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"Mente Mentira" leva Malvino Salvador de volta ao teatro

"Mente Mentira" leva Malvino Salvador de volta ao teatro

Atualizado: Sexta-feira, 22 Outubro de 2010 as 4:18

Ele não quer te fazer rir, nem bancar o herói. Malvino Salvador volta ao teatro com o competente drama "Mente Mentira", em cartaz em  São Paulo, escrito pelo americano Sam Shepard, sob direção de Paulo de Moraes. Produzida e protagonizada pelo galã, a peça conta ainda no elenco com Fernanda Machado, Zecarlos Machado, Malu Valle, Roza Grobman, Keli Freitas, Marcos Martins e Augusto Zacchi.

Com humor agressivo e diálogos densos, "Mente Mentira" conta a história de duas famílias afetadas pela violenta separação de seus filhos Jake (Malvino) e Beth (Fernanda). Traumatizada, Beth volta a ficar sobre os cuidados de um pai egocêntrico e bonachão, uma mãe submissa e um irmão temperamental. Já Jake volta aos braços da protetora e dos irmãos para apagar seus fantasmas. "É um texto que fala da complexidade dos sentimentos do ser humano. Da condição do homem perante a sociedade e perante ele mesmo", analisa Salvador.  A peça finaliza temporada em São Paulo dia 31 deste mês e estreia no Rio de Janeiro em 12 de novembro, no Teatro Laura Alvim. Em entrevista, o ator fala sobre a densidade da obra de Shepard, o trabalho como produtor e do prazer de estar no palco.

Você leu este texto há cerca de cinco anos. Por que 'Mente Mentira' lhe agradou tanto?

É um texto que fala da complexidade dos sentimentos do ser humano. Da condição do homem perante a sociedade e perante ele mesmo. Do que pode ser real e ilusão na busca da felicidade. O texto vai atingindo camadas mais profundas de compreensão a cada cena provocando reflexão sobre o universo das relações e de qual o real sentido da vida. E isto não se realiza de maneira óbvia e pedante – nenhum personagem dá lição de moral – mas num complexo e inteligente jogo de cena, as vezes dramático, as vezes engraçado e temperado com uma certa dose de suspense que estimula a percepção do público. Nunca havia tido contato com um texto tão intrigante. Por isso me esforcei para levá-lo aos palcos.

O texto original soma quatro horas de encenação. No Brasil foi enxugado para duas horas. Como chegaram a este resultado? Fizeram muitas alterações no texto para adaptar ao público brasileiro?

Houve alguns cortes sim, mas nada que tirasse a essência da obra do autor. Pelo contrário, acho que os cortes foram necessários para deixar o público mais interessado nas cenas. Na montagem original tinha um banda que tocava na peça e isto provavelmente a deixava mais longa. A linguagem  também era bem realista. A nossa é um pouco realista, um pouco expressionista e às vezes as personagens entram numa camada de abstração. Essa linguagem usada pelo nosso diretor, o Paulo de Moraes, fez com que a peça necessitasse de um ritmo próprio e por isso preservou-se partes mais essenciais do texto e extraiu-se outras.

O trabalho de Shepard tem como característica um agudo olhar sobre relacionamentos. Como isso é abordado na peça?

Ele começa explorando a relação do casal para depois se aprofundar nas relações familiares. Em peças anteriores ele apoia a dramaturgia nas relações específicas entre irmãos ("Oeste Verdadeiro"), de casal ("Loucos de Amor") e familiar ("Criança Enterrada"), entre outras. Em "Mente Mentira" ele se aprofunda em todos esses temas juntos.

Apesar de ser cultuado nos EUA, Sam Shepard ainda é mais conhecido no Brasil por seu trabalho como ator. Acha que isso deve mudar com o sucesso de 'Mente Mentira'?

Acho que "Mente Mentira" pode ajudar algumas pessoas a se interessarem por outras obras do autor e talvez até outros diretores se arrisquem a montar uma peça dele. Sam Shepard é tido como um autor difícil de ser montado no Brasil, por causa do "americanismo" intrínseco à sua obra. Mas quando se trata de temas universais como o das relações entre casal e da família, é possível quebrar esta barreira.

Você estreia como produtor? Como está sendo este trabalho?

Duro, difícil, mas ao mesmo tempo estimulante. Trabalho todos os dias. Preciso estar atento a tudo, para que as engrenagens da produção funcionem bem. Exige-se muita responsabilidade. Ao mesmo tempo estou adquirindo um conhecimento precioso acerca da minha profissão e me sinto feliz com o resultado da peça.

O que a experiência como ‘produtor’ mudou no modo de pensar do ‘ator’?

Acho que sou um pouco mais flexível na função de produtor, pois sei dos anseios dos atores, e estou mais flexível na função de ator, pois agora sei das dificuldades da produção.

Sua primeira peça foi há cerca de 10 anos. 'Mente Mentira' é praticamente uma reestreia ao teatro?

Minha primeira peça foi em 2001, logo que cheguei em São Paulo. De lá pra cá estudei, fiz seis novelas na Globo e dois filmes. Acho que agora é minha grande estreia no teatro.

A peça fica em cartaz até este mês em São Paulo. Tem já planos para turnê ou temporada no Rio de Janeiro?

Sim. Pretendo levar a peça ao Rio, a partir de novembro, e outras cidades do Brasil o mais breve possível. Um texto como este não pode ter vida curta. E a montagem está fazendo sucesso. Temos de compartilhá-lo com o público.

E depois desta viagem ao universo de Shepard, já pensa em novos projetos?

Demorei um ano e meio até achar este texto. Tinha semana que lia uma peça de teatro por dia. Gosto do teatro que me instiga, me provoca e me desafia. Amo ver teatro e fazer teatro. Por isso quero fazer uma coisa de cada vez e com calma. Acho que "Mente Mentira" tem potencial para continuar algum tempo ainda. As pessoas estavam no início um pouco receosas de sair de casa para assistir um drama, mas estão começando a perceber que a peça é densa, mas não pesada. Tem sensibilidade. E tem humor. O boca a boca e as criticas estão atraindo cada vez mais o público.

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