'Mel é o ator mais amado em Hollywood', diz Jodie Foster

'Mel é o ator mais amado em Hollywood', diz Jodie Foster

Atualizado: Terça-feira, 17 Maio de 2011 as 11:48

Atriz com 45 anos de carreira, mais de 70 filmes no currículo e algumas experiências esporádicas como diretora, Jodie Foster afirmou nesta terça-feira (17), em Cannes, que o cinema é a sua principal forma de terapia. "Não sou boa em admitir e falar sobre meus problemas. Meu modo de organizar os meus sentimentos é fazer filmes sobre eles, examinar minhas tragédias sob diferentes pontos de vista, ruminá-las um pouco e, ao final, falar: 'Isso é tudo que tenho a dizer sobre isso'."

Projeto independente que vinha "ruminando" havia mais de uma década, seu filme mais recente, "Um novo despertar", foi exibido nesta manhã na riviera francesa em sessão fora da competição oficial - o longa chega ao Brasil no próximo 27 de maio.

Estrelado por Mel Gibson, que está na cidade mas não compareceu à entrevista coletiva, o filme conta a história de Walter, um homem com depressão severa e problemas na família, que, à beira do suicídio, se agarra a um fantoche de castor que passa a funcionar como se fosse uma segunda consciência.

"Ele se coloca diante de uma sentença de vida ou morte e só tem essas duas escolhas. E aí descobre o fantoche, que vai funcionar como uma espécie de ferramenta de sobrevivência", explicou Foster, que além de dirigir, atua no filme como a Meredith, mulher do personagem e mãe de seus dois filhos. "Walter é um homem americano rico e deprimido, o castor fala com sotaque inglês da classe operária. O fantoche é tudo o que ele não é: masculino, cheio de vida e libido", descreveu.

Apesar de encarar com seriedade os dramas familiares e a doença mental do personagem, o filme flerta o tempo todo com o humor, o fantástico e o absurdo - à certa altura, a influência do castor sobre a personalidade de Walter é tão grande que ele não admite qualquer possibilidade de ser descartado quando seus problemas estiverem curado. Não é exagero dizer que, graças ao trabalho de câmera de Foster e à ótima atuação de Gibson, o castor ganha vida ao longo do filme.

"Mel foi o primeiro a me dizer que era o melhor ator para esse papel. E era também o primeiro da minha lista, não só por saber lidar tão bem com o humor mas por ter esse profundo conhecimento sobre suas próprias lutas internas", defendeu a atriz, diretora e amiga de longa data, que se esquivou de os recentes problemas pessoais de Gibson. "Não posso oferecer desculpas pelo comportamento de Mel, só ele pode explicar isso. Cada um de nós é responsável por si. Mas conheço o homem, e te garanto que ele é provavelmente o ator mais amado em Hollywood. Como amigo, ele é educado, leal, inteligente. Posso passar horas ao telefone com ele falando da vida. Mas ele é complexo, e é essa sua complexidade que permite a ele realizar uma performance tão extraordinária, pela qual só posso ser grata."

Foster reconhece, no entanto, que "Um novo despertar" possa ter tido algum efeito pessoal sobre o ator. "Quando você fica obcecado com algo, dá seis meses da sua vida para aquilo e se permite entrar mais fundo em você, isso tem que ter algum efeito terapêutico, catártico. Sei que ele tem muito orgulho do filme, do que ele mostrou ali e que ele quer que as pessoas vejam esse lado dele. Mel é muito reservado - aquilo que ele mostra ali é o mais próximo que você vai chegar da intimidade dele."

Exibidido pela primeira vez em março no festival South by Southwest, em Austin, "Um novo despertar" (originalmente batizado como "The beaver") chegou aos cinemas norte-americanos no início deste mês sob a sombra de algumas críticas negativas e um fraco retorno de bilheteria. Foster, no entanto. garantiu que não está decepcionada.

"É um filme especial, que não é mesmo para todo mundo. Por isso é independente, com uma forma mais europeia. O público americano costuma ter problema quando algo não se encaixa no que ele espera, isso faz parte da nossa herança nacional. Mas, se no momento em que está filmando, você começa a se perguntar se o público vaio gostar mais disso ou mais daquilo, certamente vai acabar terminando com um péssimo filme", concluiu.

Por: Diego Assis

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