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'Morria de medo do Kadhafi', diz líbio que fugiu do país para o Brasil

'Morria de medo do Kadhafi', diz líbio que fugiu do país para o Brasil

Atualizado: Sexta-feira, 21 Outubro de 2011 as 8:20

El Zwei nasceu na Líbia, mora hoje em São Paulo, e diz ter visto Kadhafi

de perto uma vez. Ele não festejou a morte do ditador, mas sim a 'liberdade

 da Líbia' (Foto: Carolina Iskandarian/ G1)

  Os olhos do empresário Mohamed El Zwei, de 50 anos, se enchem d'água quando ele é questionado sobre as imagens mostrando a morte do líbio Muammar Kadhafi . Fugido do país africano quando tinha 26 anos por não ver, segundo ele, um futuro próspero em meio ao regime nada democrático, El Zwei diz jamais ter suportado a imagem do ditador. “Eu morria de medo do Kadhafi”, revela o empresário, que veio para o Brasil há 24 anos e hoje mora em São Paulo. O empresário conversou com o G1 em um hotel da Zona Norte da capital paulista, horas depois de saber da morte de Kadhafi, que governou a Líbia por 42 anos. “Por religião, fomos ensinados que não podemos ficar felizes com a morte de ninguém, mesmo que seja um inimigo. Fico feliz pela liberdade da Líbia, não pela morte do Kadhafi”, diz o muçulmano El Zwei, justificando ter ficado emocionado com a pergunta feita antes.

Mas ele diz não guardar boas lembranças do ditador. “O principal motivo que me fez vir para cá foi o Kadhafi. Ele tratava a gente mal. Eu era jovem e achava que a Líbia não era um bom país para mim porque faltava liberdade e democracia”, conta El Zwei.

O empresário se mostra esperançoso quanto ao futuro do país africano a partir de agora. “Acho que a Líbia vai ter progresso, democracia, vai estar no caminho certo.” El Zwei elogia também o trabalho do Conselho Nacional de Transição (CNT), o governo provisório instituído no país. “Acho o conselho excelente porque estão planejando que a Líbia seja um país democrático, (governado) pelo voto. Isso é uma novidade.”

Kadhafi na escola

El Zwei nasceu em Benghazi, no leste do país. Foi lá onde começaram as primeiras manifestações de protesto ao governo do ditador em fevereiro deste ano. O empresário, que deixou a mãe e os seis irmãos na cidade natal, diz que acompanhou as notícias da guerra com “apreensão” e afirma com alívio não ter tido nenhum parente ferido.

A primeira e única vez que viu Kadhafi de perto foi quando tinha uns 16 anos. “Ele foi visitar nossa escola. Não falei com ele. Morria de medo do Kadhafi”, afirma o muçulmano, que torcia por um outro futuro para o ditador. “Ele tinha que ter sido julgado, mas um julgamento em que não tinha outra saída, e sim a pena de morte. A forma como ele morreu foi muito forte. Na hora do nervosismo, acontece qualquer coisa.”

Vinda para o Brasil

El Zwei conta rindo que veio parar no Brasil “por acaso”. Não conhecia o país, o idioma, a moeda, mas sabia que era fácil cruzar o Atlântico e desembarcar nos trópicos. Hoje, ele tem a cidadania brasileira. “Eu queria o visto para os Estados Unidos, mas demorava 60 dias. Aí ouvi dizer que para o Brasil levava apenas 48 horas.” Por causa do trabalho – ele abriu uma empresa de comércio exterior e diz ter negócio com os líbios –, o muçulmano vai ao país de origem várias vezes por ano, mas afirma que não trocaria o Brasil pela Líbia. “Faria isso (a escolha) mil vezes.”

A primeira cidade escolhida como moradia no país foi o Rio de Janeiro. Pouco depois, mudou-se para são Paulo. Hoje, é casado com uma brasileira e tem dois filhos, um adolescente de 14 anos e outro menino de 7. Para estreitar os laços afetivos e os negócios com os líbios, El Zwei e um grupo de amigos criaram a Associação de Amizade e Cooperação Brasil Líbia. “Como sou líbio de raiz e brasileiro de coração, se os países não tivessem boas relações eu sairia daqui. Quero que meus filhos amem a Líbia como amam o Brasil.”        

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