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No 1º dia de julgamento, Nayara culpa Lindemberg e defesa acusa imprensa

No 1º dia, Nayara culpa Lindemberg e defesa acusa imprensa

Atualizado: Terça-feira, 14 Fevereiro de 2012 as 8:37

O primeiro dia do julgamento de Lindemberg Alves Fernandes, réu pela morte da ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, em outubro de 2008, foi marcado pelo depoimento de Nayara Rodrigues, Iago Vilela e Victor Lopes, que permaneceram em cárcere privado com a vítima, em Santo André, no ABC Paulista. Nayara disse nesta segunda-feira que, desde o primeiro momento, Lindemberg falou em matar Eloá. A defesa, porém, trabalha com a tese de que a interferência da imprensa e a inabilidade da Polícia Militar nas negociações foram fatores determinantes para o desfecho do caso.

O julgamento estava marcado para as 9h desta segunda-feira, mas começou somente às 11h, após a escolha dos jurados: seis homens e uma mulher. Eles tiveram seus nomes sorteados.

O Ministério Público abriu os trabalhos exibindo um vídeo, de menos de cinco minutos, com uma reportagem daTV Globo em que o perito Ricardo Molina analisa os atos que antecederam os disparos contra as reféns. De acordo com a reportagem, não há dúvidas de que Lindemberg foi o autor dos tiros que mataram Eloá e feriram a amiga dela.

Na sequência, a defesa exibiu mais de três horas de vídeos com reportagens em que é questionada a ação do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), da Polícia Militar, e o trabalho da imprensa.

Em uma das reportagens exibidas, o Conselho Tutelar critica o retorno de Nayara ao cativeiro, culpando a PM. Já em outras imagens exibidas, a crítica é contra o trabalho da imprensa que, para a defesa, interferiu e atrapalhou nas negociações, contribuindo para que o cárcere privado durasse mais de 100 horas.

"Todos, no meu ponto de vista, são corresponsáveis (pela tragédia). Inclusive a sociedade", afirmou a advogada Ana Lúcia Assad, que representa Lindemberg, ao explicar porque quis exibir as reportagens ao júri. Segundo ela, a estratégia não foi "cansar" os jurados, mas esclarecer a "verdade".

Durante a exibição, Lindemberg não demonstrou nenhuma reação, mantendo a cabeça erguida, o olhar fixo e as mãos fechadas. Logo no início da sessão, a pedido da defesa, a juíza Milena Dias autorizou que fossem retiradas as algemas, contrariando o pedido da promotora Daniela Hashimoto. A escolta policial, porém, não foi dispensada.

Depoimentos

A primeira pessoa a depor foi Nayara Rodrigues, que foi baleada no rosto no desfecho do cárcere. Durante as duas horas em que falou, a estudante não mostrou dúvidas sobre a intenção de Lindemberg desde o princípio: matar Eloá.

"Quando Lindemberg chegou ao apartamento, ele se surpreendeu com a minha presença e a de mais dois amigos na casa de Eloá, onde faríamos um trabalho de escola. Ele rendeu todo mundo e, em determinado momento, disse que a intenção dele era matar a Eloá e sair andando", disse.

Os amigos de Eloá, Iago e Victor, que foram mantidos reféns no primeiro dia do cárcere, confirmaram a versão de Nayara. "Ele falava que ia matar todo mundo e depois se matar. Que ia matar a Eloá e depois se matar.

Falou que ninguém ia sair vivo de lá", disse Iago, que passou cerca de 11 horas no local. Na ocasião, ele namorava Nayara.

Victor e Iago estudavam na mesma sala que Nayara e Eloá, e estavam na casa da vítima fazendo um trabalho escolar no momento em que Lindemberg invadiu o local e os fez reféns. Os estudantes foram soltos no primeiro dia, mas contaram que aguardaram o desfecho do sequestro do lado de fora, pois estavam preocupados com as amigas.

A advogada Ana Lúcia acusou Nayara de ter mentido em seu depoimento. "Eu diria que ela estava bem orientada, até simulou um choro. Mas isso faz parte. Ela não tinha compromisso com a verdade, porque ela é vítima", afirmou a advogada, ao deixar o fórum. Ana Lúcia não especificou, porém, em que momento a estudante teria mentido. "Eu diria que em alguns momentos ela mentiu, aumentou, encenou e até fingiu que estava emocionada", reforçou.

Negociação

No último depoimento do dia, o sargento da Polícia Militar do Estado de São Paulo Atos Antonio Valeriano, primeiro a atender o caso de cárcere privado, afirmou que classifica Lindemberg como "desequilibrado".
Valeriano foi o responsável pela negociação com Lindemberg nas primeiras 22 horas da ocorrência policial. Ele afirmou que durante todo esse tempo, o réu alternou momentos de alguma tranquilidade com outros de bastante desequilíbrio. Durante a negociação, o sargento disse que Lindemberg atirou contra ele e que o tiro acertou uma parede 30 cm acima da sua cabeça.

Justiça

Antes do início do julgamento, a mãe da vítima, Ana Cristina Pimentel, disse esperar que Lindemberg seja condenado. Ela afirmou que não conseguiu dormir na noite anterior e que a sua única expectativa é que seja feita justiça.

"O que se espera é que haja uma definição e que ele seja condenado", afirmou, emocionada. Em cima da hora, ela e o filho mais novo, Douglas, foram convocados pela defesa para depor.

Ao todo, 19 testemunhas, sendo cinco de acusação e 14 de defesa foram convocadas. Foram dispensados o perito Nelson Gonçalves e a jornalista Ana Paula Neves (Record), para que a mãe e o irmão de Eloá fossem ouvidos. Outras quatro testemunhas foram dispensadas pelos advogados de Lindemberg: os jornalistas Roberto Cabrini (SBT), Sônia Abrão (Rede TV!), e Reinaldo Gotino (Record), e o perito Ricardo Molina. A Promotoria discordou das substituições.

O julgamento de Lindemberg deve durar cerca de três a quatro dias. Acusado de ter cometido 12 crimes, ele pode pegar mais de 100 anos de prisão, se for condenado.

O mais longo cárcere de SP

A estudante Eloá Pimentel, 15 anos, morreu em 18 de outubro de 2008, um dia após ser baleada na cabeça e na virilha dentro de seu apartamento, em Santo André, na Grande São Paulo. Os tiros foram disparados quando policiais invadiam o imóvel para tentar libertar a jovem, que passou 101 horas refém do ex-namorado Lindemberg Alves Fernandes. Foi o mais longo caso de cárcere privado no Estado de São Paulo.

Armado e inconformado com o fim do relacionamento, Lindemberg invadiu o local no dia 13 de outubro, rendendo Eloá e três colegas - Nayara Rodrigues da Silva, Victor Lopes de Campos e Iago Vieira de Oliveira. Os dois adolescentes logo foram libertados pelo acusado. Nayara, por sua vez, chegou a deixar o cativeiro no dia 14, mas retornou ao imóvel dois dias depois para tentar negociar com Lindemberg. Entretanto, ao se aproximar do ex-namorado de sua amiga, Nayara foi rendida e voltou a ser feita refém.

Mesmo com o aparente cansaço de Lindemberg, indicando uma possível rendição, no final da tarde no dia 17 a polícia invadiu o apartamento, supostamente após ouvir um disparo no interior do imóvel. Antes de ser dominado, segundo a polícia, Lindemberg teve tempo de atirar contra as reféns, matando Eloá e ferindo Nayara no rosto. A Justiça decidiu levá-lo a júri popular.

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