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Moradores de Itaquera esperam que estádio transforme região carente

Moradores de Itaquera esperam que estádio transforme região carente

Atualizado: Quinta-feira, 20 Outubro de 2011 as 9:15

Arnaldo Ferreira (de boné) vai todas as manhãs ao canteiro de obras acompanhar

a construção do estádio (Foto: Carolina Iskandarian/G1)

  Pelos próximos três anos, o mundo vai voltar seus olhos para Itaquera, bairro na periferia da Zona Leste de São Paulo. É na boca do Metrô e do trem e à margem da Radial Leste, um dos principais acessos viários para o Centro, onde será erguido o estádio do Corinthians, que deve ser anunciado nesta quinta-feira (20) pela Fifa como palco da abertura da Copa do Mundo de 2014. Os moradores estão ansiosos para a inauguração do estádio e esperam que ele traga o progresso que, dizem, parou no caminho há décadas. O anúncio acontece a partir das 13h30 da quinta na Suíça.   Por quatro sub-regiões, somando uma área de 55 m², – Cidade Líder, Itaquera, José Bonifácio e Parque do Carmo –, vivem cerca de 524 mil  pessoas. Itaquera ainda é conhecido como bairro-dormitório. Quem mora ali reclama da falta de emprego, escolas, universidades, hospitais e áreas de lazer. O movimento pendular é bastante característico: trânsito pesado nas manhãs e no fim do dia, na volta para casa. Ônibus, trens e metrô chegam e saem lotados nos horários de pico.

“Itaquera é um bairro-dormitório. Temos 4 milhões de pessoas só na Zona Leste e 500 mil aqui. As pessoas têm que sair para estudar, trabalhar. A gente tem a expectativa que, com o estádio, venham os benefícios”, afirma o consultor em informática Francisco Carlos da Silva, de 40 anos, nascido e criado em Itaquera. Para 2014, ele aponta o que precisa mudar. “Tem que ter mais transporte, fazer mais vias, avenidas. O acesso ao campo tem que ser livre.”

Acostumado a brigar por melhorias na região – ele criou uma associação que oferece esporte e aula de informática para a comunidade, - Silva vê o estádio com ressalvas. “A gente não pode jogar nas costas do Corinthians a defasagem da Zona Leste. Estamos com 20 anos de atraso em matéria de transporte, educação, esporte e saúde. Nunca tive acesso a ginásios poliesportivos por aqui.” Por isso, Silva, que também é corredor e treina alguns atletas, pintou na própria rua da associação uma pista de atletismo com 200 metros e cinco raias. “Meu sonho é que todas as especulações positivas aconteçam.”

Fiéis observadores

Enquanto elas não vêm, os torcedores do Corinthians – há grande concentração deles na Zona Leste – acompanham a construção do estádio de perto. Todos os dias, há quem pare por alguns instantes para ver o movimento de tratores e operários no canteiro de obras. “Moro aqui do lado e todas as manhãs venho para cá. Antes, eu costumava empinar pipa e jogar bola nesse terreno”, conta o corintiano e ambulante Arnaldo Veras Ferreira, de 33 anos, na beira da Radial Leste.

A poucos metros dali, as composições do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) cortam o bairro em um entra-e-sai constante. Por dia, de acordo com o Metrô, embarcam na Estação Corinthians-Itaquera (Linha 3- Vermelha) 101 mil pessoas. Nos trens da CPTM (Linha11 – Coral), são 26 mil passageiros passando pelas catracas desde as primeiras horas do dia. No mesmo complexo, onde há as duas estações, existe um terminal de ônibus, que se torna mais uma opção de transporte para chegar à região.

Raízes

Ignês, Suely e Claudio foram criados desde bebê

em Itaquera (Foto: Carolina Iskandarian/ G1) Segundo a Subprefeitura de Itaquera, o bairro conta com apenas nove salas de cinema, oito delas dentro do Shopping Metrô Itaquera, e uma na própria subprefeitura, que exibe filmes gratuitamente para a comunidade. Para os 524 mil moradores, são apenas três bibliotecas públicas. As principais áreas verdes para o lazer ficam por conta do Parque do Carmo, do Parque Raul Seixas e do Sesc Itaquera.

Os moradores dizem que é pouco, mas quem nasceu em Itaquera, nos tempos em que o ar puro ajudava no tratamento de tuberculosos, não quer sair dali. “A gente cria raízes”, diz a aposentada Ignês Mastrocola Gomes, de 75 anos. Assim como ela, o pai nasceu no bairro, onde ficou até os últimos dias. Segundo a família, Nicolino Mastrocola, em 1907, foi a primeira criança nascida registrada em Itaquera. Como homenagem, ganhou nome de rua.

“Nasci na Mooca (também na Zona Leste), mas com três anos vim para cá. Todos os rios eram bons de nadar, a água era limpinha. Fruta? Eu nem precisava comprar. Pegava laranja e goiaba na beira da estrada”, conta Claudio Gomes, de 86 anos, marido de Ignês. Ele lembra que, nas décadas de 1930 e 1940, o trajeto para o Centro era feito em uma Maria Fumaça. Onde hoje está o trem e o terreno do estádio, conta, havia uma grande plantação de eucaliptos.

“Itaquera mora no coração da gente”, diz Suely Aparecida Gomes Colalto, de 53 anos, filha de Ignês e Claudio. Itaquerense de berço, casou e educou seus dois filhos no bairro. “Acho que a saúde aqui deixa a desejar”, diz a professora, que não deixa de ser otimista. “Quanto mais gente vier para cá, mais melhorias teremos. Com isso tudo, podem criar mais empregos. Tem muitas pessoas vindo para Itaquera por causa do estádio.”

Empregos de herança

Khemal Batista, 76, nasceu em Itaquera e mostra

trem Maria Fumaça, da década de 1940, que

passava na região (Foto: Carolina Iskandarian/ G1)

  Para a arquiteta e urbanista Maria Lúcia Refinetti Martins, professora da Universidade de São Paulo (USP), o principal legado do estádio deve ser a criação de postos de trabalho permanentes na Zona Leste, principalmente em Itaquera. “O estádio pode tornar a área mais conhecida, mas isso não implica desenvolvimento e melhor qualidade de vida. O importante é gerar emprego.”

Segundo ela, se isso ocorrer, Itaquera pode até se tornar um polo atrativo para as pessoas que moram em bairros ainda mais afastados da Zona Leste e precisam todos os dias se deslocar para as regiões centrais da capital. "A região pode se tornar um ponto para reduzir a necessidade de locomoção para o Centro. Não é o estádio que vai puxar (esse crescimento sozinho)."

Maria Lúcia defende que o estádio seja utilizado sempre, mesmo depois da Copa. “Poderia ser uma área de lazer e de formação, usando o espaço para criar cursos.” Ela também diz não achar ruim o estádio receber shows, mas que sejam “dentro de uma perspectiva acessível e não muito caros”. Que show que nada. O paulistano Khemal Attalla Batista, 76, não vê a hora de ouvir os gritos da torcida quando o estádio estiver pronto.

Ele nasceu em Itaquera, “nunca saiu” do bairro e se emociona quando lembra o passado. “Aqui era um grande sítio. Na Avenida Itaquera passava boiada, a gente caçava passarinho. Quando brincávamos de esconde-esconde, eu me escondia nas valetas que a água da chuva abria na rua. Não tinha asfalto. O progresso veio bem devagarzinho.”

Agora, o progresso, para ele, é o estádio de pé. “Desde que me sinto corintiano, com uns 10 anos, sempre esperei o Corinthians ter um campo. Agora, no fim da vida, tomara Deus que possa ver a inauguração”, afirma Khemal.

Moradores de Itaquera dizem esperar melhorias com a construção do

estádio (Foto: Carolina Iskandarian/ G1)          

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