar muitas informações sobre a empresa que trabalham. Informaram apenas que o chefe é membro do Partido Verde em Bauru e tentou ser vereador na cidade na última eleição, sem sucesso.

Hoje a empresa dele presta serviço para o candidato Raul Gonçalves, que também concorre a uma vaga deputado federal pela cidade. Junto com os panfletos e tabloides de lançamentos imobiliários, eles também distribuem o material de campanha do candidato.

A contratação de militantes para reforçar o público de comícios e festas eleitorais se transformou em prática recorrente nas grandes campanhas e não é exatamente uma surpresa. O fato ocorreu também em comícios de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) no interior do país.

Apesar da fraca adesão do comício de Marina Silva no interior de São Paulo, a candidata usou o palanque e a festa para atacar os adversários e clamar por mais ética na política e compromissos programáticos. “Tem candidato que só vai em lugares em que ele tem apenas 100% de voto, 100% de aplausos e 100% de 'puxa-saquismo'. Não. A gente pode fazer política sendo seres humanos. Talvez seja isso que eu quero inaugurar na política”, disse Marina.

Com discurso cheio de citações religiosas, a candidata usou a palavra “demônios” para atacar a imprensa, que, na opinião dela, “só faz críticas e ataca pedras e pedras”.

A candidata voltou a citar a fábula da jaguatirica, que é desafiada pela onça pintada para um treinamento. "Quando a onça atacou, a jaguatirica reagiu com um pulo mortal triplo. A onça então disse: 'oh, camarada jaguatirica! Esse (pulo) você não me ensinou!' E a jaguatirica retrucou: 'se eu tivesse ensinado, eu tinha me ferrado'", contou em tom de anedota.

“Eu sou da turma da jaguatirica e tenho certeza que surpreenderei meus adversários nas urnas”, afirmou Marina.

A presidenciável do PV passou a quinta-feira inteira em Bauru, onde concedeu entrevistas para rádios e TVs locais, além de visitar o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP.

A unidade de Saúde é referência em reabilitação de pacientes com doenças faciais.

A candidata visitou também a residênca do casal Rodrigo e Camila Kobayashi, como parte do programa "Casa de Marina" - que transforma casas de eleitores em comitês mobilizadores nos bairros.

A candidata aproveitou o espaço para criticar mais uma vez a não promulgação da emenda 29, que garantiria mais recursos da União e dos Estados para o sistema de saúde dos municípios.

Marina Silva partiu nesta quinta-feira para o Nordeste, onde participa de comícios também em Natal (Rio Grande do Norte) e Recife (Pernambuco) nesta sexta-feira.

A candidata estará de volta a São Paulo no sábado, onde inaugura um comitê de campanha do PV na cidade de Diadema.

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