Moradores de Angra ainda sofrem consequências das chuvas

Moradores de Angra ainda sofrem consequências das chuvas

Atualizado: Quarta-feira, 1 Setembro de 2010 as 9

Os moradores de Angra dos Reis, na Costa Verde do estado do Rio de Janeiro, ainda sofrem até hoje, oito meses depois, as consequências da chuva que assolou a cidade durante a festa do réveillon de 2009 e deixou 53 pessoas mortas.

Os problemas já começam na estrada que leva à cidade. A Rio-Santos ainda está tomada por obras de contenção de encosta. São dezenas de placas, ao longo de toda a rodovia, indicando queda de barreira.

De acordo com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), são 14 pontos da Rio-Santos onde estão sendo executadas obras de contenção de encosta. A rodovia sofreu 44 deslizamentos entre o km 445 e km 594 devido às chuvas de janeiro, fevereiro e abril.

Em alguns trechos, a estrada funciona no esquema siga e pare. O Dnit informou ainda que cerca de R$ 103 milhões foram investidos até o momento. A previsão é que as obras estejam concluídas no final de outubro.

Turismo caiu mais de 80%

Já para os donos das pousadas na Enseada do Bananal, em Ilha Grande, o problema é a falta de turistas. Eles são unânimes ao afirmar que a movimentação no local caiu mais de 80% e os prejuízos depois da chuva do dia 1o são imensos.

“A gente já estava com os meses de janeiro, fevereiro e março com a pousada lotada e foi tudo cancelado depois do réveillon”, conta Cláudio Uehara, mais conhecido como Dinho, dono da pousada Okinawa. Uma das grandes dificuldades dos empresários do Bananal é mudar a imagem da praia que ficou conhecida pela morte de 33 pessoas e o desabamento de parte da pousada Sankay. “Com as notícias que saíram, parecia que a Sankay toda tinha demolido, mas ficou tudo em pé. Se tivesse perigo, eu seria o primeiro a sair daqui”, desabafou Dinho.

Sigueko Hadama, uma das sócias da pousada Casa Nova, conta que desde a tragédia não consegue retomar o fluxo de turistas.”Sem dúvida foi o pior ano que já passei. Não está dando nem para pagar conta de luz”, disse ela.

Reflorestamento de orla

A principal reivindicação de moradores e donos de pousadas da Enseada do Bananal é a obra a ser realizada na orla onde ocorreu o deslizamento. Os entulhos continuam no local e a imagem negativa prejudica ainda mais a vida tanto dos empresários quanto de quem vive ali. Eles afirmam que a prefeitura da cidade prometeu reflorestamento e a construção de um muro.

“Ficaram de consertar, reflorestar mas está paralisado. Está muito feio, precisa de obra urgente. Foi prometida para julho, mas até agora nada. A imagem é muito ruim para os turistas”, disse Cláudio Uheara, da pousada Onikawa.

De acordo com o secretário de Meio Ambiente de Angra dos Reis, Marco Aurélio Vargas, a continuidade da obra só depende de uma decisão da Justiça, pois o dono de uma das casas que precisam ser demolidas conseguiu uma liminar impedindo que seu imóvel venha abaixo. O secretário afirmou ainda que pretende construir um memorial das vítimas do deslizamento no local. Pousada Sankay será demolida

A pousada Sankay, que ficou conhecida após o grande deslizamento no Bananal e que matou a filha dos donos do estabelecimento, Yumi Faraci, será demolida.

A afirmação foi feita pelo secretário de Meio Ambiente de Angra dos Reis, Marco Aurélio Vargas.

Segundo empresários da ilha, Geraldo e Sônia Faraci, os donos da Sankay, se mudaram do local. Cláudio Uheara, dono de uma pousada no Bananal, contou que o casal autorizou a demolição e também já vendeu objetos e materiais de construção da Sankay, como telhas.

“A pousada está assim hoje, só com destroços, porque eles tiraram tudo. Mas só uma pequena parte que foi atingida pela chuva”, explicou ele.

Mais de mil moradores ainda vivem de aluguel social

Fora da Enseada do Bananal, mais consequências das chuvas de Angra do Reis. Cerca de 1.300 famílias afetadas pela tragédia ainda vivem com o aluguel social, dado pela prefeitura, no valor de R$ 510.

O produtor cultural Bruno Marques teve sua casa, no Morro da Carioca, interditada em janeiro. Dois meses depois, o imóvel dele e mais outras três casas de seus familiares vieram abaixo, com a chuva que atingiu a cidade em março. Ninguém ficou ferido. Ele e toda a família vivem de aluguel social desde então.

Os desabrigados do Morro da Carioca, onde 20 pessoas morreram após o deslizamento da virada do ano, se uniram e criaram um blog, denominado Desabrigados de Angra dos Reis, para divulgar a luta das vítimas das chuvas. Apartamentos pequenos

Outro problema vivido por quem teve a vida afetada pela chuva é tamanho dos 800 apartamentos que estão sendo construídos para os desabrigados. Eles afirmam que a metragem dos quartos não é suficiente para comportar um jogo de cama de casal e armário.

“O projeto fere o código de obras do município, que afirma que o mínimo de um quarto tem que ser de 9 metros quadrados. Nesse apartamento, o quarto tem 8 metros quadrados. Falta espaço. Além disso, acima de três pavimentos tem que ter um elevador. Lá o prédio é de cinco andares e só tem escada”, contestou Bruno Marques, que teve sua casa soterrada no Morro da Carioca.

Segundo a prefeitura de Angra, os apartamentos têm cerca de 45 metros quadrados, com dois quartos, sala, banheiro, cozinha e varanda. As obras são realizadas em três áreas da cidade: Japuíba, Areal e Pousada da Glória.

As 800 unidades habitacionais estão previstas para serem entregues em dezembro. Muro gigante

Mais uma obra ainda em andamento em Angra dos Reis, depois da tragédia, é um gigantesco muro de contenção que está sendo erguido no Morro da Carioca. Serão 300 metros de extensão, cerca de 10 metros de altura e 5 metros de largura. Para isso, a prefeitura já demoliu mais de 600 casas interditadas pela Defesa Civil e ainda pretende derrubar outras dezenas.

O objetivo é evitar novos deslizamentos e proteger as casas que ficam abaixo. A obra está sob a responsabilidade do governo do estado.

O gasto total da obra, segundo a prefeitura, será de R$ 14 milhões. Ainda de acordo com a prefeitura, a previsão é de que o muro fique pronto em dezembro. Entretanto, o secretário afirmou que não é possível estabelecer um prazo de entrega porque é uma obra complexa.

Família que perdeu casa de 4 quartos agora se aperta para dormir

Dona Olívia Nunes dos Santos morava em uma casa de quatro quartos, varanda grande, além espaço para criar cachorro, no Morro da Carioca. Depois da chuva do réveillon, o local foi interditado e o casarão, no qual ela gastou todas as economias, foi demolido pela Defesa Civil.

Atualmente, ela vive com os filhos, as netas e o genro em uma casa em frente ao local da tragédia, de dois quartos, onde todos se apertam para dormir. “Eu ainda tive tempo de tirar as minhas coisas, mas a minha filha perdeu tudo o que tinha”, conta ela, que chegou a morar em outros dois bairros da cidade depois do deslizamento.

A filha dela, a dona de casa Jucilene Nunes dos Santos, de 26 anos, contou que até hoje não conseguiu recuperar nada do que perdeu na noite do réveillon, quando sua casa foi soterrada. “Saímos todos com a roupa do corpo, a roupa da festa. Foi o pior ano que passei na minha vida. Meu sogro ficou soterrado, mas meu marido conseguiu tirar ela a tempo. Essa imagem não sai da minha cabeça”, lamenta ela.

Para Jucilene, o mais justo seria as famílias receberam uma indenização em vez do apartamento que será doado pelo governo do estado. “Meu marido viu o tamanho, disse que é muito pequeno, nossa casa era espaçosa. E para quem sempre viveu em casa, se mudar para um apartamento assim é muito difícil”, contesta.

A família disse ainda que os preços dos aluguéis subiram muito desde a tragédia e que o os R$ 510 do aluguel social não dão para pagar. “Pago R$ 700 nessa casa aqui, minha sogra paga R$ 650 na dela, você não encontra mais barato do que isso”.

Postado por: Thatiane de Souza

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