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'Não tenho coragem de voltar', diz morador de bairro em Teresópolis

'Não tenho coragem de voltar', diz morador de bairro em Teresópolis

Atualizado: Segunda-feira, 17 Janeiro de 2011 as 3:49

O pedreiro Odair da Silva Cruz, de 34 anos, perdeu a casa e todos os bens por causa das chuvas em Teresópolis, na Região Serrana do Rio. Ele morava no bairro Campo Grande, um dos mais atingidos pelas chuvas, e agora divide espaço com cerca de 350 pessoas em um abrigo do município. Desde o temporal, ele e os irmãos procuram notícias do pai, João Almeida da Cruz Neto, de 74 anos. “Eu só queria meu pai, o resto a gente consegue de novo”, afirma.

Ele ainda não teve coragem de ir até o bairro onde morava - a casa veio abaixo com a chuva - para ver se consegue recuperar alguma coisa. “Não tenho coragem, a tragédia foi impressionante. Construí minha vida lá e perdi tudo”, disse. O pedreiro contou ainda que o pai estava na varanda da casa da filha quando foi surpreendido e arrastado pela correnteza. “A água o arrancou da varanda. Foi uma onda muito forte”, lembrou. O filho acredita que ele foi levado pelo rio, mas “está vivo por aí”.   O pedreiro, a mãe e cinco irmãos tiveram que caminhar durante horas até chegar a um lugar seguro. “Foi uma agonia. A gente estava lutando pela vida, com fome. Passei com lama pela cintura no alto do morro. Para onde nós íamos, tinha morro caindo. Passavam pedras de dois andares de altura. Eu sou um sobrevivente”, relatou. Uma criança e dois adolescentes, filhos de vizinhos, foram levados pela água para perto da residência de João Almeida. O pedreiro e os irmãos resgataram os três e os levaram para fora do bairro.

Entre os desabrigados ou desalojados, histórias comuns de dor e sofrimento. O jardineiro Paulo da Silva Reis, de 59 anos, perdeu três sobrinhas na tragédia. “Foi muito ruim, muita tristeza”, afirma. Ele e a mulher saíram sem ferimentos porque, ao perceber que a chuva estava muito forte, saíram de casa e foram se abrigar em um colégio próximo. “Deus que nos ajudou a sairmos”, garante. O filho, que mora em outro bairro de Teresópolis, também está bem.   A cozinheira Ana Maria Fernandes, de 45 anos, não perdeu parentes, mas lembra do desespero dos vizinhos. “Quando a gente acordou, tinha acontecido tudo. Vi gente morta, casa destruída, pessoas pedindo ajuda. Eu nunca vi uma coisa dessas. O bairro acabou, está condenado”, conta ela, que mora em Pessegueiros. Depois que todos da família saíram, a casa desabou. Só sobraram inteiros a geladeira e o fogão.

No abrigo do bairro Meudon, algumas pessoas reconheciam a casa em fotografias de jornal. As imagens traziam à tona o desespero da madrugada de quarta-feira. “Está tudo destruído”, comentou a dona de casa Helena Maria Dias, de 48 anos, ao ver no jornal o bairro onde viveu por tantos anos.

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