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MPT recebe dossiê sobre uso de agrotóxicos no Apodi

MPT recebe dossiê sobre uso de agrotóxicos no Apodi

Atualizado: Sexta-feira, 20 Agosto de 2010 as 9:19

A professora explanava sobre os impactos do agrotóxico nas comunidades da Chapada do Apodi. Mas foi interrompida por uma homenagem - a um protagonista da luta contra o agrotóxico. Era um grupo de manifestantes que adentrava o auditório, lembrando os quatro meses de morte do ambientalista José Maria Filho - assassinado com 19 tiros em abril, em Limoeiro do Norte.

Os gritos eram de “Companheiro Zé Maria, aqui estamos nós, falando por você, já que calaram a sua voz”. E foram repetidos várias e várias vezes por membros dos movimentos sociais que foram ao auditório da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (Fafidam), em Limoeiro. A professora Raquel Rigotto, que comandava a apresentação, também participou da homenagem.

Raquel Rigotto, médica e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), descrevia a pesquisa, iniciada há três anos. É um estudo epidemiológico da população do Baixo Jaguaribe exposta a contaminação ambiental em área de uso de agrotóxico. Foram estudadas oito comunidades, que abrigam cerca de mil moradores cada. São oito mil pessoas, no total, expostas ao veneno, segundo ela.

Populações de Limoeiro do Norte, Quixeré e Russas foram analisadas, além da cultura de abacaxi, melão e banana, maiores responsáveis pelo agronegócio na região. Em uma das comunidades estudadas, cita a professora, foi constatada a presença do endossulfam, substância tóxica que teve uso banido pelo Ministério da Saúde nesta semana.

Foram achados ainda sete tipos de veneno na comunidade Cabeça Preta. “E esse veneno é na água que é oferecida à comunidade, naquela que vai servir pra fazer a mamadeira do neném”, cita ela.

Um dado preocupante foi a quantidade de agrotóxico que é pulverizada na região - 73.750 litros de calda tóxica a cada pulverização aérea, ou seja, a cada vez que o avião joga nas plantações. Como as casas da região são próximas aos bananais, a situação é ainda mais problemática, porque o contato aumenta.

Durante a apresentação de ontem, um dossiê do estudo foi entregue ontem a representantes do Ministério Público do Trabalho (MPT), presentes no auditório da Fafidam. Receberam o dossiê Geórgia Aragão, procuradora do Trabalho, e Bianca Leal, promotora de justiça de Limoeiro do Norte. “Vamos analisar o documento e constatar se há subsídios para uma ação civil pública”, declarou a representante do MPT.

Morte sob suspeita

Rigotto apresentou também um estudo feito com um agricultor de 29 anos, empregado da cultura do abacaxi. Em agosto de 2008, ele era considerado sadio. Três meses depois, morreu de uma doença hepática grave. Depois de o caso ter sido estudado por especialistas do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), foi constatado que a hepatite foi induzida por substâncias tóxicas.

Segundo a professora, que é médica do Trabalho, mestre em Educação e doutora em Sociologia, o Ceará é o quarto estado do País em número de estabelecimentos que usam agrotóxicos. Na pesquisa, foram entrevistados 496 trabalhadores do agronegócio, moradores de assentamentos e pequenos e médios produtores.

ENTENDA O CASO

Em 21 de abril, Zé Maria foi assassinado. Ele denunciou a desapropriação dos agricultores devido à implantação de grandes projetos de irrigação e o uso de agrotóxicos e a pulverização aérea na região.

Em maio, uma audiência pública em Limoeiro discutiu a pulverização aérea das lavouras da Chapada do Apodi. A lei municipal que proibia as pulverizações acabou revogada.

No dia 21 de julho, em protesto em Fortaleza, manifestantes pediam agilidade nas investigações do assassinato do ambientalista. Familiares e amigos participaram da passeata. Até o momento, não foram apontados os mandantes ou executores do crime.

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