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Ocupação na Cracolândia faz 100 dias em São Paulo

Ocupação na Cracolândia faz 100 dias em São Paulo

Atualizado: Quinta-feira, 12 Abril de 2012 as 9:52

A ação de policiais e agentes públicos na Cracolândia, em São Paulo, completa cem dias nesta quinta-feira (10) com, entre outros números, 4,6 quilos de crack apreendidos, 446 internações em centros de saúde e 87 denúncias de abuso policial, segundo dados oficiais. A reportagem do G1 esteve na região, ouviu moradores, autoridades e constatou no local que, apesar da mudança na rotina no Centro, os dependentes seguem na área e também passaram a demarcar território em bairros vizinhos.

As medidas adotadas pela PM, governo do Estado e Prefeitura não evitaram que dependentes simplesmente mantivessem a presença em outras vias na região. O G1 esteve na região na noite de sábado (7) e no início desta semana e encontrou dezenas sentados na calçada da Rua dos Gusmões e na Rua do Triunfo. Para quem vive nas ruas antes ocupadas, houve melhoras.

Dono de uma marcenaria na esquina da via com a Alameda Dino Bueno, Rodrigues Cunha, de 64 anos, diz perceber mudanças. "Agora os fregueses estão vindo. O governo deveria ter feito isso há tempos e não deixar chegar ao ponto que chegou", avalia.

O promotor de Justiça de Direitos Humanos Eduardo Valério afirma que houve migração de dependentes para outras áreas, sem eliminar os pontos anteriores de consumo.  “Não tem mais apenas uma Cracolândia, tem várias”, disse  “Tal como prevíamos, as cracolândias estão espalhadas pela cidade.”

De acordo com a secretária da Justiça do Estado, Eloísa de Souza Arruda, a dispersão dos usuários já era esperada e faz parte da estratégia. “A migração facilitou o trabalho dos agentes de saúde e assistência social. Era mais difícil abordar as pessoas em um grupo de 800, mil pessoas, do que agora em grupos menores.”

Denúncias

Nesses cem dias, pelo menos 87 denúncias de abusos policiais contra dependentes foram feitas à Defensoria Pública de São Paulo. Segundo a secretária Eloísa, esses casos estão sendo apurados. De acordo com a PM, as denúncias viraram inquéritos que têm 30 dias para ser concluídos, mas podem ser prorrogados. A corporação afirmou que prima pelas condutas corretas. O G1 também pediu que um porta-voz da PM fizesse um balanço das ações desenvolvidas no Centro, mas não obteve retorno.

A Secretaria Municipal da Saúde também se apóia em números para mostrar o andamento do trabalho. Segundo a pasta, foram feitas até esta quinta 30.906 abordagens, 2.599 encaminhamentos para unidades de saúde e 446 internações. A pasta afirma existir 150 agentes de saúde atuando na região há dois anos e meio.

Os dados a favor e contra a operação constarão em um inquérito civil aberto em janeiro pelo Ministério Público. Em fase conclusiva, a investigação já colheu os depoimentos de 20 pessoas – incluindo o ex-comandante geral da PM coronel Álvaro Camilo e a vice-prefeita e secretária de Assistência Social, Alda Marco Antonio. O objetivo da Promotoria é tentar entende a lógica da operação da PM.

Flagrantes de consumo

No sábado (7), a reportagem do G1 flagrou dezenas de usuários de crack na Praça Júlio Prestes. Minutos depois, policiais militares passaram pela praça e fizeram o grupo se dispersar. O grupo se deslocou para a Rua dos Gusmões, na esquina com a Rua dos Protestantes.

Embora estivessem em frente ao prédio do Comando Geral da Guarda Civil Metropolitana, os usuários passaram o resto da tarde na mesma esquina sem ser incomodados. Integrantes do grupo colocados estrategicamente nas esquinas próximas de onde a maioria se reúne avisam aos gritos quando a polícia se aproxima.

Para o porteiro e o zelador de uma edifício residencial localizado a menos de um quarteirão, entretanto, a situação não mudou nada. "Tiraram da Helvétia e trouxeram tudo para cá, para a Rua Santa Efigênia. Só mudaram os caras de lugar", afirmou o zelador Genildo Lima, do edifício Gilberto. "Fecho as portas às dez da noite. Tem que sair e entrar com o máximo cuidado", diz o porteiro Cassiano Dias Buriti.

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