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Milícia é monstro que tomou conta do Rio, diz autor de Cidade de Deus

Milícia é monstro que tomou conta do Rio, diz autor de Cidade de Deus

Atualizado: Terça-feira, 26 Outubro de 2010 as 8:37

Eufórico com a notícia de que o filme “Cidade de Deus”, baseado em seu romance, ocupa o sexto lugar em uma lista dos 25 melhores filmes de ação de todos os tempos, conforme divulgado terça-feira (19) pelo diário britânico "The Guardian", o escritor Paulo Lins diz que se sente recompensado por sua obra ter conquistado tamanha dimensão, jogando luz sobre a miséria, a criminalidade e a falta de oportunidades para os jovens das favelas.

Ele fala ainda do projeto de pacificação do governo do estado, as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), cuja favela Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio, onde cresceu, foi uma das primeiras contempladas.

Ele lamenta, no entanto, que tantos inocentes continuem sendo mortos na guerra do narcotráfico nas favelas do Rio. Morando atualmente em São Paulo, ele dedica-se a seu novo projeto, o roteiro para o filme “Faroeste Caboclo”, inspirado na letra da música de mesmo nome do grupo Legião Urbana.

Lins, hoje um respeitado escritor, além de poeta, professor, roteirista de televisão e de filmes como “Quase 2 Irmãos” e “Orfeu”, espera que a ocupação dos morros e favelas pela polícia traga à reboque oportunidades para os jovens, que dizem encontrar no tráfico a única alternativa de trabalho.   O romance “Cidade de Deus”, lançado em 1997, virou filme pelas mãos do diretor Fernando Meirelles e transformou-se num grande sucesso no Brasil e no exterior. O longa-metragem brasileiro de 2002 ainda recebeu quatro indicações ao Oscar.

A ideia do livro surgiu do contato de Paulo Lins com a comunidade, o que facilitou seu trabalho antropológico sobre a criminalidade e as condições em que vivem os moradores das favelas. Foram oito anos de pesquisa.

Sob seu olhar, de morador da favela, Lins mostra como surgiu o tráfico de drogas, os pequenos furtos da década de 1960 até o avanço da criminalidade, com a formação das quadrilhas fortemente armadas e os confrontos com a polícia.

O que você tem percebido em relação ao projeto das UPPs?

- As ocupações são necessárias, mas na verdade nunca faltou polícia na favela. E só não funcionava porque existe esse crime de corrupção no judiciário, no legislativo e no executivo misturado ao racismo, pobreza e a falta de instrução há muito tempo no Brasil. A polícia e os professores sempre estiveram presentes na favela, porém os professores sem os recursos necessários e a polícia de modo corrupto e violento.

Nos últimos anos o número de armas ilegais cresceu sistematicamente em todo território. Eu não sei como e nem o porquê, mas as autoridades devem uma explicação à sociedade sobre esse fenômeno dentro desse país que sempre foi violento, sobretudo com os negros e os mais pobres.

Precisa ser uma discussão séria e não eleitoreira sobre a população armada no país. A gente tem que retirar de circulação esse monte de armas que às vezes vão parar nas mãos de nossas crianças. E imediatamente parar o comércio de armas e munição.

Mas já existe um clima de mais segurança nas comunidades com a presença das UPPs e a expulsão dos traficantes armados.

- É claro que os lugares onde mora o povo pobre deve haver segurança como existe onde mora o povo com mais poder aquisitivo. A questão é a recuperação dos jovens envolvidos na criminalidade. Esse é o grande trabalho que o Estado deve fazer. E para isso, tem que transformar as cadeias num centro formador, num lugar de produção, de ensino, de aprendizado.

Muita gente morreu nos confrontos no início do governo do Sérgio Cabral, inclusive inocentes, e na Cidade de Deus não foi diferente. Alguns amigos me falaram que mataram pessoas rendidas. Isso é execução. E no Brasil não tem pena de morte. As cadeias no Brasil continuam sendo faculdade do crime. O sujeito vai preso e sai mais perigoso. Isso beira a tolice, é como criar cobra. Agora eu não sei por que a população toda não abraça a escola e a saúde pública.   O outro inimigo são as milícias. Você acredita que será possível combater esses grupos formados em sua essência por policiais corruptos?

- Não se pode esquecer que as milícias não são um fato novo em nossa realidade. Antes mesmo da milícia “Mão Branca”, na Baixada

Fluminense, que essa relação de micros comerciantes e outros homens de pequeno poder - policiais, guardas penitenciários, bombeiros e militares - surgiu entre nós.

Foi de acordos para “limpar a área” que as milícias nasceram há cerca de quarenta anos atrás. E seria bom colocar em pauta a segurança

privada que também é uma espécie de milícia e já tivemos vários crimes com pessoas que atuam nesse serviço. Geralmente é o mesmo tipo de gente que atua nas milícias.

Em Rio das Pedras (favela em Jacarepaguá), reduto da antiga “Polícia Mineira” que as milícias ganharam força e se espalharam por toda Zona Oeste. E, pasmem, com apoio ou vista grossa de todos os governos e de uma parcela da sociedade.

Hoje é esse monstro que tomou conta do Rio de Janeiro. Só espero que a polícia aja sempre com mais inteligência e menos violência no combate ao crime em nossa cidade.

Você esperava que seu livro alcançasse tamanha repercussão, até no exterior?

- Não, nunca pensei nisso e nem escrevi pensando no alcance da obra. A minha questão era fazer uma literatura com base no trabalho de Alba Zaluar (antropóloga). Era um projeto muito mais acadêmico, laboratorial, pesquisa científica na universidade. A gente estava experimentando nesse casamento de antropologia e literatura. Eu queria reconstruir a linguagem que se falava nas ruas, que eu falava e também tinha a possibilidade de inventar palavras. Era isso que me excitava mais. Estava muito ligado em Guimarães Rosa, Sousândrade (Joaquim de Sousa Andrade, escritor), Leminski (Paulo, poeta) e ao mesmo tempo estava lendo os historiadores franceses, os filósofos alemães, enfim era uma época de muito debate na poesia, na prosa e nas ciências sociais.

Você acredita que seu trabalho ajudou a chamar a atenção do poder público para as questões sociais nas comunidades ?

- O que é mais importante é que “Cidade de Deus” provocou uma avalanche de trabalho com essa linguagem e tema. Tanto na literatura, cinema, teatro, música e televisão, provocando um imenso debate na sociedade que até então tinha uma visão muito estreita sobre racismo, analfabetismo, violência urbana, tráfico de drogas e pobreza.

Era isso que na verdade eu queria: jogar luz nessa miséria. A gente tem que entender que tudo que está no “Cidade de Deus” estava já nos jornais, no rádio e na televisão todos os dias. A diferença é que no livro tinha arte e sentimento e é essa a razão desse debate todo. Minha preocupação era mesmo esse fórum que se instaurou.

Por que você saiu de Cidade de Deus?

- Eu me mudei para perto do Centro, onde estão os teatros, os museus, as bibliotecas, os arquivos. Queria morar mais perto do trabalho. Isso há mais de vinte anos, antes mesmo de publicar o livro. Eu dava aula no Centro do Rio nessa época.

Como está o projeto do filme “Faroeste Caboclo”?

- Vamos filmar ano que vem. Já temos o dinheiro todo para filmar.    

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