'Meus filmes não são sobre a morte, são sobre a vida', diz Alejandro Iñárritu

'Meus filmes não são sobre a morte, são sobre a vida', diz Alejandro Iñárritu

Atualizado: Quinta-feira, 20 Janeiro de 2011 as 12:03

Há cinco anos, o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu terminava uma trilogia e uma premiada parceria ao mesmo tempo. Após "Amores brutos" (2000) e "21 gramas" (2003), ele e o roteirista Guillermo Arriaga colocavam nos cinemas o audacioso "Babel", longa rodado em diversos países - e idiomas - com Brad Pitt e Cate Blanchett, que teve sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, diretor e roteiro.

Nesta sexta-feira (21), estreia no país o lírico "Biutiful", primeiro trabalho de Iñarritu sem o parceiro de longa data. Também é o primeiro filme sem as famosas subtramas paralelas (mas que se cruzam) com narrativa não-linear que marcaram a sua carreira.

A história gira em torno de Uxbal (Javier Bardem), um espanhol de classe média-baixa, pai de duas crianças e espiritualmente sensitivo. Após descobrir ter um câncer terminal, ele procura a redenção no trabalho (é fornecedor de trabalho escravo e de produtos piratas) e com a família (sua relação com a ex-esposa e o irmão), para que sua morte faça o seu espírito ir em paz.

Pelo papel, Bardem ganhou o prêmio de melhor ator no festival de Cannes de 2010. Já o longa foi indicado neste ano ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e está entre os favoritos do Oscar para a mesma categoria.

Iñárritu devia ter vindo ao Brasil nesta semana para divulgar "Biutiful", mas cancelou a visita devido a conflitos em sua agenda pessoal. De Los Angeles, o diretor conversou com o G1 por telefone e defendeu a tese de que seus filmes não são sobre a morte, mas sobre as casualidades da vida.

G1 – "Biutiful" é o seu primeiro filme que foge das subtramas e da não-linearidade narrativa. Também foi rodado apenas em espanhol. Isso fez dele um trabalho mais simples?

Alejandro Iñárritu - Bem, eu realmente pensei que fosse ser um filme simples quando comecei as filmagens, mas não foi. Muito pelo contrário: foi tão difícil e complexo quanto os outros três filmes que realizei.

G1 – "Amores brutos", "21 gramas" e "Babel" têm a morte como tema e até foram chamados de "trilogia da morte". Em "Biutiful" o mesmo assunto é retratado, mas de uma maneira mais espiritual. A morte lhe fascina? E o espiritismo?

Iñárritu - Creio que gosto de explorar o pesar da morte, explorar o observar da morte. Meus filmes não giram em torno da morte, mas acerca da vida, das casualidades da vida. A verdade é que não sei responder à segunda pergunta. O que sei é que existe uma busca individual de crer que existe algo além da vida. Creio se tratar de uma ficção conveniente. Eu, pessoalmente, não questiono crenças. Gosto muito da discussão que existe sobre vida após a morte, ela me parece uma reflexão às vezes mais intelectual do que religiosa.

G1 – Por ser em espanhol, "Biutiful" teve muitas dificuldades em ser distribuído nos cinemas americanos. Para um filme teoricamente não comercial existe então uma certa obrigação de vencer prêmios?

Iñárritu – Não há derrotas e perdedores em premiações. Não faço filmes para não serem vistos, apenas para exibi-los para um grupo de amigos enquanto bebemos algo. O que a aceitação da crítica faz é ajudar os meus trabalhos a chegarem sem embargo. Essa é a vitória real.

G1 – O cinema mexicano e argentino, principalmente, são os grandes destaques da América Latina nos últimos anos. Como você analisa o cinema produzido nesses países e no Brasil?

Iñárritu – Hoje existem talentos individuais, esforços individuais, muito importantes nesses países. Algo que me parece é que os latino-americanos têm um interesse muito grande pelo não grande. Existem comédias comerciais, claro, mas os nossos grandes êxitos são de filmes que trazem visões individuais, profundas. Sinto que os cineastas latinos têm a necessidade de fazer um trabalho pessoal e honesto. Sempre.

Sobre o cinema brasileiro, conheço o trabalho de Fernando Meirelles, do Walter Salles e de outros diretores brasileiros, mas confesso que nos últimos anos não tenho visto a muitos filmes para emitir aqui uma opinião importante. Walter é um amigo querido, com um talento latente, e tenho muito apreço por ele.

G1 – Você pretende voltar a filmar no México? Existe interesse em abordar problemas reais do país, como o narcotráfico?

Iñárritu – A verdade é que estou cuidando de um par de coisas. Sou um homem que tira um intervalo de três em três anos para fazer um filme, gosto de ter tempo. Para abordar um tema que diz respeito a uma situação limite do meu país eu preciso separar as perspectivas para ver uma coisa mais profunda. Meu medo seria fazer apenas uma ilustração, uma dramatização desses eventos reais.

G1 – O Guillermo Arriaga disse em entrevistas que não veria "Biutiful". Como é a sua relação com ele hoje?

Iñárritu – Tenho a lembrança de três ótimos filmes que colaboramos juntos. Não temos mais contato algum, também não vi seu filme ("Vidas que se cruzam", de 2008). Nossa relação está ligada apenas à memória.

G1 – Se você pudesse indicar um filme ao Oscar, qual seria ele?

Iñárritu – Não vi todos os favoritos, mas um filme que gostei muito foi "Blue valentine". Ele não está entre os principais, mas é muito bonito e tem um argumento poderoso: fala do coração

Por: Gustavo Miller

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