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Nova Cracolândia em área nobre de SP assusta motoristas

Nova Cracolândia em área nobre de SP assusta motoristas

Atualizado: Quarta-feira, 9 Fevereiro de 2011 as 1:53

Quem passa pela avenida Jornalista Roberto Marinho, no Campo Belo, zona sul de São Paulo, e vê seus “novos moradores” diz que a sensação é uma mistura de constrangimento, tristeza e medo. O canteiro central da via, por onde passa o córrego Água Espraiada, foi transformado em ponto de consumo de crack. Dezenas de dependentes se acumulam ali, dia e noite, compondo uma "nova Cracolândia" na capital.

Por volta das 11h30 do dia 21 de janeiro, quando a reportagem do R7 esteve no local, já era possível ver usuários escondidos atrás do muro. Alguns dormiam, outros consumiam a droga. PMs passam perto do canteiro e descem do carro, expulsando os chamados “craqueiros”. Eles se espalham, entram nas ruas que cortam a avenida e voltam para o mesmo lugar em pouco mais de meia hora.

Uma das usuárias, conhecida como Magrela, ironiza a situação e diz que é mais fácil “colocar uma grade em volta do córrego e transformá-lo em uma clínica”.

- A polícia vem aqui, mas não adianta. Não é uma questão de polícia. É um problema de saúde. Aí, eles levam a gente para a cadeia. Na cadeia, eu fumei crack, eu fumei maconha. Nem dez dias eu fiquei. De que adiantou?

Magrela diz ter nascido e crescido no bairro. Aos 32 anos, ela viveu os últimos 15 entre melhoras e recaídas no vício do crack. Há sete meses, a usuária vive perto do córrego Água Espraiada.

- Eu sempre fui muito louca. Eu queria conhecer a loucura das drogas. Adoro beber. Sou alcoólatra de carteirinha.

Ela chora ao falar dos três filhos - de oito, quatro e três anos de idade -, que estão sob a guarda de sua irmã. E diz que foi abandonada pela família.

"Motoristas reféns"

Quem passa de carro todos os dias pela avenida fica refém da situação. O analista de sistemas Felipe Benedito conta que se mudou recentemente para um prédio muito próximo à avenida e vê essa mesma cena todos os dias. A sensação, segundo ele, é de insegurança.

- Me sinto mal. Principalmente à noite, quando aqui fica bem movimentado. Eles transitam por aqui, te param no trânsito... É complicado.

O advogado Paulo Jorge se diz “bastante preocupado” com a situação. Um piloto de avião, que preferiu não se identificar, afirma que se sente constrangido ao ver os usuários fumando às margens do córrego Água Espraiada.

- Me preocupa, porque a gente sabe que a droga leva o cara a te assaltar ou fazer qualquer outra coisa quando está doidão.

A situação também incomoda o despachante Afonso Pantoni, que transita com frequência pela via.

- Os caras queimam direto aqui. Eu me sinto mal, mal. A gente que é trabalhador, passar por aqui é ruim.

A situação também atrapalha o comércio no local. Felipe Leite, gerente da loja de conveniência Select, conta que os viciados entram na loja para trocar o dinheiro que é pedido no sinal de trânsito.

- Como a gente funciona 24 horas, durante a madrugada aqui é um inferno. Só os nóias da Espraiada entrando, saindo, roubando chocolate. A gente tem um segurança, mas mesmo assim, não inibe não (...) A polícia passa, faz ronda, mas não adianta. Eles ficam atrás do murinho, dentro do rio, então eles não veem. Ela repreende um e outro, mas não adianta não... É doença já.

O que dizem as autoridades

A GCM (Guarda Municipal Metropolitana) informou que trabalha no local há cerca de seis meses, promovendo atividades esportivas com o objetivo de "aproximar a corporação da sociedade e ampliar a rede de proteção social, contribuindo também para a diminuição de criminalidade e aumentando a sensação de segurança". O órgão diz ter instalado uma base comunitária móvel em frente ao piscinão das 6h às 18h e que também faz rondas noturnas.

Ao receber denúncias, a GCM diz enviar uma viatura para o local. "Se for pessoas em situação de risco, as mesmas serão encaminhadas aos órgãos competentes para tratamento/encaminhamento. Se a solicitação derivar de uma conduta tipificada, como crime, aí então cabe a condução ao distrito policial para ciência da autoridade", afirma a GCM, por meio de nota.

Já a prefeitura de São Paulo afirma que, desde 2005, a cidade "vem recebendo grandes investimentos para implementar uma política de atenção integral a pessoa com transtorno mental, incluindo as que fazem uso abusivo de álcool e outras drogas".

Por meio de nota, a assessoria de imprensa da prefeitura informou que a Secretaria Municipal de Saúde disponibiliza diversos leitos e que "todas as unidades hospitalares do município de São Paulo estão preparadas para atender pacientes psiquiátricos, entre eles, dependentes químicos". São 21 Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas que atendem de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h ou das 8h às 18h.

A prefeitura informa ainda que, desde 2008, a secretaria faz um trabalho de abordagem ao dependente químico. "Quando o paciente aceita ser avaliado, o encaminhamento se dá por meio de triagem, por um grupo de enfermeiros e médicos psiquiatras." O trabalho faz parte da Ação Integrada Centro Legal, parceria entre a prefeitura, governo do Estado, Poder Judiciário, Ministério Público e sociedade civil, criada para recuperar o centro da cidade.

A Secretaria de Segurança Pública informa que "o trabalho da Polícia Civil é investigar todos os crimes praticados na região desde que as ocorrências sejam devidamente registradas pelas vítimas nas delegacias da área. Também é importante ligar para o número 190 assim que a vítima sofrer o crime pois a ação ágil da Polícia Militar pode levar à prisão dos autores".

A Polícia Militar diz que "tem atuado de forma direta na questão de segurança do bairro de Campo Belo, especificamente no entorno da avenida Jornalista Roberto Marinho e nas comunidades que ali se encontram". De acordo com a PM, nos últimos dois anos, 327 pessoas envolvidas em tráfico e porte de drogas nas comunidades da avenida foram presas em flagrante. A corporação apreendeu 29 armas de fogo, prendeu 243 pessoas em flagrante delito por outros crimes e apreendeu 157 menores infratores. "A grande maioria das prisões envolve crianças e adolescentes. Por muitas vezes, os infratores são presos mais de uma vez".    

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