Mulheres envolvidas com tráfico são 93% do total em presídio de MS

Mulheres envolvidas com tráfico são 93% do total em presídio de MS

Atualizado: Sexta-feira, 8 Julho de 2011 as 11:45

Muitas mulheres continuam sendo presas por tráfico de drogas na região de fronteira com a Bolívia. A forma teoricamente mais fácil de ganhar dinheiro, acaba terminando com uma triste realidade: mães que deixam os filhos e tentam reconstruir a vida atrás das grades. Os motivos são muitos. "Não sei ler, não sei escrever, não tive oportunidade de estudar", conta a detenta do presídio feminino de Corumbá, Andréia da Silva. Ela está presa há mais de três anos e reforça uma estatística que só cresce no Brasil.

Dados do Conselho Nacional de Justiça apontam que dois terços da massa carcerária feminina do Brasil são de mulheres acusadas por tráfico de drogas. Em Mato Grosso do Sul, das 1024 detentas, mais de 800 foram presas por causa desse tipo de crime.

Em Corumbá, 93% das internas estão no presidio feminino por terem praticado tráfico de drogas. A penitenciária tem atualmente 134 detentas. Desse total, 125 foram flagradas transportando ou vendendo entorpecentes. Quase a metade delas é de origem boliviana.

Apreensões recentes da Polícia Federal e do Departamento de Operações de Fronteira retratam essa realidade. Na última semana, em apenas três dias, sete mulheres foram presas na cidade transportando quase 30 de cocaína. Em um dos casos, uma idosa de 77 anos tentou levar para São Paulo 19 quilos da droga. O entorpecente estava escondido em potes de creme para cabelos e em peças de artesanato que estavam dentro da mala da idosa, no bagageiro do ônibus.

De acordo com a polícia, geralmente essas mulheres são influenciadas pelos companheiros. "Muitas vezes elas não têm alternativa financeira, porque antes elas tinham o rendimento do marido, que trabalhava no crime ou não, e agora elas buscam uma forma de manutenção da família", explica o delegado Enilton Zala.

É o caso da boliviana Mirian Casanova, de 23 anos de idade. Condenada a mais de seis anos de prisão, ela só cumpriu um sexto da pena até agora. "Comecei a viajar, porque vi que o dinheiro estava fácil. Aí conheci outra pessoa, ela caiu presa e me envolveu no crime", relata.

Mãe solteira, outra boliviana - que não quis se identificar - também resolveu ganhar dinheiro de maneira mais fácil. Em setembro do ano passado, foi contratada por traficantes para levar um carregamento até São Paulo. Eram quase 400 calças jeans engomadas com cocaína. Depois de uma denúncia anônima, a Polícia Federal apreendeu a mercadoria e a boliviana foi presa. "Como na Bolívia não temos muito recurso, então apareceu isso e eu aceitei. Sem pensar que viria para esse lugar, e hoje estou arrependida", diz.

É no momento do banho de sol que as detentas se reúnem. As histórias de arrependimento se misturam com as de desespero. Foi pensando nos filhos que Carla Lúcia Bezerra também resolveu traficar. Ela foi flagrada com 175 gramas de cocaína. "Não deu certo, estou aqui pagando meu erro, mas é muito triste estar em um lugar desse", afirma.

Segundo a polícia, muitas vezes as mulheres são utilizadas no tráfico por que levantam menos suspeita do que os homens. A estratégia não deu certo com a enfermeira boliviana Eulália. Ela diz que o salário da clínica onde trabalhava, não dava para pagar as contas da família. Preocupada, aceitou a oferta de um conhecido para levar uma mala até Campo Grande. No meio do caminho, o nervosismo entregou o crime.

Há pouco mais de um ano, um trabalho de reinclusão social foi iniciado no presídio feminino de Corumbá. No projeto, as detentas trabalham em atividades do estabelecimento e em troca, têm a pena reduzida. Aulas do EJA (Educação para Jovens e Adultos) também são realizadas na penitenciária. A cada três dias de aula, menos um no cumprimento da pena.

Dona Beth começou a reconstruir a vida dentro da cadeia. Ela tem 52 anos e foi presa há dois anos transportando cocaína dentro de um ônibus. A boliviana diz que tem aprendido muito com as aulas e que no futuro quer repassar as lições positivas para filhos e netos. "Para que meus filhos nunca cometam esse erro que eu cometi", diz.

Uma lição de vida que Sorania Leite também está aprendendo na prisão. "Quero sair daqui, arrumar um serviço e continuar estudando, não quero mais esse mundo do crime porque não compensa", afirma.

Uma realidade que só esta sendo possível com educação, segundo o juiz Anderson Royer. "É o principal método para entrar na mente de uma pessoa e dar a ela conhecimento de uma realidade que ela nunca teve. E com isso, a médio e longo prazo, talvez nós conseguimos fazer com que essa pessoa esteja incluída na sociedade", argumenta.          

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